segunda-feira, 21 de maio de 2018

O Diário Secreto da Senhorita Demetria Cheever Capitulo 5

Uma semana ou mais depois, o sol brilhava tão deslumbrantemente que Demetria e Selena, tendo saudades suas habituais estadias no campo, decidiram passar a manhã explorando Londres. Ante a insistência de Selena, começaram pelo bairro comercial.
—Na realidade não necessito outro vestido — disse Demetria quando passeavam rua abaixo, suas criadas seguindoas a uma distância respeitosa.
—Nem eu, mas sempre é muito divertido olhar, e por outra parte, talvez encontremos algumas quinquilharias ou algo do estilo para comprar com nosso dinheiro para gastos menores. Seu aniversário chegará antes que nos demos conta.
— Deve comprar um presente.
—Talvez o faça.
Ambas perambularam por lojas de roupas, chapelaria, joalherias e confeitarias antes que Demetria encontrasse o que sem saber tinha estado procurando.
—Olhe isso, Selena — suspirou. — Não é magnífico?
—O que não é magnífico? —replicou Selena, examinado a vitrine elegantemente decorada da livraria.
—Isso. —Demetria assinalou com o dedo a uma cópia requintadamente encadernada de A Morte D'Arthur do Sir Thomas Malory. Parecia caro e precioso, e Demetria não desejava nada mais que inclinarse através da janela e inalar o ar que flutuava ao redor deste.
Pela primeira vez em sua vida, viu algo que simplesmente devia possuir. Esquecendose de sua economia. Esquecendose de seu espírito prático.
Suspirou profunda, expressiva e urgentemente, logo disse:
—Acredito que finalmente compreendo seus sentimentos para os sapatos.
—Sapatos? —Repetiu Selena, olhando os pés. — Sapatos?
Demetria não se incomodou em explicar mais. Estava muito ocupada em inclinar a cabeça para poder admirar o pão de ouro que decorava as páginas.
—Já lemos este — insistiu Selena. — Acho que foi há dois anos, quando a Senhorita Lacey foi contratada como nossa tutora. Não recorda? Estava consternada porque ainda não tínhamos lido.
—Não me importa se já lemos — disse Demetria, aproximandose muito mais do vidro. — Não é o objeto mais belo que viu?
Selena observou a amiga com uma expressão vacilante.
—Hein... Não.
Demetria sacudiu a cabeça ligeiramente e levantou o olhar para Selena.
—Suponho que isto é o que converte à arte em algo importante. O que pode fazer que uma pessoa entre em êxtase ou pode falhar em comovêlo.
—Demetria, é um livro.
—Esse livro — Demetria determinou com firmeza — é uma obra de arte.
—Parece muito antigo.
—Eu sei. —Suspirou felizmente Demetria.
—Comprará?
—Se tiver o dinheiro suficiente.
—Achei que poderia. Não gastou seu dinheiro para gastos menores em anos.
Sempre o guardou naquele vaso de porcelana que Adam enviou por seu aniversário faz cinco anos.
—Seis.
Selena piscou.
—Seis o, que?
—Foi há seis anos.
—Faz cinco ou seis anos, qual é a diferença? —exclamou Selena, parecendo bastante exasperada pela exatidão de Demetria. — A questão é que tem dinheiro suficiente guardado, e se deseja sinceramente esse livro, deve comprálo para celebrar seu vigésimo aniversário. Nunca compra nada para você mesma.
Demetria virou para a tentação que a chamava na janela. O livro tinha sido colocado em um pedestal e estava aberto em uma página do centro. Com brilhantes cores uma ilustração retratava Arthur e Guinevere.
—Deve ser caro — disse ela infeliz.
Selena lhe deu um pequeno empurrão e disse:
—Nunca saberá se não entrar e perguntas.
—Tem razão. Farei! — Demetria lhe brindou um sorriso que oscilava entre o entusiasmo e o nervosismo, logo se dirigiu à loja. A confortável livraria estava decorada em tons ricos e masculinos, abarrotada com cadeiras de couro colocadas em lugares estratégicos para aqueles que possivelmente quisessem sentar e folhear um volume.
—Não vejo o proprietário — cochichou Selena na orelha de Demetria.
—Justo ali. —Demetria fez gestos com a cabeça para um homem magro e parcialmente calvo próximo à idade de seus pais. — Olhe, está ajudando aquele homem a encontrar um livro. Esperarei até que esteja desocupado. Não desejo incomodar.
As duas damas esperaram pacientemente durante uns poucos minutos enquanto o livreiro estava ocupado. De vez em quando, dirigialhes um olhar carrancudo, que desconcertou muito Demetria, tanto ela como Selena se vestiam apropriadamente e obviamente podiam permitir comprar a maior parte da mercadoria. Finalmente, ele terminou sua tarefa e se dirigiu apressadamente para elas.
—Perguntavame, senhor... — começou a dizer Demetria.
—Esta é uma livraria para cavalheiros — disse ele com voz hostil.
—Ah. —Demetria retrocedeu um pouco intimidada pela atitude. Mas como desejava desesperadamente o livro do Malory, engoliu seu orgulho, sorriu docemente, e continuou. — Desculpeme. Não me dei conta disto. Mas esperava que...
—Já disse que esta é uma loja de cavalheiros. —Os pequenos e brilhosos olhos se estreitaram. — Rogo que parta.
Rogar? Ela o olhou fixamente, os lábios abertos com assombro. Rogar? Com esse tipo de tom?
—Vamos, Demetria — disse Selena, agarrando pela manga. — Devemos ir.
Demetria apertou os dentes e não se moveu.
—Queria comprar um livro.
—Estou seguro que assim é — disse o livreiro. — E a livraria para damas fica tão somente um quarto de milha.
—A livraria para damas não tem o que desejo.
Ele sorriu zombeteiramente.
—Então estou seguro que você não deveria lêlo.
—Não acredito que esteja em posição de emitir esse julgamento, senhor — disse Demetria friamente.
—Demetria — murmurou Selena, com olhos abertos.
—Só um momento — respondeu ela, sem afastar os olhos do pequeno e repulsivo homem. — Senhor pode assegurar que possuo amplos recursos. E se você só me permitisse revisar A Morte D'Arthur, talvez possa persuadilo a separarse deste.
Ele cruzou os braços.
—Não vendo livros a mulheres.
Na verdade, isso tinha chegado muito longe.
—Desculpe?
—Vá embora — grunhiu, — ou terei necessariamente que expulsálas.
—Isso seria um engano, senhor — contradisse Demetria bruscamente. — Sabe quem somos nós? —Não lhe era habitual aproveitar seu nível superior, mas não se opunha a fazêlo se a ocasião pedisse.
O livreiro não estava impressionado.
—Certamente eu não me importo.
—Demetria — suplicou Selena, extremamente incômoda.
—Sou a Senhorita Demetria Cheever, filha do Sir Rupert Cheever, e esta — disse Demetria com um floreio, — é Lady Selena Bevelstoke, filha do Conde de Rudland. Sugiro que volte a considerar sua política.
Ele igualou seu altivo olhar.
—Não me interessa se você for à maldita Princesa Carlota. Saia de minha loja.
Demetria semicerrou os olhos antes de moverse para sair. Era o suficiente mau que ele a tivesse insultado. Mas tamanha afronta à memória da princesa, estava além dos limites.
—Você não escutou o final desta conversa, senhor.
—Fora!
Ela tomou o braço de Selena e deixou o local em um arranque de fúria, fazendo que a porta desse um bom golpe.
—Pode acreditar? — disse uma vez que estavam seguras do lado de fora. Isso foi horroroso. Criminal. Foi...
—Uma livraria para cavalheiros — interrompeu Selena, olhandoa como se de repente tivesse brotado uma cabeça a mais.
—E?
Selena se esticou ante seu tom quase agressivo.
