domingo, 12 de maio de 2019

ESPLENDOR DA HONRA Capitulo 21


Responda ao insensato como a sua insensatez merece,
do contrário ele pensará que é mesmo um sábio.
Provérbios, 26, 5
Joseph soube que alguma coisa estava errada no minuto em que cavalgou para o interior da fortaleza. Anthony não estava ali para recebê-lo, e Demétria também não.
Um súbito temor oprimiu seu coração. Esporeou seu cavalo, galopou pela ponte e entrou no pátio.
Miley saiu do castelo como uma exalação quando Joseph e Liam estavam desmontando. Deteve-se uns metros dos dois homens e então, parecendo tomar finalmente uma decisão, correu para Liam e se lançou em seus braços. Assim que o abraçou, começou a chorar.
Custou paciência e alguns minutos para obter informação de Miley.
O segundo em comando de Joseph, um homem corpulento, mas de voz suave, chamado Robert, veio correndo para lhes dar informação. Enquanto Liam tratava de acalmar Miley, Robert explicou que os soldados do rei tinham vindo buscar Demétria.
- A carta tinha o selo do rei? - perguntou Joseph.
Sua pergunta fez com que Robert franzisse o cenho.
- Não sei, barão. Não vi a convocação. E sua esposa insistiu em levar carta com ela. - Depois Robert baixou a voz até deixá-la convertida em um sussurro quando acrescentou-: ela não queria que ninguém lesse o conteúdo da carta para sua irmã.
Joseph não estava muito certo de como deveria interpretar a ação de sua esposa. Finalmente, chegou à conclusão de que a ordem deveria ter incluído algum tipo de ameaça dirigida a Miley, e Demétria estava tentando proteger sua irmã de preocupação.
O rei nunca teria ameaçado. Não, William jamais trataria de semelhante maneira os barões que lhe eram leais. Joseph tinha suficiente fé em seu monarca para acreditar que William esperaria até ouvir todas as explicações.
A mão de Sebastian tinha algo a ver com aquela traição. Joseph teria apostado sua vida nisso.
Gritou imediatamente a ordem de prepararem-se para voltar a partir. Joseph estava tão furioso, que ele mal conseguia pensar com lógica. O único pensamento tranquilizador era o fato de Anthony ter ido com o Demétria. Seu leal vassalo levou consigo um pequeno contingente dos melhores guerreiros de Joseph. Robert explicou que Anthony não se atreveu a levar muitos soldados, já que não queria que o rei pensasse que não se confiava nele.
- Então Anthony acredita que o chamado veio diretamente do nosso rei? - perguntou Joseph.
- Não sei dizer quais eram seus pensamentos - respondeu Robert.
Joseph pediu que lhe trouxessem uma montaria fresca. Quando o encarregado dos estábulos levou Silenus, Joseph quis saber por que Demétria não tinha escolhido seu cavalo para que levá-la à corte.
James, que não estava acostumado a falar diretamente com seu lord, balbuciou sua resposta.
- Temia que seu irmão pudesse maltratar seu cavalo se descobrisse que Silenus lhe pertencia, milord. Essas foram suas palavras.
Joseph assentiu, aceitando a explicação. Era próprio de sua delicada esposa preocupar-se com o cavalo!
- Exigiu que lhe dessem um dos cavalos do rei - acrescentou James.
Miley chegou ao extremo de implorar que lhe permitisse ir com eles. Joseph já tinha montado, mas a histeria de sua irmã fez com que esperasse minutos preciosos enquanto Liam se afastava de sua noiva.
Depois de rechaçar com cortesia a súplica de Miley para permitirá que ela os acompanhasse em sua viagem, Liam teve que jurar sobre a tumba de sua mãe que voltaria para ela, sem ter sofrido um só arranhão, um juramento que Joseph sabia ser falso dado que a mãe do Liam ainda vivia. Mesmo assim não fez nenhum comentário a respeito daquela contradição, porque viu a maneira com que a promessa de Liam tranquilizava sua irmã.
- Você conseguirão alcançar milady? - atreveu-se a perguntar James a seu lord.
Joseph se voltou para contemplar ao encarregado dos estábulos do alto de sua montaria. Então viu a expressão de temor que havia nos olhos daquele homem, e se sentiu comovido por sua preocupação.
- Estou a, pelo menos, uma semana atrasado - disse Joseph -. Mas trarei de volta sua senhora, James.
Essas foram as últimas palavras que Joseph pronunciou até que estivessem a meio caminho de Londres. Liam pensou que se os cavalos não precisassem descansar, Joseph teria seguido adiante sem fazer nenhuma parada.
O barão de Wexton se separou de seus homens. Liam deixou que estivesse só durante alguns minutos e foi falar com ele.
- Eu gostaria de dar um conselho, meu amigo -. Joseph se virou para olhá-lo.
- Lembra-se qual foi minha reação quando vi Morcar. Não permita que sua raiva o controle, embora eu prometa defender suas costas enquanto estivermos na corte.
Joseph assentiu.
- Voltarei a estar sob controle tão logo eu veja Demétria. Ela está ao menos a uma semana na corte. Só Deus sabe o que Sebastian fez com ela. Liam, juro por Deus que se ele a tiver tocado então eu...
- Sebastian tem muitas coisas em jogo para machucar Demétria, Joseph. Necessita do respaldo de sua irmã, não de sua ira. Não, haverá muitas pessoas olhando para ele. Sebastian fingirá ser o irmão cheio de afeto.
- Rezo para que você esteja certo - afirmou Joseph - . Eu... estou muito preocupado por ela.
Liam lhe deu uns tapinhas no ombro.
- Que diabos, homem! - exclamou -. O que ocorre é que teme perdê-la, da mesma maneira que eu temia perder Miley.
- Parecemos um par de arrogantes - anunciou Joseph -. Não se preocupe com minha ira. Quando vir minha esposa, voltarei a me mostrar disciplinado.
- Sim, bem, há outra questão da qual é preciso falar - confessou Liam -. Miley me falou da carta que recebeu do monastério.
- Como pôde chegar a saber da carta? - perguntou Joseph.
- Sua Demétria lhe contou. Ao que parece encontrou a carta e ela a leu.
Os ombros de Joseph se afundaram subitamente. Suas preocupações acabavam ser multiplicadas, porque não estava nada certo do que faria sua esposa.
- Miley contou como reagiu Demétria? Ela ficou com raiva? Deus, espero que tenha ficado com muita raiva.
Liam sacudiu a cabeça.
- Por que você quer que ela fique com raiva?
- Menti para Demétria, Liam, e agora espero que a mentira a encha de fúria. Não quero que Demétria pense que... agi de má fé. - Joseph encolheu os ombros, percebendo quão difícil era expressar seus sentimentos em palavras -. Quando conheci Demétria, ela tentou me convencer de que Sebastian não iria a sua procura. Disse-me que não era merecedora da atenção de seu irmão. Demétria não estava tentando me enganar, Liam. Juro por Deus que ela realmente acreditava no que estava dizendo. Sebastian a fez sentir daquela maneira, é claro. Demétria permaneceu sob seu poder durante quase dois anos.
- Dois anos?