—Há livrarias para cavalheiros e livrarias para damas. É a maneira habitual.
Demetria fechou com força os punhos.
—É uma maldita e estúpida maneira, se me perguntar isso.
—Demetria! —ofegou Selena de forma audível. — O que acaba de dizer?
Demetria teve a graça de ruborizar ante sua linguagem vulgar.
—Observa quanto fez para me transtornar? Jamais antes me ouviu amaldiçoar em voz alta.
—Não, e não estou segura de querer saber quantas maldições tem em mente.
—É absurdo — fumegou Demetria. — Absolutamente absurdo. Ele tem algo que desejo comprar, e eu tenho o dinheiro para pagar por isso. Deveria ter sido um assunto simples.
Selena olhou furtivamente ao caminho.
—Por que simplesmente não vamos à livraria para damas?
—Não há nada que desejaria em circunstâncias mais ou menos normais.
—Preferiria não frequentar essa espantosa loja para homens. Mas duvido que tenham uma cópia similar de A Morte D'Arthur, Livvy. Estou segura que é um artigo singular. E o pior... —Demetria elevou a voz quando a injustiça de tudo aquilo a embargou mais firmemente. — E o pior...
—Há algo pior?
Demetria a fulminou com um olhar cheio de irritação, mas, entretanto, respondeu:
—Sim. Há. O pior é que se inclusive houvesse duas cópias, o que estou segura não há, a livraria para damas provavelmente não teria uma, de todos os modos, porque ninguém pensaria que uma dama desejaria um livro semelhante!
—Não o fariam?
—Não. Provavelmente esteja repleta de Byron e novelas da senhora Radcliffe.
—Eu gosto de Byron e as novelas da senhora Radcliffe — disse Selena, soando vagamente ofendida.
—Eu também — assegurou Demetria, — mas também desfruto de outro tipo de literatura. E com segurança não acredito que esse homem esteja em posição — assinalou enojadamente com um dedo para a vitrine da livraria — de decidir o que posso ou não posso ler.
Selena a olhou fixamente por um momento, então cortesmente perguntou:
—Desejao muito?
Demetria alisou suas saias e sorveu pelo nariz.
—Muito.
Selena virou para a livraria, e logo lhe dirigiu um olhar de lastima sobre o ombro antes de colocar uma mão consoladora no braço de Demetria.
—Conseguiremos que papai o compre para você. Ou Adam.
—Essa não é a questão. Não acredito que compreenda quanto isto me afeta.
Selena suspirou.
—Quando se converteu em uma guerreira, Demetria? Achava que era eu a desinibida do dueto.
A mandíbula de Demetria começou a doer de tanto apertála.
—Suponho — quase grunhiu — que nunca desejei tanto algo antes deste contratempo.
A cabeça de Selena foi levemente para trás.
—Me lembre de tomar precauções para evitar alterála no futuro.
—Conseguirei esse livro.
—Excelente, faremos que...
—E ele saberá que o obtive. —Demetria deu à livraria um último e agressivo olhar, logo deu longos passos para casa.
—É obvio que comprarei o livro para você, Demetria — disse Adam com condescendência.
Tinha desfrutado de uma tarde bastante tranquila, lendo o jornal e ponderando a vida como um cavalheiro sem compromissos, quando sua irmã entrou como uma explosão na sala, anunciando que Demetria necessitava desesperadamente um favor.
Tudo isto era muito entretido, realmente, especialmente o olhar mortal que Demetria tinha dado a Selena ao usar a palavra desesperada.
—Não quero que você o compre para mim — particularizou Demetria. — Quero que você o compre comigo.
Adam se recostou na cômoda cadeira.
—Há alguma uma diferença?
—Um mundo de diferença.
—Um mundo — confirmou Selena, só que ela sorria, e ele suspeitou que não visse nenhuma diferença.
Demetria lançou outro olhar encolerizado e desta vez Selena realmente retrocedeu e exclamou.
—O que? Estou te apoiando!
—Não acredita que é um equívoco — Demetria continuou ferozmente, retornando a sua diatribe e dirigindose a ele — que não possa fazer compras em certa loja simplesmente porque sou uma mulher?
Ele sorriu preguiçosamente.
—Demetria, há certos lugares onde as mulheres não podem ir.
—Não pretendo entrar em um de seus preciosos clubes. Somente desejo comprar um livro. Não há nada remotamente inapropriado nisso. É uma antiguidade, por Deus Santo.
—Demetria, se esse cavalheiro for o proprietário dessa loja, pode decidir a quem venderá e a quem não.
Ela cruzou os braços.
—Bem, talvez não devesse ser mimado. Possivelmente deveria existir uma lei que diga que os livreiros não podem impedir a entrada das mulheres em seus estabelecimentos.
Ele levantou uma irônica sobrancelha.
—Você não esteve lendo a essa Mary Wollstonecraft, ou sim?
—Mary quem? —perguntou Demetria com uma voz distraída.
—Bem.
—Não mude de assunto, por favor, Adam. Concorda ou não que devo comprar esse livro?
Adam suspirou bastante esgotado ante sua inesperada teimosia. E tudo por um livro.
—Demetria, por que deveriam lhe permitir a entrada em uma livraria de cavalheiros? Você nem sequer pode votar.
Sua explosão de indignação foi colossal.
—E isso é outro ponto...
Adam se deu conta rapidamente que tinha cometido um engano tático.
—Esqueça que mencionei o direito ao voto. Por favor. Irei com você comprar o livro.
—Irá? —Seus olhos se iluminaram com um suave brilho marrom. — Obrigada.
—Está bem na sextafeira? Não acredito ter nenhum compromisso nessa tarde.
—Ah, eu também quero ir — interrompeu Selena.
—Absolutamente não — disse Adam firmemente. — Uma de vocês é tudo o que posso dirigir. Meus nervos, já sabe.
—Seus nervos?
Deulhe um olhar.
—Vocês os põem a prova.
—Adam! —exclamou Selena. Ela virou para Demetria. — Demetria!
Mas Demetria ainda estava concentrada em Adam.
—Poderíamos ir agora? —perguntou ela, dando a impressão de não ter ouvido uma palavra de sua briga. — Não quero que esse livreiro se esqueça de mim.
—Julgando pelo relato de Selena de sua aventura — disse Adam ironicamente — duvido que isso aconteça.
—Mas, por favor, poderíamos ir hoje? Por favor. Por favor.
—Dáse conta de que está suplicando?
—Não me importa — disse ela imediatamente.
Ele refletiu sobre isso.
—Ocorre que poderia utilizar esta situação a meu favor.
Demetria o olhou entreabrindo os olhos.
—O que é o que quer dizer?
—Ah, não sei. A gente nunca sabe quando talvez necessite um favor.
—Já que não tenho nada que você possa desejar, o aconselho a esquecer de seus inócuos planos e simplesmente me acompanhar à livraria.
—Muito bem. Façamos.
Ele acreditou que ela talvez saltasse de felicidade. Deus bendito.
—Não fica longe — dizia ela. — Podemos ir andando.
—Está seguro de que não posso ir com vocês? —perguntou Selena, seguindoos ao vestíbulo.
—Fique — ordenou Adam benignamente quando observou que Demetria cruzava a porta. — Alguém precisará chamar a guarda quando não retornarmos.
Dez minutos depois, Demetria se detinha frente à livraria da qual tinha sido expulsa mais cedo nesse dia.
—Calma Demetria — escutou Adam murmurar a seu lado. — Parece um pouco atemorizante.
—Bem — respondeu ela sucintamente e deu um passo para frente.
Adam colocou uma mão tranquilizadora no braço dela.
—Me permita entrar antes de você — sugeriu com um brilho de diversão no olhar. — A mera visão de você pode ocasionar ao pobre homem uma apoplexia.
Demetria franziu o cenho, mas permitiu que ele passasse. Não havia maneira de que o livreiro ganhasse desta vez. Vinha acompanhada com um verdadeiro cavalheiro e uma sã dose de raiva. O livro era quase dela.
Uma campainha tilintou quando Adam entrou na loja. Demetria o seguia de perto, quase pisando seus calcanhares.
—Posso ajudar senhor? — perguntou o livreiro, todo com aduladora cortesia.
—Sim, estou interessado em... — Suas palavras se desvaneceram enquanto ela jogava um olhar pela loja.
—Esse livro — disse Demetria firmemente, assinalando para o mostrador na vitrine.
—Sim, esse. —Adam ofereceu ao livreiro um amável sorriso.
—Você! —balbuciou o livreiro, seu rosto ruborizou com a ira. — Fora! Saia de minha loja! —Agarrou o braço de Demetria e tratou de arrastála a porta.
—Pare! Disse para parar! —Demetria não permitiria ser maltratada por um homem que considerava um idiota, agarrou sua bolsa e o golpeou na cabeça.
Adam gemeu.
—Simmons! —gritou o livreiro, chamando o ajudante. — Chame a polícia. Esta senhorita é desequilibrada.
—Não sou desequilibrada, sua grande cabra!
Adam avaliou suas opções. Realmente, não podia haver um bom resultado.
—Sou um cliente que vai pagar — continuou Demetria acaloradamente. — E quero comprar A Morte D'Arthur!
—Morrerei antes que chegue a suas mãos, sua rameira mal educada!
Rameira? Isso era realmente muito para Demetria, uma senhorita cuja suscetibilidade era usualmente mais modesta que a dela possivelmente adotasse a sua atual conduta.
—Você vil... Vil homem — vaiou. Ela levantou sua bolsa outra vez.
Rameira? Adam suspirou. Era um insulto que realmente não podia deixar passar. Além disso, não podia permitir que Demetria atacasse o pobre homem. Agarrou a bolsa de sua mão. O fulminou com o olhar devido á interferência. Semicerrou os olhos e lhe deu um olhar de advertência.
Ele clareou a garganta e se virou para o livreiro.
—Senhor eu devo insistir em que se desculpe com a dama.
O livreiro cruzou os braços desafiadoramente.
Adam olhou Demetria. Seus braços estavam cruzados da mesma maneira.
Olhou para o homem mais velho e disse, um pouco mais fortemente:
—Se desculpará com a dama.
—Ela é uma ameaça — disse o livreiro amargamente.
—Porque você... —Demetria teria se jogado contra ele se Adam não tivesse agarrado rapidamente a parte traseira de seu vestido. O ancião apertou os punhos e assumiu uma postura ameaçadora que era bastante díspar com sua aparência livresca.
—Fique calada — vaiou Adam a ela, sentindo retalhos de fúria desatandose no peito.
O livreiro a fulminou com um olhar triunfante.
—Ah, isso foi um engano — disse Adam. Santo Deus, não tinha o homem sentido comum? Demetria se equilibrou para frente, o que significou que Adam tinha que sustentar o vestido ainda mais firmemente. O que fez que o livreiro assumisse um sorriso mais afetado o que significava essa merda de farsa daria voltas em espiral até converterse em um furacão a grande escala se Adam não solucionasse o assunto imediatamente.
Brindou o livreiro seu mais frio e mais aristocrático olhar.
— Se desculpará com a dama, ou farei que se arrependa muito, de verdade.
Mas o livreiro era claramente um idiota delirante, porque não aceitou a oferta que Adam lhe dava, em sua estimativa, muito generosamente. Em vez disso, jogou para frente à mandíbula agressivamente e anunciou:
—Não tenho nada do que me desculpar. Essa mulher veio a minha loja...
—Ah, demônios — murmurou Adam. Agora não havia forma de evitar a desgraça.
—... Perturbou a meus clientes, insultoume...
Adam apertou a mão em um punho e a dirigiu diretamente ao nariz do livreiro.
—Ah, Deus Bendito — suspirou Demetria. — Acredito que quebrou o nariz dele.
Adam a fulminou com um olhar mordaz antes de baixar o olhar para o livreiro no chão.
—Acredito que não. Não sangra o suficiente.
—É uma pena — murmurou Demetria.
Adam a agarrou pelo braço e a arrastou para ele. A sanguinária e pequena donzela ia conseguir que a matasse.
—Nenhuma outra palavra até que saiamos daqui.
Os olhos de Demetria se alargaram, mas fechou sabiamente a boca e lhe permitiu tirála da loja. Quando passaram pela vitrine, entretanto, ela vislumbrou A Morte D'Arthur e exclamou:
—Meu livro!
Isso foi o cúmulo. Adam se deteve intempestivamente.
—Não quero ouvir outra palavra a respeito de seu condenado livro, você me ouviu?
A boca de Demetria se abriu.
—Entende o que acaba de acontecer? Bati em um homem.
—Mas, por acaso não concorda que ele necessitava que o golpeassem?
—Não tanto como você necessita que a estrangulem!
Ela retrocedeu claramente ofendida.
—Ao contrário do que for que você pensa de mim — exclamou ele, — não passo meus dias refletindo sobre quando e onde aplacarei minha agressividade.
—Mas...
—Mas nada, Demetria. Você insultou o homem...
—Ele me insultou!
—Estava solucionando o assunto — disse entre dentes. — Por isso me trouxe aqui, para solucionar tudo. Não é assim?
Demetria franziu o cenho e moveu o queixo com um brusco e resistente movimento.
—Que demônios, o problema era com você? Que se esse homem tivesse tido menos restrição? Que se...
—Pensou que mostrava restrição? —perguntou ela, atônita.
—Ao menos tanto como você teve! —Agarroua pelos ombros e quase a começou a sacudir. — Bendito Deus, Demetria, dáse conta de que há muitos homens que não piscariam antes de golpear uma mulher? Ou algo pior — adicionouo de maneira significativa.
Esperou sua resposta, mas ela o olhava fixamente, seus olhos imensos e impassíveis. E teve o maior pressentimento de que via algo que ele não via. Algo nele.
—Perdão, Adam — disse ela então.
—Devido ao que? —perguntou ele menos que amavelmente. — Por fazer uma cena em meio de uma tranquila livraria? Por não se calar quando devia fazêlo?
— Por... Por transtornálo — disse baixinho. — Sinto muito. Não está bem o que fiz.
Suas suaves palavras cortaram limpamente sua irritação, e ele suspirou.
—Simplesmente não faça outra vez, promete?
—Prometo.
—Bem. —deuse conta de que ainda a sustentava pelos ombros e afrouxou o aperto. Então se deu conta de que gostou do toque dos ombros dela. Surpreso, soltou de uma vez.
Ela inclinou a cabeça a um lado quando uma expressão preocupada cruzou seu rosto.
—Pelo menos acredito que prometo. Na verdade tratarei de não fazer nada que o altere como nesta ocasião.
Adam teve uma repentina visão de Demetria tentando não transtornálo. A visão o contrariou.
—O que aconteceu? Dependemos de sua sensatez. Só Deus sabe que salvou Selena mais de uma vez de um problema.
Ela apertou fortemente os lábios, e logo disse:
—Não confunda sensatez com mansidão, Adam. Não é a mesma coisa. E com certeza não sou submissa.
Notou que ela não era desafiante, simplesmente indicava um fato, um que suspeitou sua família havia inadvertido por anos.
—Não se preocupe — disse com cansaço — se alguma vez tive a noção que você era submissa, tenha a segurança de que me desenganou disso esta tarde.
Mas que Deus o ajudasse, ela não estava convencida.
—Se vir algo que é obviamente uma injustiça — disse seriamente — não posso me sentar e não fazer nada.
Ia matálo. Estava seguro disso.
—Só tente afastarse do obviamente errado. Poderia fazêlo por mim?
—Mas não acredito que isto seja algo particularmente errado. E fiz...
Ele elevou a mão.