- Sim - disse Joseph -. Do momento em que morreu sua mãe até que a enviaram a seu tio, Sebastian foi o único guardião de Demétria. Você sabe tão bem como eu de que crueldades Sebastian é capaz, Liam. Vi como Demétria foi ficando um pouco mais forte a cada dia que passava, mas continua a ser... vulnerável.
Liam assentiu.
- Sei que você gostaria de ter sido o único a lhe dizer que Lawrence não era um verdadeiro homem de Deus, mas considere quão despreparada Demétria ficaria, se tivesse sido Sebastian quem lhe explicasse.
Joseph era um homem atormentado. Sua inocente esposa voltava a estar nas mãos do diabo. Pensar nisso gelou sua alma.
Liam não sabia que palavras poderia oferecer para aliviar o sofrimento de Joseph.
- A lua nos proporciona luz suficiente para que possamos continuar cavalgando durante toda a noite - sugeriu.
- Então tiraremos proveito da luz.
Os barões não voltaram a falar até que chegaram a seu destino.
Demétria tentava dormir. Estava trancada em um quarto anexo aos aposentos de sua irmã Camille. As paredes eram tão finas como um pergaminho, e Demétria tratava de não escutar a discussão que Sebastian estava mantendo com Camille.
Já tinha ouvido o suficiente. Demétria sentia tanta repugnância por sua irmã e seu irmão que havia ficado doente. Seu estômago se negava a reter qualquer alimento, e sua cabeça palpitava com uma surda dor.
Sebastian não poderia ser mais previsível. Deu as boas vindas a Demétria na frente dos soldados do rei, beijando-a na bochecha e chegando inclusive a abraçá-la. Sim, tinha interpretado o papel do irmão cheio de afeto, especialmente diante de Anthony. Logo que estiveram a sós em seus aposentos, entretanto, Sebastian tinha encarado Demétria. Lançou-lhe uma furiosa acusação atrás de outra, colocando fim a sua ladainha com um terrível murro despejado sobre a bochecha de Demétria que a deixou jogada no chão. Era a mesma bochecha que ele havia beijado quando a recebeu.
Seu irmão em seguida lamentou aquele ataque de mau humor, porque percebeu que o rosto de Demétria ia ficar roxo. Como sabia que alguns de seus inimigos chegariam à conclusão de que o responsável era ele, manteve Demétria trancada em seu quarto e deu a todo mundo a desculpa de que sua irmã tinha passado por uma prova tão terrível nas mãos do barão de Wexton, que precisaria de alguns dias para poder recuperar suas forças.
Mas embora Sebastian se comportasse de acordo com o que esperava dele, Camille tinha demonstrado ser uma terrível decepção para Demétria. Quando dispôs de tempo para pensar sobre isso, Demétria compreendeu que tinha criado uma imagem totalmente falsa de sua irmã mais velha. Demétria queria acreditar que Camille se importava um pouco com o que pudesse acontecer com ela. Mas cada vez que enviava mensagens a suas irmãs, nem Camille nem Sara jamais se incomodaram em responder. Demétria sempre havia encontrado desculpas para sua conduta. Agora por fim era consciente da verdade: Camille era tão egoísta como Sebastian.
Sara nem sequer tinha ido a Londres. Camille explicou sua ausência, dizendo a Demétria que Sara acabava de se casar com o barão de Ruchiers e não desejava separar-se dele. Demétria nem sequer sabia que Sara estava noiva de alguém.
Demétria renunciou à tentativa de descansar. A voz de Camille gritava em seus ouvidos como um estridente cantar de galo. A irmã tinha tendência a reclamar de tudo, e isso era precisamente o que ela estava fazendo naquele momento, enquanto se queixava com Sebastian sobre a humilhação que Demétria havia causado.
Um fragmento da conversa chegou a Demétria pelas porta que se comunicava com o outro aposento. Camille estava falando de Dianna. Sua voz estava cheia de aborrecimento enquanto tranquilamente cobria de infâmia a mãe de Demétria.
Sebastian tinha odiado Dianna, mas jamais pensou que suas duas irmãs sentissem assim como ele.
- Desejou essa cadela desde dia em que entrou pela porta - disse Camille.
Demétria abriu uma fresta da porta. Viu Camille sentada em cima de uma almofada no vão da janela. Sebastian estava de pé perto dela, dando as costas a Demétria. Camille olhava para seu irmão. Ambos tinham uma taça na mão.
- Dianna era muito bonita - disse Sebastian, falando com seca aspereza -. Quando nosso pai se voltou contra ela, eu fiquei assombrado. Dianna era uma mulher tão atraente... Nosso pai forçou o casamento, Camille. Era certo que o barão de Rhinehold iria se casar com ela.
Camille bufou. Demétria viu como bebia um longo gole de sua taça. O vinho de uma cor vermelha escura se derramou pelo peitilho de seu vestido, mas Camille não pareceu perceber o desastre e voltou a encher a taça com a jarra que segurava na outra mão.
A irmã era tão parecida com Sebastian, com o mesmo cabelo de um loiro quase branco e os olhos cor avelã. Sua expressão, quando estava furiosa, era igualmente horrorosa que a de seu irmão.
- Naquela época, o barão de Rhinehold não podia competir com nosso pai - disse Camille -. Mas nosso pai foi habilmente enganado, não? No final Dianna conseguiu zombar dele. Pergunto-me, Sebastian, se Rhinehold soube que Dianna levava seu filho no ventre quando se casou com nosso pai.
- Não - respondeu Sebastian -. Dianna nunca pôde ver Rhinehold. Quando Demétria nasceu, nosso pai nem sequer a olhou. Dianna foi severamente castigada por sua loucura.
- E você esperava que então ela fosse até você em busca de consolo, não Sebastian? - perguntou Camille, tornando a rir quando seu irmão se voltou para ela fulminando-a com o olhar -. Estava apaixonado por ela - zombou Camille -. Mas Dianna achava você repugnante, não é verdade? Se ela não tivesse essa fedelha para cuidar, acredito realmente que ela teria tirado sua própria vida. Dianna não caiu por aqueles degraus no fim das contas, querido irmão. Ela pode ter sido empurrada.
- Sempre teve ciúmes de Dianna, Camille - replicou Sebastian secamente -. Da mesma maneira que agora está com ciúmes de sua filha, legítima ou não.
- Não estou com ciúmes de ninguém! - gritou Camille -. Deus, que vontade que tenho de que tudo isso termine de uma vez. Juro que vou contar sobre Rhinehold para Demétria. Pode ser inclusive que eu conte também que você matou sua mãe.
- Não dirá nada! - gritou Sebastian, fazendo cair a taça dos dedos de Camille com um súbito tapa -. É uma estúpida, irmã. Eu não matei Dianna. Ela escorregou e caiu por aqueles degraus.
- E quando caiu estava tentando escapar de você - zombou Camille.
- Bem, então que assim seja - gritou Sebastian -. E ninguém deve saber jamais que Demétria não é uma de nós. A vergonha afetaria tanto você como a mim.
- E a pequena cadela fará o que você mandar? Pensa que Demétria se comportará diante de nosso rei da maneira que você determinar que ela se comporte? Ou se voltará contra você, Sebastian?