—Nada mais. Nem outra palavra sobre o assunto. Tirará dez anos de vida falar sobre isto. – Pegoua pelo braço e se dirigiu para casa.
Querido Deus, o que estava errado nele? Seu pulso ainda estava acelerado, e ela nem sequer esteve em perigo. Não realmente. Duvidava que o livreiro pudesse dar um bom soco. E, além disso, por que diabo estava tão preocupado com Demetria? É obvio que se interessava por seu bemestar. Era como uma irmã pequena para ele.
Mas então tratou de imaginar Selena no lugar dela. Tudo o que podia sentir era uma aprazível diversão. Algo estava muito errado se Demetria podia deixálo furioso assim.


taengsic

domingo, 13 de maio de 2018

O Diário Secreto da Senhorita Demetria Cheever Capitulo 4


Adam tinha planejado passar a primavera e o verão em Northumberland, onde poderia negarse a chorar a morte de sua esposa com algum grau de privacidade, mas sua mãe empregou um número assombroso de táticas. A mais letal, fazêlo se sentir culpado, é obvio; para que desse o braço a torcer e obrigálo a viajar a Londres para apoiar Selena.
Não cedeu quando indicou que era a cabeça da família, e ante a sociedade sua presença no grande baile de Selena asseguraria a participação dos melhores cavalheiros.
Não cedeu quando lhe disse que não deveria desmoronar no campo e que lhe faria bem sair e estar entre amigos.
Entretanto, teve que se render, quando apareceu em sua soleira e disse, ainda sem o benefício de uma saudação:
—É sua irmã.
E por isso ali estava na Casa Rudland em Londres, rodeado por quinhentas pessoas, se não o mais seleto do país, ao menos o mais pomposo.
De todos os modos, Selena teria que encontrar um marido entre todos eles, Demetria, também, e Adam seria maldito se permitisse a qualquer uma delas fazer um matrimônio tão desastroso como foi o dele. Londres formigava com equivalentes masculinos de Camille, muitos dos quais começavam seus nomes com Lorde Isto ou Sir Aquilo. E Adam duvidava bastante de que sua mãe estivesse em dia sobre as mais acidentadas fofocas que atravessavam seus círculos.
Ainda assim isto não significava que necessitassem que fizesse muitas aparições. Estava aqui, no baile de debutantes e as acompanhava de vez em quando, talvez houvesse algo no teatro que realmente gostasse de assistir, e, além disso, observaria o progresso dos acontecimentos. Para o final do verão, teria se cansado de todas estas tolices, e poderia retornar a...
Bem, poderia voltar para o que fosse que esteve pensando e planejando fazer.
O estudo da rotação de cultivos, talvez. Reatar o arco e flecha. Visitar o pub local. Gostava bastante da cerveja. E ninguém jamais fazia perguntas sobre o recente
desaparecimento de Lady Adam.
—Querido, está aqui! —Sua mãe de repente encheu sua visão, encantadora em
seu vestido púrpura.
—Disse que chegaria a tempo — respondeu, terminando a taça de champanha
que estava sustentando na mão. — Não lhe avisaram de minha chegada?
—Não — respondeu algo distraidamente. — Estive correndo por toda parte
como uma louca com todos os detalhes de último instante. Estou segura que os criados não desejaram me incomodar.
—Ou não puderam encontrála — comentou Adam, explorando ociosamente a
multidão. Era uma multidão desenfreada, um êxito desde todo ponto de vista. Não viu
nenhuma das convidadas de honra, mas por outro lado, ficou bastante contente de
permanecer nas sombras durante vinte minutos ou o tempo que estava ali.
—Consegui permissão para a valsa para ambas as moças — lhe disse Lady Rudland, —assim, por favor, você cumpra com seu dever com ambas.
—Uma ordem direta — murmurou.
—Especialmente com Demetria — acrescentou, não tendo ouvido seu comentário aparentemente.
—O que quer dizer, especialmente com Demetria?
Sua mãe virou com olhos sérios.
—Demetria é uma moça notável e a quero muitíssimo, mas ambos sabemos que não é do tipo que a sociedade normalmente favorece.
Adam lhe dirigiu um agudo olhar.
—Também sabemos que a sociedade raramente é uma excelente conhecedora do caráter. Camille, se recordar, foi um grande êxito.
—Como Selena, se o desta tarde serve de algum indício — respondeu asperamente sua mãe. — A sociedade é caprichosa e recompensa ao mau tão frequentemente como ao bom. Mas nunca recompensa o aborrecido.
Foi naquele momento que Adam divisou Demetria. Estava de pé perto de Selena na porta do vestíbulo.
Perto de Selena, mas em mundos separados.
Não era que Demetria estivesse sendo ignorada, porque certamente não estava.
Estava sorrindo a um jovem cavalheiro que apareceu lhe solicitando uma dança. Mas não tinha nada parecido à multidão que rodeava Selena, quem, Adam tinha de admitir, brilhava como uma radiante joia colocada no engaste apropriado. Os olhos de Selena faiscaram, e quando sorriu, a música pareceu encher o ar.
Havia algo cativante em sua irmã. Inclusive Adam tinha que admitir.
Mas Demetria era diferente. Olhava. Sorria, mas era quase como se tivesse um segredo, como se tomasse apontamentos em sua mente sobre as pessoas que encontrava.
—Vá dançar com ela — animou sua mãe.
—Com Demetria? — perguntou surpreso. — Pensei que desejaria que concedesse minha primeira dança a Selena.
Lady Rudland assentiu.
—Será um êxito enorme para ela. Não dançou desde... Nem sequer posso recordar. Muito antes de Camille morrer.
Adam sentiu a mandíbula apertar e teria dito algo, se não fosse porque sua mãe de repente ofegou, o que não foi nem a metade de surpreendente, do que seguiu o que, estava completamente seguro. Era o primeiro indício de blasfêmia que alguma vez cruzou seus lábios.
—Mãe? —requereu
—Onde está seu bracelete? —sussurrou urgentemente.
—Meu bracelete — disse, com um pouco de ironia.
—Por Camille — acrescentou, como se ele não soubesse.
—Acredito ter dito que escolhi não ficar de luto por ela.
—Mas isto é Londres — vaiou. — E é a estreia de sua irmã.
Deu um encolher de ombros.
—Meu casaco é negro.
—Seus casacos são sempre negros.
—Talvez esteja de luto perpétuo então — disse brandamente — pela inocência perdida.
—Criará um escândalo — vaiou limpamente.
—Não — disse intencionadamente — Camille criava escândalos. Eu simplesmente rejeito me afligir por minha escandalosa esposa.
—Desejas arruinar sua irmã?
—Minhas ações não repercutirão sobre ela nem a metade de mal que minha falecida esposa teria feito.
—Isso não tem nada a ver, Adam. A verdade é que é sua esposa morreu e...
—Vi o corpo — replicou, parando com eficácia seus argumentos.
Lady Rudland retrocedeu.
—Não há necessidade de ser vulgar sobre isso.
A cabeça de Adam começou a palpitar.
—Peço perdão por isso, então.
—Desejaria que reconsiderasse.
—Eu preferiria que não ficasse angustiada — disse com um pequeno suspiro, — mas não mudarei de opinião. Pode me ter aqui em Londres sem o bracelete, ou pode me ter em Northumberland... Também sem o bracelete — terminou depois de uma pausa. — É sua decisão.
Sua mãe apertou a mandíbula e não disse nada. Então simplesmente deu um encolher de ombros e disse:
—Me reunirei a Demetria, então.
E o fez.
Demetria estava na cidade há duas semanas, e embora não estivesse segura que pudesse qualificarse como um êxito, não pensava qualificarse como um fracasso tampouco. Estava justo onde tinha esperado estar... Em algum lugar intermediário, com um cartão de dança que estava sempre cheio pela metade e um diário transbordante de observações do néscio, o insano, e ocasionalmente, o doloroso. Esse seria Lorde Chisselworth, quem tropeçou com um degrau na festa de Mottram e torceu o tornozelo. Dos néscios e insanos, havia muito que contar.
Em geral, consideravase bem dotada para o jogo com os particulares talentos e atributos que Deus tinha lhe dado. Em seu diário, escreveu:
Propus afiar meu dom de pessoas, mas como Selena assinalou o batepapo
ocioso nunca foi meu forte. Mas aperfeiçoei meu doce e vácuo sorriso, e parece ter
funcionado o truque. Tinha três candidatos para me acompanhar no jantar!
Ajudava, certamente, que sua posição como amiga íntima de Selena fosse bem
conhecida. Selena tomou à sociedade por assalto, como todos sabiam que faria, e
Demetria se beneficiava por associação. Havia cavalheiros que chegavam ao lado de
Selena muito tarde para garantir uma dança, e outros que simplesmente estavam muito
aterrorizados para falar com ela. Em tais casos, Demetria sempre parecia uma opção
mais cômoda.
Mas ainda com toda a transbordante atenção, Demetria permanecia sozinha
quando ouviu uma voz dolorosamente familiar.
—Nunca diga que a peguei sem companhia, Senhorita Cheever.
Adam não pôde menos que rir. Estava devastadoramente bonito com o escuro traje de noite e a luz da vela piscava dourada contra seu cabelo.
—Veio — disse simplesmente.
—Pensou que não viria?
Lady Rudland havia dito que planejava vir, mas Demetria não estava tão segura.
Ele deixou claro como o cristal que não queria participar da sociedade este ano. Ou
possivelmente em nenhum ano. Era difícil dizer agora.
—Entendo que tiveram que chantageálo para que viesse — disse enquanto adotavam posições um ao lado do outro, ambos olhando ociosamente para a multidão.
Ele fingiu ofenderse.
—Chantagem? Que palavra tão feia. E incorreta neste caso.
—OH?
Inclinouse ligeiramente para ela.
—Era culpa.
—Culpa? — crispou os lábios e virou para ele com o olhar malicioso. — O que você fez?
—É o que não fiz. Ou bem o que não estava fazendo – disse, dando um despreocupado encolher de ombros. — Disseram que você e Selena seria um êxito se oferecesse meu apoio.
—Creio que Selena seria um êxito mesmo que não tivesse dinheiro e nascesse no lado errado da cama.
—Eu não me preocuparia com você, tampouco — disse Adam, sorrindo para ela de uma maneira irritantemente benévola. Então franziu o cenho. — E poderia me dizer com o que me chantagearia minha mãe?
Demetria sorriu. Gostou que estivesse descontraído. Sempre parecia tão controlado diante dela, enquanto que seu coração sempre conseguia palpitar três vezes mais onde quer que o veja. Por sorte, os anos colaboraram para que se sentisse cômoda com ele. Se não o conhecesse de tanto tempo, duvidava que fosse capaz de conseguir conversar na presença dele. Além disso, ele certamente suspeitaria de algo se ficasse muda cada vez que se encontravam.
—Ah, não sei — pretendeu refletir. — Histórias de quando você era pequeno e isso...
—Mas, se eu era um perfeito anjo.
Ela levantou suas sobrancelhas com receio.
—Você deve pensar que sou muito crédula.
—Não, somente muito cortês para me contradizer.
Demetria revirou os olhos e se voltou para a multidão. Selena estava dando audiência através do salão, rodeada por seu grupo habitual de cavalheiros.
—Livvy tem um talento natural, não é? — disse.
Adam cabeceou assentindo.
—Onde estão todos seus admiradores, senhorita Cheever? Acho difícil de acreditar que não tenha nenhum.
Ruborizou com o elogio.
—Um ou dois, suponho. Tendo a me misturar com o moveis quando Selena está perto.
Ele disparou para ela um olhar incrédulo.
—Me deixe ver seu cartão de dança.
A contra gosto, entregou. Ele a examinou rapidamente, logo a devolveu.
—Tinha razão — disse. — Está quase cheio.
—Muitos deles encontraram o caminho para mim só porque estava de pé ao lado de Selena.
—Não seja tola. E não é nada pelo que ofenderse.
—Ah, mas não o estou — respondeu ela, surpreendendose de que sequer ele pensasse. — Por quê? Pareço alterada?
Ele retrocedeu e a inspecionou.
—Não. Não, não parece. Que estranho.
—Estranho?
—Eu nunca conheci uma dama que não desejasse que uma manada de jovens candidatos a rodeasse em um baile.
Demetria se arrepiou com a condescendência de sua voz e não foi capaz de guardar a insolência, quando disse:
—Bem, agora sim.
Mas ele só riu entre dentes.
—E como, querida moça, você irá encontrar um marido com essa atitude? Ah, não me olhe como se a estivesse subestimando.
Só fez que seus dentes chiassem mais duro.
—Você mesma me disse que desejava encontrar um marido esta temporada.
Tinha razão, caramba que homem! Que a deixou sem outra coisa que dizer.
—Me faça o favor de não me chamar "querida moça".
Ele sorriu abertamente.
—Ora, Senhorita Cheever, detecto um pouco de caráter em você?
—Eu sempre tive caráter — disse ela um pouco zangada.
—Pelo visto assim é. —Ainda sorria quando disse o que era ainda mais irritante.
—Acreditava que você era malhumorado e ameaçador — queixouse.
Ele deu um encolher de ombros.
—Você parece tirar o melhor de mim.
Demetria lhe dirigiu um olhar mordaz. Tinha esquecido a noite do funeral de Camille?
—O melhor? —Falou quase arrastando as palavras. — Realmente?
Ao menos teve a graça de parecer envergonhado.
—Ou de vez em quando o pior. Mas esta noite, só o melhor. —Ao elevar as sobrancelhas, acrescentou: — Devo cumprir aqui meu dever para com você.
Dever. Uma palavra tão formal e aborrecida.
—Me entregue seu cartão de dança.
Ela entregou. Era um pequeno cartão de festa, com florzinhas e um pequeno lápis preso com uma fita no canto. Os olhos de Adam deslizaram pelo cartão, logo os semicerrou.
—Por que você deixou todas suas valsas livres, Demetria? Minha mãe disse bastante expressamente que tinha assegurado a permissão à valsa tanto para você como para Selena.
—Ah, não é isso — apertou os dentes por uma fração de segundo, tratando de controlar o rubor que sabia ia começar a subir por seu pescoço em poucos segundos.
— É só que, bom, para que saiba...
—Fale Senhorita Cheever.
—Por que sempre me chama Senhorita Cheever quando zomba de mim?
—Tolices. Também a chamo Senhorita Cheever quando a repreendo.
OH, bem, aquilo era uma melhora.
—Demetria?
—Não é nada — resmungou.
Mas não a deixaria.
—Obviamente é algo, Demetria. Você...
—OH, muito bem, para que saiba, esperava que você dançasse a valsa comigo.
Ele retrocedeu, seus olhos demonstraram sua surpresa.
—Ou Mikey — disse ela rapidamente, porque era seguro, ou ao menos escasseavam as possibilidades de passar vergonha...
—Somos trocáveis então? —murmurou Adam.
—Não, certamente que não. Mas como não sou perita na valsa, me sentiria mais cômoda se minha primeira vez em público fosse com alguém que conheço — improvisou apressadamente.
—Alguém que não se ofenderia mortalmente, se pisasse em seus pés?
—Algo assim — resmungou. Como tinha conseguido meterse neste apuro?
Saberia que estava apaixonada por ele ou pensaria que era uma imbecil assustada por dançar em público.
Mas Adam, bendito seu coração, já estava dizendo.
—Será uma honra dançar uma valsa com você. —Tomou o pequeno lápis e estampou seu nome no cartão de baile. — Agora está comprometida comigo para a primeira valsa.