- Demétria fará tudo o que eu disser - alardeou Sebastian -. Ela me obedece porque me tem medo de mim. Ah, que covarde é... Continua a ter exatamente o mesmo caráter que quando era uma criança. Além disso, nossa pequena Demétria sabe que se não fizer o que eu quero, matarei Berton.
- É uma lástima que Morcar tenha morrido - disse Camille -. Teria pago generosamente em troca de Demétria. Agora ninguém vai querê-la.
- Engana-se, Camille. Eu quero que Demétria seja minha, e não permitirei que ninguém se case com ela.
Demétria fechou a porta ante a obscena gargalhada da Camille, e então conseguiu chegar ao urinol do quarto bem a tempo de vomitar a bílis que se acumulou dentro de seu estômago.
Ela chorou por sua mãe, Dianna, e pelo inferno que Sebastian e seu pai tinham-na colocado. Ela tinha ficado horrorizada ao saber que Dianna tinha ido para a cama de seu casamento grávida de outro homem. E, em seguida, toda a verdade apareceu para Demétria. Ela chorou lágrimas de alegria em seguida, por ter sabido que ela não tinha o mesmo sangue que Sebastian, apesar de tudo.
Tinha ouvido o nome do barão de Rhinehold dos lábios de Joseph, e sabia que ambos eram aliados. Perguntou-se se o barão de Rhinehold estaria na corte. Queria ver que aspecto tinha. Teria chegado a se casar? Sebastian tinha razão. Ninguém deveria saber nunca... e entretanto, Demétria sabia que deveria contar a verdade a Joseph. Quem sabe ela também ficaria tão contente como ela estava!
Passado um momento, conseguiu recuperar o controle de suas emoções. Precisaria ser capaz de pensar com clareza. Sim, tinha que tentar de proteger o padre Berton e Joseph. Sebastian acreditava que Demétria trairia de boa vontade um deles para salvar o outro. Também havia o problema de Miley, é obvio, mas agora o que realmente preocupava Demétria não era a irmã de Joseph. Não, Liam não demoraria a se casar com Miley e quando isso acontecesse, o rei dificilmente poderia ameaçar entregar Miley a Sebastian.
Finalmente, fechou os olhos para dormir. E então recorreu ao mesmo fingimento que estava acostumada a jogar quando era pequena. Sempre que temia que Sebastian fosse levá-la de volta a sua casa, Demétria imaginava que Ulisses estava perto dela, vigiando-a e custodiando-a. Mas agora o fingimento havia mudado, porque quem montava guarda já não era mais Ulisses, mas Joseph.
Sim, tinha encontrado alguém mais poderoso que Ulisses. Agora Demétria tinha seu lobo para que a protegeria.
Na tarde seguinte, Demétria acompanhou Sebastian para encontro com o rei. Já estavam chegando aos aposentos privados de William quando Sebastian se virou para ela e sorriu.
- Conto com sua honestidade, Demétria. Você só precisa contar ao rei o que aconteceu ao seu lar e a você. Eu vou me encarregar do resto.
- E a verdade condenará Joseph, não? É isso que você acredita? - perguntou Demétria.
O sorriso de Sebastian escureceu de repente. O tom que sua irmã acabava de empregar não lhe agradou nada.
- Você se atreve a recuperar sua valentia perdida exatamente agora, Demétria? Lembre-se de seu querido tio. Neste mesmo instante, tenho homens preparados para partir a galope. Basta apenas com que eu dê uma ordem para que cortem o pescoço de Berton.
- Como sei que você já não o matou? - argumentou Demétria -. Sim - acrescentou quando Sebastian a agarrou ameaçadoramente pelo braço -. É incapaz de controlar seu mau caráter, Sebastian. Nunca conseguiu fazê-lo. Como sei que não matou a meu tio ainda?
Sebastian provou que seu comentário a respeito de seu mau caráter era certo. Sua mão saiu em disparada, atingindo sua face. O anel cravejado de pedras que ele usava abriu o canto do lábio, e um fiozinho de sangue começou a baixar imediatamente pelo queixo de Demétria.
- Olhe o que você me fez fazer! - gritou Sebastian. Voltou a arquear a mão para infligir outro golpe, e então se viu subitamente atirado contra a parede junto de Demétria.
Anthony tinha surgido das sombras. Ele indicava a Demétria que ia estrangular seu irmão.
Demétria tinha provocado deliberadamente seu irmão para fazer com que ele perdesse a paciência.
Para falar a verdade, nem sequer estava agradecida pela interferência de Anthony.
- Solte meu irmão, Anthony - ordenou. Tinha falado com voz bastante áspera, mas suavizou a ordem colocando a mão no ombro do vassalo -. Por favor, Anthony.
O vassalo reprimiu sua ira, soltou Sebastian e contemplou sem se alterar como o barão caía no chão preso a um súbito ataque de tosse.
Demétria tirou proveito do estado de debilidade em que estava mergulhado seu irmão para ficar nas pontas dos pés e sussurrar no ouvido de Anthony:
- É o momento de eu colocar meu plano em ação. Faça o que faça ou diga o que diga, não tente me deter. Estou protegendo Joseph.
Anthony assentiu para que Demétria soubesse que tinha entendido. Desejava perguntar se seu plano consistia em impulsionar Sebastian a matá-la. E por que estava pensando em proteger Joseph? Era óbvio para o vassalo que sua senhora não se preocupava minimamente por sua própria segurança.
Um instante depois teve que recorrer a toda sua determinação para não mostrar reação alguma, quando Demétria ajudou a seu irmão a ficar de pé. Anthony não queria que Demétria tocasse naquele bastardo.
- Não acredito que tenha feito mal ao tio Berton, Sebastian - disse Demétria quando seu irmão tentou afastar-se de Anthony -. Resolveremos este problema aqui e agora.
Sebastian ficou muito assombrado pela ousadia de Demétria. Agora sua irmã já não se comportava de maneira tímida ou assustada.
- O que pensa dizer ao rei quando ele vir os sinais que há em meu rosto, Sebastian?
- Você não vai ver o rei! - gritou Sebastian -. Mudei de ideia. Vou levá-la de volta a seus aposentos, Demétria. E então falarei de seu comportamento com nosso monarca.
Demétria se soltou do apertão com que seu irmão a segurava.
- O rei vai querer me ver e escutar minha explicação - disse -. Hoje, amanhã, ou a semana que vem, Sebastian - acrescentou -. O que você faz é prolongar a espera. E sabe o que direi a nosso rei?
- A verdade - zombou Sebastian -. Sim, sua honestidade será uma armadilha para o barão de Wexton. – ele, na verdade, deu uma gargalhada de seu próprio comentário -. Não pode evitar ser como é, Demétria.
- Se eu falasse diante o rei, contaria a verdade. Mas não vou dizer uma única palavra. Vou me limitar a ficar quieta, e quando o rei me fizer suas perguntas, então eu olharei fixamente para ele. Juro por Deus que não direi uma única palavra.
A ameaça de Demétria enfureceu Sebastian a tal ponto que pouco faltou para ele voltar a atingi-la.
Quando ele levantou a mão, Anthony deu um ameaçador passo adiante. O desejo de retaliação de Sebastian foi deixado de lado imediatamente.
- Falaremos sobre isso mais tarde - disse, e olhou significativamente para Anthony, antes de continuar falando -: Prometo que farei você mudar de ideia assim que estivermos a sós.
Demétria escondeu o medo que sentia.
- Vamos falar disto agora, Sebastian, ou do contrário enviarei Anthony ao nosso rei para que ele conte como você me está maltratando.
- Pensa que William se importaria muito isso? - gritou Sebastian.
- Sou tão súdita dele como você - replicou Demétria -. Também ordenarei Anthony que diga ao rei quão preocupada estou ante a possibilidade de você matar tio Berton. Duvido que William vá gostar muito da maneira que a igreja vai reagir ao fato de um barão assassinar um dos seus.
- O rei nunca acreditará em você. E sabe muito bem que seu querido sacerdote está vivo. Mas se insistir nesta rebelião, vou mandar matá-lo. Continue me provocando, cadela, e juro que...
- Vai me enviar para viver com tio Berton. Isso é o que fará.
Sebastian arregalou os olhos e seu rosto se converteu em uma mancha avermelhada. Ele não podia acreditar na mudança radical que tinha acontecido na personalidade de sua irmã. Demétria o enfrentava, e diante de testemunhas. Preocupação infiltrava na cabeça de Sebastian. A cooperação de Demétria era imprescindível para convencer o rei a ir contra Joseph. Sim, ele contava com Demétria para dizer como Joseph tinha destruído sua fortaleza e a tornado prisioneira. De repente Demétria estava imprevisível.
- Você espera que eu responda apenas algumas verdades, não? E se eu começar meu relato contando como você tentou matar o barão de Wexton?
- Você só vai responder perguntas que lhe forem formuladas! - uivou Sebastian.
- Então aceite meu pedido. Deixe-me ir para meu tio. Ficarei com ele e deixarei que você cuide deste problema com o barão de Wexton.
As palavras que Demétria escolheu deliberadamente a fizeram ter vontade de chorar. Um problema, certamente. Sebastian pretendia ver Joseph destruido.
- Eu juro, posso lhe causar mais dano ao seu pedido, se você me fizer comparecer diante do rei. A verdade poderia condenar Joseph, mas meu silêncio vai condenar você.
- Quando isto tenha terminado...
- Você vai me matar, suponho - disse Demétria com um encolher de ombros cheio de indiferença forçada. Sua voz carecia de qualquer emoção quando disse -: Eu não ligo, Sebastian. Faça o seu pior.
Sebastian não precisou pensar na ameaça de Demétria, porque chegou imediatamente à conclusão de que era preciso tirá-la da corte. Não havia tempo para obrigá-la a se submeter mediante os golpes e a força.
Fazia apenas dois dias que ele havia de seu fracasso em tentar matar Joseph. Morcar estava morto, e agora, sem dúvida, Joseph chegaria a Londres a qualquer momento.
Talvez ele devesse deixar que sua irmão fizesse da maneira dela e decidiu percebeu que sua partida serviria muito bem a seu propósito.
- Você vai partir em um hora - anunciou -. Mas meus homens vão escoltá-la, Demétria. Os homens de Wexton - acrescentou, agora olhando para Anthony - não têm nenhuma razão para acompanhá-la. O barão não tem mias que se meter em seus assuntos. Ele recuperou a irmã dele, e agora você me pertence.
Demétria concordou antes que Anthony pudesse protestar. O vassalo trocou um rápido olhar com sua senhora e, então, inclinou a cabeça em sinal de aceitação.
Não tinha a menor intenção de honrar aquele acordo, óbvio. Anthony seguiria Demétria aonde quer que Sebastian a enviasse. Mas seria muito discreto, e permitiria que Sebastian acreditasse que seus deveres com Demétria haviam chegado ao fim.
- Então, vou retornar à fortaleza de Wexton - anunciou antes de dar meia volta e partir.
- Devo ir e trocar algumas palavras com o rei - murmurou Sebastian - William nos espera. Cedo ao seu capricho, Demétria, mas você e eu sabemos que chegará o momento em que deverá contar a William tudo o que aconteceu.
- Serei honesta com ele - replicou Demétria. Quando Sebastian a olhou com desconfiança, ela apressadamente acrescentou -: E isso, naturalmente, apoiará sua causa.
Sebastian parecia levemente apaziguado.
- Sim, bem, talvez a visita a seu tio seja o melhor a fazer. Vê-lo outra vez fará você se lembrar sua débil posição
A cadela precisava se lembrar de quão importante seu tio era para ela, decidiu Sebastian. Demétria obviamente tinha esquecido que Berton estava frágil e velho, e como era impossível que ele protegesse a si mesmo. Sim, Demétria precisava voltar a ver o sacerdote. Então, Sebastian voltaria a ter sua tímida e medrosa irmã ali, onde ele queria que ela estivesse.
- Sempre existe a possibilidade de eu ter que cuidar de Joseph antes de você pedir para voltar à corte, Demétria. Agora retorne ao seu quarto e arrume seus insignificantes pertences. Enviarei alguns soldados para escoltá-la até o pátio.
Demétria fingiu humildade. Inclinou a cabeça e murmurou seu agradecimento.
- Eu realmente passei por um terrível calvário - disse a seu irmão -. Espero que o rei não se oponha ao seu pedido para que eu deixe...
- Meu pedido? - Sebastian riu, um som obsceno e ruidoso -. O rei nem sequer saberá, Demétria. Não preciso pedir nada a William para assuntos de tão pouca importância.
Sebastian deu meia volta e partiu depois de fazer sua odiosa ostentação. Demétria o seguiu com o olhar até que ele desapareceu depois da curva do corredor. Ela se virou e andou para o seu quarto. Anthony a esperava entre as sombras e se apressou a interceptá-la.
- Você está se expondo muito, milady - murmurou o vassalo -. Seu marido ficará descontente.
- Ambos sabemos que Joseph não é meu marido - disse Demétria -. É importante que você não interfira, Anthony. Sebastian deve acreditar que realmente recuperou sua irmã.
- Demétria, eu sei que você pensa em proteger Miley, mas é dever de Liam...
- Não, Anthony - interrompeu Demétria -. Só estou pensando em ganhar tempo. E tenho que ir com meu tio. Ele é como um pai para mim. Sebastian o matará se eu não o proteger...
- Você deve proteger a si mesma - arguiu Anthony -. E em vez disso, você tenta proteger o mundo. Não quer ouvir a razões? Se você sair dos domínios do castelo ficará vulnerável.
- Estou muito mais vulnerável aqui - sussurrou Demétria. Deu um tapinha na mão de Anthony e disse -: Eu estarei vulnerável até que Joseph resolva este problema. Você vai dizer a Joseph para onde fui, Anthony, e então a decisão será apenas dele.
- Que decisão? - quis saber Anthony.
- De vir atrás de mim, ou não.
- Você realmente duvida...?
Demétria deixou escapar um prolongado suspiro.
- Não, não duvido disso - disse, sacudindo a cabeça para dar mais ênfase a suas palavras -. Joseph virá me procurar, e quando o fizer, deixará soldados para proteger meu tio. Só rezo para ele que venha o mais depressa possível.
Anthony não encontrou nenhum defeito no plano de Demétria.
- Não vou perder você de vista em momento algum - jurou -. Você só terá que gritar e eu estarei ali.
- Você deve ficar aqui e avisar Joseph...