—Obrigada. Esperarei com impaciência.
—Bem. Eu também. Deixará me anotar outra? Não posso pensar em ninguém mais aqui com quem me preferiria ver forçado a conversar durante os quatro minutos no auge da valsa.
—Não tinha ideia que fosse uma tarefa para você — disse Demetria, fazendo uma careta
—OH, não é! —assegurou. — Mas todas as demais sim o são. Aqui tem, dançaremos a última valsa, também. Terá que defender você mesma o resto delas. Não devo dançar com você mais que duas vezes.
Céus, não! Demetria pensou incisivamente. Alguém poderia pensar que foi intimidado para dançar com ela. Mas sabia o que se esperava dela, assim sorriu firmemente e disse:
—Não, certamente que não.
—Muito bem, então — disse Adam, com o tom terminante que os homens gostam de usar quando definitivamente estão preparados para terminar uma conversa, sem reparar se alguém mais está. — Vejo o jovem Hardy vindo para reclamar a seguinte dança. Vou conseguir algo para beber. A verei na primeira valsa.
E logo a deixou de pé no canto, murmurando saudações ao senhor Hardy enquanto partia. Demetria fez uma cumprida reverência a seu acompanhante de dança e logo tomou sua mão enluvada seguindoo à pista de dança para uma equipe. Não se surpreendeu quando, depois de comentar sobre seu vestido e o tempo, perguntou por
Selena.
Demetria respondeu suas perguntas tão corretamente como foi capaz, tratando de não animálo excessivamente. Julgando a multidão que havia ao redor de sua amiga, as possibilidades do senhor Hardy eram escassas de verdade.
A dança terminou com uma velocidade misericordiosa, e Demetria rapidamente se encaminhou para Selena.
—Ah, Demetria, querida! —exclamou. — Onde esteve? Estive falando com todos sobre você.
—Não o fez — disse Demetria, levantando suas sobrancelhas incredulidade.
—De verdade que sim, não é assim? —Selena acotovelou um cavalheiro a seu lado, e ele imediatamente assentiu. —Eu mentiria?
Demetria escondeu uma risada.
—Se isso satisfizesse seus objetivos.
—OH, para! É terrível. E onde esteve?
—Necessitava um pouco de ar fresco, assim escapei a um canto para tomar um copo de limonada. Adam me fez companhia.
—Ah! Chegou, então? Terei que guardar uma dança para ele.
Demetria duvidou.
—Não acredito que tenha nenhuma livre para guardar.
—Isso não pode ser — Selena olhou para seu cartão de dança. — OH, querida. Terei que tirar um destes.
—Selena, não pode fazer isso.
—Por que não? Escuta Demetria, devo te dizer... — Detevese de repente, recordando a presença de seus muitos admiradores. Deu a volta, sorrindo esplendorosamente a todos eles.
Demetria não teria ficado surpreendida se tivessem caído no chão, um por um, como proverbiais moscas.
—Cavalheiros, a algum de vocês importaria me trazer uma limonada? — perguntou Selena docemente. — Estou completamente sedenta.
Houve um amontoado de promessas, seguida por uma rajada de movimento, e Demetria só podia fixarse sobressaltada enquanto os observava escapulir em manada.
—São como ovelhas — sussurrou.
—Bom, sim — esteve de acordo Selena, — exceto porque são bem mais parecidos a cabras.
Demetria teve aproximadamente dois segundos para tentar decifrar isso antes que Selena acrescentasse:
—Brilhante de minha parte, não é verdade, nos liberar de todos imediatamente. Digo, estou levando bastante bem tudo isto.
Demetria assentiu, sem incomodarse em falar. Realmente, era inútil tratar de incluir algo próprio, quando Selena estava contando uma história...
—O que ia dizer — seguiu Selena, inconscientemente confirmando a hipótese de Demetria, — é que realmente, a maior parte deles é espantosamente aborrecida.
Demetria não pôde resistir a dar a sua amiga uma pequena espetada.
—Com certeza ninguém nunca seria capaz de dizer te olhando em ação.
—Ah, não estou dizendo que não esteja desfrutando — Selena lhe dirigiu um olhar vagamente sardônico. — Quero dizer, realmente, não atiraria pedras contra o telhado de minha mãe.
—O telhado de sua mãe — repetiu Demetria, tratando de recordar a origem do provérbio original. — Em algum lugar alguém certamente está derrubandose em sua tumba.
Selena inclinou a cabeça.
—Shakespeare, talvez?
—Não. —Maldição, agora não seria capaz de deixar de pensar nisso. — Isso não foi Shakespeare.
—Maquiavel?
Demetria esgotou mentalmente sua lista de escritores famosos.
—Não acredito.
—Adam?
—Quem?
—Meu irmão.
Demetria levantou de repente a cabeça.
—Adam?
Selena se inclinou um pouco a seu lado, estirando o pescoço enquanto se esforçava por olhar atrás da Demetria.
—Parece bastante decidido.
Demetria olhou para seu cartão de baile.
—Deve ser o momento de nossa valsa.
Selena inclinou a cabeça a um lado em uma espécie de pesado movimento.
—Está esplêndido também, não é?
Demetria piscou e tratou de não suspirar. Adam estava bonito. Quase insuportavelmente. E agora que era viúvo, certamente cada mulher, solteira e todas as mães, teriam isso em vista.
—Pensa que se casará outra vez? —murmurou Selena.
—Eu... Não sei. —Demetria engoliu. — Acho que deveria, não?
—Bom, sempre há Mikey para proporcionar um herdeiro. E se você... Uf!
O cotovelo de Demetria. Em suas costelas.
Adam chegou junto a elas e saudou elegantemente.
—Encantada de te ver, irmão — disse Selena com um amplo sorriso. — Quase tinha renunciado a sua presença.
—Tolices. — Mamãe teria me cortado em pedaços. —Seus olhos entrecerrados quase imperceptivelmente, mas claro, Demetria tendia a notar tudo sobre ele, e perguntou: — por que Demetria bateu nas suas costelas?
—Não o fiz! —protestou Demetria. E então, quando seu fixo olhar se tornou bastante duvidoso, resmungou: — Foi só um tapinha.
—Cotovelada, tapinha, isto tem tudo para ser uma conversa que é a primeira vista mais divertida que qualquer coisa neste salão de dança.
—Adam! —protestou Selena.
Adam a descartou com um movimento rápido de sua cabeça e se virou para Demetria.
—Você acha que objeta minha linguagem ou é meu julgamento dos seus acompanhantes de dança como idiotas?
—Penso que era sua linguagem — disse Demetria brandamente. — Ela disse que a maior parte, eram uns idiotas também.
—Não é o que disse — interpôs Selena. — Disse que eram aborrecidos.
—Ovelhas — confirmou Demetria.
—Cabras — acrescentou Selena com um encolhimento de ombros.
Adam começou a parecer alarmado.
—Bom Deus, falam vocês duas uma linguagem própria?
—Não, estamos sendo perfeitamente claras — disse Selena,— mas me diga, sabe quem disse primeiro, "Não cuspa para o alto que pode cair na cara"?
—Não estou seguro de entender a conexão — murmurou Adam.
—Isso não é Shakespeare — disse Demetria.
Selena sacudiu a cabeça.
—Quem outro poderia ser?
—Bom — disse Demetria — qualquer um dos milhares de notáveis escritores de língua inglesa.
—Foi por isso que, ehh, bateu nas costelas dela? — perguntou Adam.
—Sim — respondeu Demetria, apanhando a oportunidade. Infelizmente, Selena ganhou por segundo meio com um:
—Não.
Adam olhou de uma a outra com expressão divertida.
—Era sobre Mikey — disse Selena com impaciência.
—Ah, Mikey — Adam olhou ao redor. — Está aqui, não? — Então arrancou o cartão de dança de Demetria de seus dedos. — Por que não reclamou uma dança ou três? Não estavam vocês dois planejando juntarse?