- Deixarei outro encarregado de cumprir com esse dever - disse Anthony -. Dei minha mina palavra a meu lord que protegeria sua esposa - acrescentou, reforçando a palavra “esposa”.
Embora não admitisse, Demétria se sentiu aliviada ao saber que contaria com a proteção de Anthony Quando terminou de recolher suas roupas, ela correu para o pátio adjacente ao estábulo do rei. Três dos Sebastian iriam escoltá-la. Deixaram-na sozinha no pátio enquanto preparavam suas montarias.
Demétria agradeceu por não ter voltado a encontrar com Camille. E Sebastian ainda estava falando com o rei..., enchendo sua cabeça de mentiras a respeito de Joseph, Demétria sabia.
Uma multidão de curiosos se reuniu para presenciar sua partida. As marcas no rosto Demétria eram claramente visíveis, e não pôde evitar os comentários especulativos que todos faziam a suas costas.
Uma ruiva alta se separou do grupo e se virou para o Demétria com passo rápido e decidido. Era muito bonita, com um porte elegante e majestoso, bem mais alta que Demétria, e um pouco mais cheinha também. Não sorriu para Demétria, mas dirigiu-lhe um olhar hostil.
Demétria sustentou seu olhar e perguntou:
- Há algo que você queira me dizer?
- Eu estou correndo um grande risco ao falar com você tão de abertamente - começou dizendo a mulher -. Tenho que pensar em minha reputação, entenda.
- E falar comigo vai manchá-la? - perguntou Demétria.
Sua pergunta pareceu surpreender aquela mulher
- É obvio que sim - admitiu -. Sem dúvida você deve saber que já não é mais desejável...
Demétria cortou bruscamente com aquele velado insulto.
- Diga o que quer dizer e vá embora.
- Sou lady Eleanor. - Demétria não pôde esconder sua surpresa -. Então, você já ouviu falar de mim? Provavelmente o barão de Wexton deva ter falado que...
- Eu ouvi falar de você - murmurou Demétria. Sua voz tremia. Não podia evitar sentir-se um pouco inferior na frente daquela mulher. Lady Eleanor estava esplendidamente vestida, enquanto Demétria usava um singelo vestido de viagem, de um azul bastante descolorido.
A pretendente de Joseph parecia ser tudo o que Demétria acreditava não ser, ela estava tão compostura e era tão digna. Demétria duvidava que aquela mulher pudesse ter sido desajeitada, nem sequer quando era pequena.
- Meu pai ainda tem que chegar a um acordo formal com o barão de Wexton a respeito da data de nosso casamento. Eu só queria lhe dizer que você conta com minha compaixão, pobre criança. Mas não culpo meu futuro marido de nada. Ele apenas respondeu ao que haviam feito com ele. Mas me pergunto se o barão de Wexton maltratou você.
Demétria ouviu a preocupação que havia na voz de lady Eleanor e ficou furiosa.
- Se você tiver que me fazer essa pergunta, é porque realmente não conhece o barão de Wexton.
Deu as costas à mulher e montou no cavalo que um dos soldados acabava de trazer para ela. Quando ela montou, baixou o olhar para lady Eleanor e disse:
- Ele não me maltratou. Agora sua pergunta já foi respondida e é a mina vez de perguntar uma coisa.
Lady Eleanor assentiu com uma seca inclinação de cabeça.
- Você ama o barão de Wexton?
Depois de um longo momento de silêncio, ficou evidente que lady Eleanor não iria responder a pergunta de Demétria. Arqueou uma sobrancelha, e a expressão de desdém que havia em seu rosto disse a Demétria que não havia gostado da pergunta.
- Não sou uma pobre criança, lady Eleanor - avisou Demétria, permitindo que sua raiva soasse em sua voz -. Joseph não se casará com você. Não assinará o contrato. Ele teria que renunciar ao maior de seus tesouros para poder se casar com você.
- E qual seria esse tesouro? - perguntou lady Eleanor sem elevar a voz.
- Ora, eu sou o maior tesouro de Joseph. Ele teria que ser muito tolo para renunciar a minha pessoa - acrescentou Demétria -. E até você deve saber que Joseph pode ser qualquer coisa, menos tolo.
Demétria então incitou sua montaria para frente. Lady Eleanor teve que sair de seu caminho para evitar ser pisoteada pelos cascos do animal, e uma nuvem de pó se elevou no rosto daquela mulher tão tola.
Agora não parecia tão superior. Sim, lady Eleanor estava claramente furiosa. Sua raiva agradou Demétria imensamente. Sentia-se como se acabasse de ganhar uma batalha muito importante. Era uma vitória na maneira de pensar de Demétria: infantil e nascida da descortesia, verdade, mas igualmente uma vitória.



verdades sendo reveladas...que acharam disso?


domingo, 5 de maio de 2019

Esplendor da Honra Capitulo 20


E com a medida que tiverdes medido, assim serão medidos.
Mateus, 7, 2
Joseph foi o primeiro a perceber o aroma do perigo. Deu o sinal de fazer uma parada e os soldados se detiveram atrás dele. Não se pronunciou uma única palavra, e um estranho silêncio desceu sobre os bosques, assim que os cavalos se acalmaram.
O barão Liam ficou à direita de Joseph. Ele esperou, assim como seus homens, confiando em no bom julgamento de Joseph. A reputação de Joseph era lendária. Liam já tinha lutado ao lado dele, e embora tivessem quase a mesma idade, Liam se considerava aprendiz e Joseph, seu professor.
Quando Joseph levantou a mão, vários soldados se deslocaram para examinar a área.
- Está quieto, muito quieto - disse Joseph a Liam.
Liam assentiu.
- Este não é lugar que eu escolheria para armar uma armadilha, Joseph - admitiu.
- Exatamente.
- Como sabe que é uma armadilha? Eu não vi nada - disse Liam.
- Eu sinto isso - respondeu Joseph -. Estão aqui, debaixo de nós, esperando.
Um tênue assobio vindo do bosque ressoou à esquerda. Joseph se virou imediatamente em sua sela e fez um gesto a seus soldados para que se dividissem em pelotões.
O soldado que feito aquele som cavalgou para reunir-se com eles.
- Quantos? - perguntou Joseph.
- Eu não saberia, mas avistei vários escudos.
- Então acrescente a essa quantidade vem vezes mais - disse Liam.
- Na curva do cruzamento - anunciou o soldado -. Esconderam-se ali, milord.
Joseph assentiu. Ele procurou sua espada, mas Liam deteve sua mão.
- Lembre-se, Joseph, se Morcar for um deles…
- Morcar é seu - reconheceu Joseph, falando com voz áspera e controlada.
- Da mesma maneira em que Sebastian é seu - disse Liam.
Joseph sacudiu a cabeça.
- Ele não estará aqui - disse depois -. O bastardo se esconde atrás de seus homens ou na corte de William. Agora já tenho minha resposta, Liam. Era uma falsa carta enviada por Sebastian e não pelo rei. Esta é a última partida de erros que jogo com Sebastian.
Joseph esperou até que um terço de seu contingente se juntasse em semicírculo na encosta ocidental. O segundo terço seguiu a mesma ordem, embora eles se espalhassem em um semicírculo sobre a ponte oriental. O último terço da tropa de Joseph se manteve à espera atrás dos barões. Eles foram escolhidos para montar um confronto direto.