Demetria apertou os dentes e recusou responder. O que era uma opção absolutamente razoável, embora soubesse que Selena não permitiria deixar passar à oportunidade.
—Certamente não é nada oficial — estava dizendo — mas todos estamos de acordo em que seria um casal esplêndido.
—Todos? — perguntou Adam brandamente, olhando Demetria.
—E quem não? — respondeu Selena com o rosto impaciente.
A orquestra levantou seus instrumentos e as primeiras notas de uma valsa flutuaram no ar.
—Acredito que esta é minha dança — disse Adam, e Demetria compreendeu que seus olhos não se afastaram dos seus.
Ela tremeu.
—Vamos? —murmurou ele e ofereceu seu braço.
Ela assentiu, necessitando um momento para recuperar a voz. Compreendeu que sentia algo. Algo estranho, tremores que a deixava sem fôlego. Só tinha que olhá-la, não na forma usual como quando conversavam, mas sim realmente olhála, deixar os olhos postos nos seus, profundamente azuis e intuitivos, e se sentia nua, a alma descoberta. E o pior de tudo... Ele não tinha nem ideia. Ali estava ela, com cada emoção exposta, e Adam provavelmente não via nada mais que o moreno embotado de seus olhos.
Era a pequena amiga de sua pequena irmã, e segundo todas as probabilidades, era tudo o que sempre seria.
—Vão me deixar aqui absolutamente sozinha, não é? — disse Selena, não irritada, mas com um suspiro.
—Não tenha nenhum medo — assegurou Demetria — não ficará sozinha por muito tempo. Acho que estou vendo sua multidão voltar com a limonada.
Selena fez uma careta.
—Alguma vez notou Adam, que Demetria tem um senso de humor bastante estranho?
Demetria inclinou a cabeça de lado e suprimiu um sorriso.
—Por que suspeito que seu tom não fosse precisamente elogioso?
Selena fez uma pequena onda depreciativa.
—Vá logo! Que tenha um agradável dança com Adam.
Adam tomou o cotovelo de Demetria e a conduziu à pista de dança.
—Sabe, realmente tem um senso de humor bastante estranho — murmurou.
—Tenho?
—Sim, mas isso é o que mais gosto de você. Por favor, não mude.
Demetria tratou de não sentirse absurdamente satisfeita.
—Tentarei senhor.
Ele estremeceu quando pôs seus braços ao redor dela para a valsa.
—Senhor, agora é assim? Desde quando se tornou tão formal?
—É por todo este tempo em Londres. Sua mãe esteve insistindo sobre a etiqueta —riu docemente — Joseph.
Ele franziu o cenho.
—Acredito que prefiro senhor.
—Eu prefiro Adam.
A mão dele apertava sua cintura.
—Bom. Deixeo assim.
Demetria soltou um pequeno suspiro enquanto ficavam calados. Enquanto a valsa seguia bastante formal. Não havia giros ofegantes, nada que pudesse deixála tensa e tonta. E isso lhe deu a oportunidade de saborear o momento, saborear a sensação de sua mão na dele. Aspirou ao aroma, sentiu o calor do corpo dele, e simplesmente desfrutou.
Tudo parecia tão perfeito... Tão perfeitamente correto. Era quase impossível imaginar que ele não sentisse também.
Mas não o fazia. Não se enganava, desejaria que ele a desejasse. Quando elevou a vista para ele, olhava a alguém na multidão, o olhar só um pouco turvo, como se estivesse lutando com um problema em sua mente. Esse não era o olhar de um homem apaixonado. E tampouco era o que seguiu, quando finalmente olhou atentamente para ela e disse:
—Não é ruim com a valsa, Demetria. De fato, realmente é bastante perita. Não vejo por que estava tão inquieta sobre isto.
Sua expressão era amável. Fraternal.
Era dilacerador.
—Não tive muita prática recentemente — improvisou ela, já que ele pareceu esperar uma resposta.
—Inclusive com Mikey?
—Mikey? — Repetiu.
Seus olhos se mostraram divertidos.
—Meu irmão menor, se você recordar.
—Claro — disse. — Não. Quero dizer, não, não dancei com Mikey em anos.
—Sério?
Elevou a vista para ele rapidamente. Havia algo estranho em sua voz, quase, mas não o suficiente, uma débil nota de prazer. Não de ciúmes, infelizmente, não pensou que se preocupasse de uma ou outra maneira se dançava com seu irmão. Mas tinha a estranha sensação que estava felicitando a si mesmo, como se houvesse predito sua resposta corretamente e estivesse contente por sua astúcia.
Meu Deus estava pensando muito, estava chegando muito longe... Selena sempre a estava acusando disso, e por uma vez, Demetria teve que lhe dar razão.
—Não vejo frequentemente Mikey — disse Demetria, esperando que a conversa a frearia de obcecarse sobre perguntas completamente incontestáveis... Como o verdadeiro significado da palavra sério.
—OH? —provocou Adam, acrescentando um toque de pressão na parte baixa de suas costas enquanto giravam para a direita.
—Geralmente está na universidade. Inclusive agora não terminou todo o trimestre.
—Suponho que o verá bastante durante o verão.
—Isso eu espero — pigarreou. — E, quanto tempo planeja ficar?
—Em Londres?
Ela assentiu.
Ele fez uma pausa, e fizeram um encantado e pequeno giro à esquerda antes que finalmente dissesse:
—Não estou seguro. Não muito tempo penso.
—Entendo.
—Suponho que estou de luto de todos os modos. Mamãe estava horrorizada porque não pus o bracelete.
—Eu não — declarou.
Ele sorriu e desta vez não foi fraternalmente. Não estava cheio de paixão e desejo, mas ao menos era algo novo. Era ardiloso e conspirativo e fez que se sentisse parte de uma brincadeira.
—Por que, Senhorita Cheever — murmurou maliciosamente — detecto uma raiz de rebeldia em você?
Seu queixo se elevou uma polegada.
—Nunca entendi a necessidade de vestirse de negro por alguém com quem não está familiarizado, e certamente não vejo a lógica do luto por uma pessoa a quem se acha detestável.
Durante um momento o rosto dele permaneceu sem nenhuma expressão, e logo sorriu abertamente.
—Por quem se viu forçada a levar luto?
Os lábios dela se deslizaram um sorriso.
—Um primo.
Ele se inclinou aproximandose de seu cabelo.
—Alguma vez alguém lhe disse que é impróprio sorrir quando se fala da morte de um familiar?
—Nunca conheci o homem.
—Ainda assim...
Demetria soltou um bufo elegante. Sabia que estava ferroando, mas estava muito divertido para frearse.
—Viveu sua vida inteira no Caribe — acrescentou. — Não era estritamente a verdade, mas em sua maior parte o era.
—É uma pequena donzela sanguinária — murmurou.
Ela deu um encolher de ombros. Vindo de Adam, parecia um elogio.
—Acredito que você será um membro bem recebido na família — disse. — A condição de que possa tolerar meu irmão menor por larguíssimos períodos de tempo.
Demetria tentou conseguir um sorriso sincero. O casamento com Mikey não era seu método preferido para converterse em membro da família Bevelstoke. E apesar das tentativas e maquinações de Selena, Demetria não acreditava que o casamento estivesse próximo.
Havia numerosas e excelentes razões para considerar casarse com Mikey, mas havia uma poderosa razão para não fazêlo, e essa estava de pé diretamente diante ela.
Se Demetria fosse se casar com alguém que não quisesse, esse não seria o irmão do homem que amava.
Ou quem acreditava amar. Continuava tentando se convencer de que não o amava que tudo foi um amor de adolescente, e que poderia superálo... Que já havia superado e simplesmente não se deu conta ainda.
Tinha o hábito de pensar que estava apaixonada por ele. Isso era tudo.
Mas então ele fez algo completamente odioso, como sorrir e todas suas difíceis tarefas voaram pela janela, e teve que começar de novo.
Um dia conseguiria. Um dia despertaria e compreenderia que teve dois dias de sensatez sem pensar em Adam e logo magicamente seriam três e logo quatro e...
—Demetria?
Elevou a vista. Ele a estava olhando com uma expressão de regozijo, e poderia ter parecido condescendente, exceto porque seus olhos estavam franzindose nos cantos... E durante um momento, pareceu aliviado, jovem e talvez, satisfeito.
E ela estava ainda apaixonada por ele. Ao menos pelo resto da noite não poderia convencerse do contrário. À manhã seguinte, começaria outra vez, mas por esta noite, não ia se incomodar em tentar.
A música terminou e Adam deixou sua mão, retrocedendo para executar uma elegante reverencia. Demetria fez uma reverência ao seu tempo, e logo tomou seu braço enquanto a conduzia ao perímetro do salão.
—Onde supõe que poderíamos encontrar Selena? —murmurou, estirando o pescoço. — Creio que terei que apagar um dos cavalheiros de seu cartão para dançar com ela.
—Por Deus! Não faça que soe como um trabalho — declarou Demetria. — Não somos tão terríveis.
Ele deu a volta e a olhou com um pouco de surpresa.
—Não disse nada sobre você. Não me importaria seguir dançando com você nem um pouco.
Como elogios eram mornos no máximo, mas Demetria ainda encontrou um modo de sustentálos perto de seu coração.
Mas como, pensou miseravelmente, era prova de que se afundou tão baixo como podia. O amor não correspondido, estava descobrindo, era muito pior quando realmente via o objeto de seus desejos. Tinha passado quase dez anos sonhando acordada com Adam, esperando pacientemente qualquer notícia ocorrida aos Bevelstoke deixada cair no chá da tarde, e logo tratando de ocultar sua sorte e alegria, para não mencionar o terror de ser descoberta, quando vinha de visita uma ou duas vezes por ano.
Pensou que nada poderia ser mais patético, mas parecia que, estava equivocada. Isto era definitivamente pior. Antes, era inexistente. Agora era um velho sapato cômodo.
Cáspita!
Deu uma olhada a ele. Não estava olhandoa. Não estava olhandoa e certamente não estava evitando olhála. Simplesmente não estava olhandoa. Não lhe perturbava absolutamente.
—Aí está Selena — disse suspirando.
Sua amiga estava rodeada, como sempre, por um grupo ridiculamente grande de cavalheiros.
Adam contemplou a irmã com olhos entrecerrados.
—Não parece como se algum deles se comportasse mal, não é? Foi um dia longo, e preferiria não ter que brincar de velho irmão feroz esta noite.
Demetria se elevou sobre seus pés para observar melhor.
—Penso que está a salvo.
—Bem.
E logo se deu conta de que tinha inclinado a cabeça e olhava a irmã de uma maneira estranhamente objetiva.
—Hmmm.
—Hmmm?
Virouse para Demetria, que estava ainda em seu lado, olhandoo com aqueles olhos marrons sempre curiosos.
—Adam?
Ouviua, e respondeu com outro:
—Hmmm?
—Parece um pouco estranho.
Não disse: sentese bem? Ou está indisposto? Só: parece um pouco estranho.
Isso o fez sorrir. E o fez pensar quanto na realidade gostava desta moça, e como esteve enganado com ela no dia do funeral de Camille. Isso o fez querer fazer algo agradável por ela. Olhou a sua irmã uma última vez, e logo disse, girandose lentamente.
—Se fosse um homem mais jovem, o que não sou...
—Adam, não tem ainda trinta anos.
Sua expressão se tornou impaciente... Naquela controlada forma que ele achava estranhamente entretida, e lhe dando de presente um preguiçoso encolher de ombros respondeu:
—Sim, bom, sintome mais velho. Ancião estes dias, para falar a verdade. — Quando compreendeu que estava olhandoo com expectativa, clareou a garganta e disse: — Simplesmente tentava dizer que se eu estivesse farejando ao redor da ninhada de novas debutantes, não acredito que Selena apanhasse meu olhar. As sobrancelhas de Demetria se elevaram.
—Bom, é sua irmã. Além das ilegalidades...
—OH, pelo amor de... Estava tentando elogiála — interrompeuo.
—OH. — ela clareou a garganta. Ruborizando um pouco, embora fosse difícil estar seguro com tão pouca a luz. — Bem, nesse caso, por favor, siga adiante.
—Selena é bastante formosa — seguiu. — Inclusive eu, seu velho irmão, posso ver isso. Mas há alguma coisa de carência atrás de seus olhos.
O que obteve um imediato ofego.
—Adam, que coisa terrível está dizendo. Sabe tão bem como eu que Selena é muito inteligente. Muito mais que a maior parte dos homens que se aglomeram ao seu redor.
Olhoua indulgente. Era uma jovem tão leal. Não tinha dúvida de que mataria por Selena se alguma vez surgisse a necessidade. Era uma boa coisa que estivesse aqui.
Além de qualquer tendência calmante que tivesse sobre sua irmã, mas suspeitava que a família Bevelstoke inteira tivesse uma enorme dívida de gratidão por isso. Demetria era bastante segura, a única coisa que faria seu tempo em Londres suportável. Deus sabia que não queria vir. A última coisa que necessitava neste mesmo momento era que as mulheres estivessem à caça de sua posição, tentando encher os pequenos e miseráveis sapatos de Camille. Mas com Demetria, ao menos se assegurava uma conversa decente.
—Certamente que Selena é inteligente — disse com voz apaziguadora. Permita me reformular. Pessoalmente não a acharia fascinante.
Ela franziu os lábios, e a tutora voltou.
—Bem, essa é sua prerrogativa, suponho.
Ele sorriu e inclinandose, insinuou:
—Acredito que seria mais provável que me encaminhasse em sua direção.
—Não seja tolo — resmungou.
—Não o sou — assegurou. — Mas repito, sou mais velho que a maior parte daqueles idiotas que estão com minha irmã. Talvez meus gostos, amadureceram.
— Mas o ponto é discutível, suponho, porque ao não ser um jovem, não está farejando na ninhada de debutantes deste ano. E não está procurando uma esposa. — Isto era uma declaração, não uma pergunta.
—Deus, não — soltou. — Que diabos eu faria com uma esposa?
2 DE JUNHO DE 1819
Lady Rudland anunciou no café da manhã que a festa de ontem à noite foi um estupendo êxito. Não pude menos que sorrir ante sua escolha de palavras, não acredito que alguém rejeitaria seu convite, e juro que o salão estava tão lotado como nunca. Certamente me senti diminuída entre toda uma sorte de perfeitos estranhos. Acho que devo ser uma moça de simplório coração, porque não estou tão segura que deseje alguma outra vez intimar tanto com meus próximos masculinos.
Disseo assim no café da manhã, e Adam cuspiu o café. Lady Rudland lhe lançou um
olhar assassino, mas não posso imaginar que seja porque esteja apaixonada por seu jogo de mesa.
Adam tem a intenção de permanecer na cidade durante só uma semana ou duas. Fica conosco na Casa Rudland, o que é encantador e terrível ao mesmo tempo.
Lady Rudland divulgou que alguma velha viúva duquesa malhumorada, foram suas palavras, não as minhas, e não revelaria sua identidade em qualquer caso, disse que eu estava agindo muito familiar com Adam e que as pessoas poderiam conceber uma ideia incorreta.
Disse que indicou à velha viúva malhumorada (o que vem como anel ao dedo) que
Adam e eu somos quase como irmãos. E que é natural que confiasse nele para minha estreia na festa, e que não há nenhuma ideia incorreta a ser levada em conta.
Perguntome se haverá alguma vez uma ideia Correta em Londres.