Liam estava mais que satisfeito com o plano de Joseph.
- Vamos deixá-los presos dentro de sua própria armadilha - disse orgulhosamente.
- E agora fechamos nosso círculo, Liam. Dê a ordem.
Aquilo era uma honra que Joseph conferia a seu amigo. Liam se ergueu sobre sua sela de montar, brandiu sua espada e lançou o grito de guerra.
Os ecos daquele som retumbaram por todo o vale. Os soldados que circundavam o inimigo agora começavam seu avanço para baixo.
A rede se fechou. A batalha pertencia aos mais capazes e o poderio se fez com o dia, impondo-se a todos.
Aqueles homens ardilosos que estavam escondidos como mulheres atrás de árvores e rochas, esperando a ocasião de caírem sobre as vítimas desavisadas, não demoraram a ficar presos.
Os homens de Joseph demonstraram sua superioridade. Controlaram a situação desde o primeiro instante, lutaram corajosamente, e não demoraram a reclamar a vitória.
Não fizeram prisioneiros.
Foi apenas quando a batalha já havia quase terminado que Liam viu Morcar. Seus olhares se encontraram em desafio através do vale. Morcar sorriu zombeteiramente e, em seguida, se virou para montar em seu cavalo. Acreditava dispor de tempo para poder fugir.
A mente de Liam estalou. Começou a lutar como um possuído, pensando apenas em poder chegar até Morcar antes que ele desaparecesse. Joseph protegeu as costas de Liam em mais de uma ocasião, gritando para seu amigo recuperasse o controle de si mesmo.
Joseph estava furioso. Era um homem que exigia disciplina tanto de si mesmo como de seus soldados. Mas agora seu par, o barão Liam, estava infringindo todas as regras de treinamento. Seu amigo estava fora de si.
Liam não dava ouvidos a nenhuma advertência. O véu da fúria obscurecia seus olhos. A raiva, tão selvagem e incontida, tinha passado a reger tanto sua mente como seu corpo.
Morcar permaneceu imóvel sobre seus arreios enquanto contemplava como Liam tratava de chegar até ele. Perdeu uns segundos preciosos, mas se sentia a salvo. O barão Liam ia a pé.
Seu sorrisinho depreciativo se converteu em uma estrondosa gargalhada quando Liam tropeçou e caiu de joelhos. Morcar aproveitou aquela oportunidade e fez com que seu cavalo se lançasse em disparada ladeira abaixo. Inclinando-se para o lado de sua sela, ameaçou Liam com sua espada curvada.
Liam fingiu debilidade. Manteve a cabeça baixa e um joelho fincado no chão, esperando que seu inimigo se aproximou o suficiente.
Morcar atacou com sua espada no mesmo instante em que Liam saltava para o lado. Liam usou a horizontal de sua própria espada para derrubar Morcar de sua montaria.
Morcar caiu de lado, rodou até ficar de barriga para cima e pensou em recuperar sua arma e levantar-se de um salto.
Não se chegou a ter a oportunidade de fazê-lo.
O pé de Liam imobilizou sua mão. Quando Morcar levantou o olhar, viu o barão imóvel sobre ele com a ponta de sua espada dirigida para seu pescoço.
- Será que vai haver mulheres no inferno para você estuprar, Morcar? - perguntou Liam.
Os olhos do Morcar se abriram de repente. E naqueles últimos segundos antes de sua morte, soube que Liam tinha ouvido a verdade dos lábios da Miley.
Joseph não tinha presenciado o combate. Quando a batalha terminou, foi de um lado a outro entre seus próprios homens para saber quantos haviam morrido. Também se ocupou de seus feridos.
Horas depois, quando o sol já se apagava no céu, foi em busca de Liam. Encontrou seu amigo sentado em um penhasco. Joseph falou, mas não recebeu nenhuma resposta por parte do Liam.
Joseph sacudiu a cabeça.
- Que diabos aconteceu com você? - quis saber -. Onde está sua espada, Liam? - perguntou, quase como uma reflexão tardia.
Liam finalmente levantou olhar para Joseph. Seus olhos estavam avermelhados e inchados. Embora Joseph não fizesse nenhum comentário algum a respeito, pôde ver que seu amigo esteve chorando.
- No lugar onde deve estar - disse Liam, com voz carente de toda emoção e tão implacavelmente seca como a expressão que havia em seu rosto.
Joseph não entendeu sobre o que Liam estava falando, até que encontrou o corpo de Morcar. A espada de Liam estava cravada na virilha de Morcar.
Eles montaram acampamento no penhasco acima do campo de batalha. Liam e Joseph comeram um jantar frugal, e não voltaram a dizer uma palavra até que a escuridão os envolveu.
Liam empregou esse tempo para livrar-se de sua ira. Joseph empregou esse tempo para alimentar a sua.
Quando Liam começou a falar, deu rédia solta a sua angústia.
- Eu vivi uma pretensão todos este tempo com Miley - disse -. Eu acreditava que ter aceito tudo o que tudo que aconteceu com ela. Quando jurei matar Morcar, aquilo foi uma decisão lógica. Até que o vi, Joseph. Então algo se quebrou dentro de mim. O bastardo ria…
- Por que me dá essas desculpas? - perguntou Joseph sem levantar a voz.
Liam sacudiu a cabeça e sorriu tenuamente.
- Porque tenho o palpite de que você quer atravessar meu coração com seu espada - disse.
- Sua maneira de combater não pôde ser mais insensata, Liam - replicou Joseph -. Se eu não estivesse ali, nunca teria conseguido chegar ao alto dessa colina. Agora estaria morto. Sua sede de vingança esteve a ponto de acabar com você.
Joseph ficou em silêncio durante um instante para que Liam tivesse tempo de pensar no que ele acabava de dizer. Sua raiva sobre o comportamento indisciplinado de seu amigo foi teve outra proporção. Joseph percebeu que agora. Estava furioso com Liam porque viu aquele defeito no caráter de seu amigo, e agora admitia que ele levava a mesma marca.
- Comportei-me que uma maneira muito tola, é verdade. Não darei mais desculpas - disse Liam.
Joseph sabia que aquela confissão tinha sido muito difícil para seu amigo fazer.
- Não estou pedindo desculpas - disse -. Aprenda isto, Liam. Eu não sou melhor que você, e também me deixei levar por minha sede de vingança. Demétria foi ferida durante a batalha porque eu a tornei minha prisioneira. Poderiam tê-la matado. Agora ambos sabemos o que significa comportar-se como um tolo.
- Sim, agora sabemos - replicou Liam -. Embora eu não admita isso na frente de ninguém, senão na sua, Joseph. Acaba de me dizer que em uma ocasião esteve a ponto de perder Demétria. Então a magia de Demétria teria se perdido e você nunca conheceria sua perda.
- A magia de Demétria? - perguntou Joseph, sorrindo-se ante o florido comentário porque o falar de semelhante maneira não era algo comum em Liam.
- Não posso explicar - disse Liam. Ruborizou-se, obviamente sentindo-se envergonhado pelo que havia dito -. Ela é tão pura, tão limpa…E se alguma vez você lamentou por torná-la cativa, eu me alegro por tê-lo feito. Demétria era a única pessoa que podia me devolver Miley.
- Nunca lamentei ter feito Demétria prisioneira - replicou Joseph -. Apenas lamento que ela esteja envolvida em minha batalha com Sebastian.
- Ah, minha doce Miley… - disse Liam -. Eu hoje poderia ter sido morto, e então teria sido negada, para sempre, a felicidade que só eu poderei dar a Miley.
Joseph sorriu.
- Ainda não tenho muita certeza se Miley teria chorado sua perda, ou celebrado sua morte, Liam.
Liam começou a rir.
- Eu vou lhe contar uma coisa, e se você a repetir, eu vou cortar seu pescoço. Eu tive que fazer uma promessa a Miley antes que ela aceitasse se casar comigo.
Joseph não pôde conter sua curiosidade. Liam voltava parecer incomodado.
- Tive que jurar que não me deitaria com ela - disse, depois de um instante.
Joseph sacudiu a cabeça.
- Você se deleita com um castigo, Liam. Diga-me, você planeja honrar sua promessa? - perguntou, tentando não rir.
- Vou honrá-la - anunciou Liam, deixando Joseph surpreso.
- Planeja viver como um monge em sua própria casa? - perguntou Joseph, visivelmente perplexo.
- Não, mas aprendi com você, Joseph.
- Pode-se saber sobre o que você está falando? - perguntou Joseph.
- Você disse a Miley que ela poderia continuar vivendo com vocês pelo resto de seus dias, lembra-se disso? E depois sugeriu que eu fosse viver na fortaleza dos Wexton, e agora eu o estou imitando.
- Entendo - disse Joseph com um assentimento de cabeça.
Liam riu.
- Não, você não entende - disse -. Eu prometi a Miley que não me deitaria com ela. Miley, entretanto, pode se deitar comigo se assim desejar.
Joseph sorriu, compreendendo por fim.
- Levará algum tempo - admitiu Liam -. Miley me ama, mas ainda não confia em mim. Aceito suas condições, por que sei que Miley não será capaz de resistir eternamente a meus encantos.
Joseph riu com vontade.
- Será melhor descansarmos um pouco. Partiremos para Londres amanhã? - perguntou Liam.
- Não, cavalgaremos para a propriedade do barão de Rhinehold. Sua fortaleza é o centro de meu plano.
- E qual é seu plano?
- Reunir meus aliados, Liam. O jogo terminou. Enviarei mensageiros de Rhinehold a outras fortalezas. Se tudo correr bem, vamos nos reunir em Londres dentro de duas semanas, três no máximo.
- E também chamará os homens dos outros barões? - perguntou Liam, imaginando o enorme exército que Joseph podia reunir com tanta facilidade. Embora os barões estivessem inclinados lutar entre eles, e constantemente disputavam uma posição mais significativa de poder, todos se mostravam igualmente respeitosos e admiravam o barão de Wexton. Todos eles enviavam seus melhores cavalheiros para serem treinados sob a tutela de Joseph. Nenhum deles jamais foi rechaçado.
Os barões se inclinavam diante do julgamento de Joseph. Ele nunca havia pedido que o apoiassem antes, e mesmo assim nenhum integrante daquele grupo voltaria as costas para Joseph.
- Não quero ter a meu lado seus exércitos, apenas os meus pares. Não vou desafiar nosso líder, apenas confrontá-lo. Há uma diferença, Liam.
- Eu também estarei do seu lado, mas tenho certeza que você já sabe disso - anunciou Liam.
- Sebastian jogou sua última partida de erros - disse Joseph -. Não acredito que o rei saiba nada a respeito de sua traição, no entanto, eu preciso esclarecer isso. William não pode continuar a ignorar este problema. Justiça será feita.
- Você vai esclarecer ao nosso líder diante dos outros barões?
- Vou fazê-lo. Todos eles sabem sobre Miley - disse -. Eles também devem ouvir a verdade.
- Por quê? - O rosto do Liam mostrou a angústia que sentia -. E Miley terá que comparecer diante…?
- Não, ela ficará em minha casa. Não há nenhuma necessidade de obrigá-la a passar por semelhante provação.
Liam em seguida pareceu aliviado.
- Então por que vai…?
- Apresentarei a verdade ao nosso rei, diante de seus barões.
- E nosso monarca agirá com honra no que diz respeito a esta questão? - perguntou Liam.
- Não demoraremos a descobrir. São muitos os que acreditam que nosso rei é incapaz de fazer tal coisa, mas eu não sou um deles. - A voz de Joseph estava cheia de ênfase -. William sempre agiu com honra em relação a minha pessoa, Liam. Não julgarei tão facilmente a nosso rei.
Liam assentiu.
- Demétria terá que vir conosco, não? - perguntou depois.
- Será necessário - respondeu Joseph.
A expressão que havia no rosto de Joseph deixou muito claro a Liam que seu amigo tinha vontade de levar Demétria para corte tanto quanto tinha vontade de levar Miley.
- Demétria terá que contar o que aconteceu - disse Joseph -. De outra maneira será a palavra de Sebastian contra a minha.
- E isso significa que o desfecho dependerá de Demétria? - perguntou Liam, com uma expressão tão irada como a de Joseph.
- É obvio que não - respondeu Joseph -. Mas ela sempre foi um peão em tudo isto. Tanto Sebastian como eu a usamos. Isso é algo difícil de eu reconhecer, Liam.
- Quando você levou Demétria com você, salvou-a dos abusos que Sebastian lhe infligia - assinalou Liam -. Miley me contou algumas coisas sobre o passado de Demétria.
Joseph assentiu. Estava farto de conflitos. Agora que tinha descoberto a imensa alegria de amar Demétria, queria passar cada minuto com ela. Sorriu ao perceber que estava seguindo o exemplo do Ulisses, o herói imaginário de Demétria. Sua esposa tinha contado tantas histórias do guerreiro que se viu obrigado a suportar um desafio atrás de outro, durante longos dez anos, antes de que pudesse voltar para casa para estar com sua amada.
Ainda teriam que esperar duas semanas a mais, até que Joseph pudesse voltar a ter Demétria em seus braços. Voltou a suspirar, pensando que estava começando a se comportar de maneira realmente patética.
- Bem, pelo menos antes de chegarmos a Londres haverá tempo de…
- Tempo de quê? - perguntou Liam.
Joseph não percebeu que havia expressado aquele pensamento em voz alta até que Liam o interrogou a respeito.
- De casar com Demétria.
Liam arregalou os olhos. Joseph deu meia volta e se afastou para o bosque, deixando Liam sozinho para se perguntar sobre o que, em nome de Deus, ele estava falando.
O lar de Joseph sofreu algumas mudanças sutis, enquanto ele estava fora. Eram precauções necessárias, e cada uma delas tinha sua razão de ser por causa da baronesa.
Agora o pátio sempre ficava deserto a primeira hora da manhã. Embora o intenso calor acentuasse um maior número de criados para fazer seus trabalhos cotidianos de lavar os lençóis e trançar juncos frescos ao ar livre, todo mundo preferia trabalhar lá dentro. Eles esperaram até o final da tarde para ir lá fora e ganhar alguns minutos de ar fresco.
Mais especificamente, esperavam a que Demétria tivesse terminado de praticar seu tiro ao alvo.
Demétria estava decidida a saber manusear com a devida precisão seu novo arco e suas flechas, e para alcançar seu objetivo, ameaçou fazer Anthony perder o juízo. Ele ensinava a disparar, mas mesmo assim não conseguia entender por que sua senhora era absolutamente incapaz de melhorar. Sua determinação era admirável. Sua pontaria, entretanto, já era outra história. Demétria sempre lançava a flecha a, no mínimo, um metro acima do alvo. Anthony não parava de comentar aquele fato, mas mesmo assim Demétria parecia incapaz de melhorar sua pontaria.
Ned a provia de novas flechas. Demétria tinha gasto mais de cinquenta antes de poder corrigir sua pontaria o suficiente para as manter as setas abaixo do topo do muro.
A partir desse momento pôde recuperar suas flechas e voltar a utilizá-las, flechas que tinham atravessado as árvores, as cabanas e os lençóis pendurados para secar.
Anthony era paciente com sua senhora. Entendia qual era a meta que ela pretendia alcançar. Demétria queria aprender a se proteger por si mesma, certo, mas também queria fazer com que seu marido se sentisse orgulhoso dela. O vassalo não estava fazendo conjecturas a respeito do segundo motivo de Demétria, já que ela mesma dizia isso várias vezes ao dia.
Anthony compreendia a perseverança de sua senhora. Sua baronesa se preocupava que ele acabasse se aborrecendo com seu péssimo desempenho e deixasse de ensiná-la. O vassalo não seria capaz de negar nada a Demétria, era certo.
Um mensageiro do rei da Inglaterra chegou à fortaleza de Wexton na última hora da tarde. Anthony o recebeu no salão, pois esperava que ele transmitisse uma mensagem verbal. O mensageiro do rei entregou a Anthony um cilindro de pergaminho. O vassalo chamou Maude e pediu para ela dar comida e algo de beber ao soldado.
Demétria entrou no salão no mesmo instante em que o soldado seguia Maude para a cozinha, e em seguida se fixou no pergaminho.
- Quais são as notícias, Anthony? Joseph enviou alguma mensagem? - perguntou.
- A mensagem vem do rei - disse Anthony, e foi para a pequena arca que havia junto à parede de em frente da despensa. Em cima do arca havia uma caixa de madeira esculpida. Demétria sempre imaginou que era apenas uma pequena obra de artesanato decorativo, até que viu como Anthony levantava a tampa e guardava o cilindro da mensagem dentro da caixinha.
Estava bastante perto para poder ver que ali dentro haviam outros pergaminhos pergaminho. A caixinha obviamente era o lugar em que Joseph guardava seus papéis mais importantes.
- Não vai ler agora? - perguntou a Anthony quando ele se virou novamente para ela.
- Terá que esperar até que o barão de Wexton retorne - anunciou Anthony.
A expressão que havia no rosto de Anthony indicou a Demétria que não gostava nada da ideia de ter que esperar.
- Eu poderia enviar para um dos monges de… - começou a dizer Anthony.
- Eu vou ler isso - interrompeu-o Demétria.
Sua observação pareceu deixar Anthony perplexo. Demétria sentiu um súbito calor nas bochechas, e soube que estava ruborizando.
- É verdade. Posso ler, Anthony, embora agradeceria se não dissesse a ninguém. Não gostaria de ser objeto de escárnio - acrescentou.
Anthony assentiu.
- Joseph já está há três semanas longe daqui - lembrou Demétria -. E você me disse que ele poderia passar outro mês fora. Vai se atrever a esperar tanto tempo para trazer para um sacerdote para ler esta mensagem?
- Não, claro que não - replicou Anthony. Abriu a caixinha e entregou o manuscrito a Demétria. Ela se apoiou no canto da mesa, cruzou os braços diante dele e leu a mensagem de seu monarca.
A carta estava escrita em latim, a língua preferida para as comunicações oficiais.
Demétria não demorou nada para traduzir a mensagem. Sua voz não vacilou nem em um só momento, mas quando terminou de ler a carta, suas mãos tremiam.
O rei não mandava saudação alguma ao barão de Wexton, e Demétria pensou que sua raiva era tão evidente como sua falta de modos. William exigia, desde a primeira até a última palavra da carta, que Demétria comparecesse diante ele.
Aquela ordem não a preocupou tanto como o anúncio de que o rei enviava sua própria tropa para que a levassem a sua presença.
- Assim, nosso rei vai enviar soldados para levá-la - disse Anthony quando ela terminou de ler, e sua voz tremeu um pouco ao falar.
Demétria acreditou que Anthony estivesse preso entre dois dilemas. Sua lealdade pertencia a Joseph. Sim, tinha-lhe jurado fidelidade. Mas mesmo assim tanto Anthony como Joseph eram vassalos do rei da Inglaterra. A ordem de William deveria ter preferência sobre todas as demais.
- Havia alguma coisa mais, Demétria? - perguntou Anthony.
Ela assentiu lentamente e logo, armando-se de coragem, conseguiu sorrir.
- Eu esperava que você não me perguntasse isso - sussurrou -. Parece, Anthony, que para o nosso rei há duas irmãs e dois barões. William quer que a inimizade termine de uma vez, e sugere que possivelmente… Sim, o rei utiliza precisamente essa palavra, ele sugere que possivelmente cada irmã deva ser devolvida a seu legítimo irmão.
Os olhos de Demétria se encheram de lágrimas.
- A outra alternativa é que Joseph se case comigo - murmurou.
- O rei obviamente não sabe que já estão casados - interveio Anthony. Sua expressão de desgosto se acentuou, pois sabia que Demétria não tinha ciência do fato de que, na verdade, ainda não estava casada com Joseph.
- E se Joseph se casar comigo, então Miley deverá ser a noiva de Sebastian.
- Que Deus nos ajude - murmurou Anthony com desgosto.
- Miley não deve chegar a saber disso - apressou-se a dizer Demétria -. Vou me limitar a dizer que o rei requer minha presença.
Anthony assentiu.
- Pode escrever além de saber ler, Demétria? - perguntou de repente.
Quando Demétria assentiu, o vassalo disse:
- Então, possivelmente, se o rei ainda não enviou suas tropas, poderíamos ganhar um pouco de tempo.
- Tempo para quê? - perguntou Demétria.
- Tempo para que seu marido volte para você - disse Anthony.
O vassalo se apressou em ir à arca, agarrou a caixa retangular de madeira e a levou para Demétria.
- Aqui dentro há pergaminho e tinta - disse.
Demétria se sentou e se preparou rapidamente para o trabalho que a aguardava. Anthony deu-lhe as costas e começou a andar enquanto ela decidia o que diria ao seu rei.
Então Demétria reparou em uma carta enrolada que estava em cima da mesa, junto à jarra cheia de flores. O selo rasgado pertencia ao monastério de Roanne. Movida pela curiosidade, dedicou um instante para ler a carta enviada pelos superiores do padre Lawrence.
Anthony se virou para Demétria no exato instante em que ela terminava de ler a carta. Reconheceu o selo, e então soube que o fingimento tinha terminado.
- Joseph não queria que se preocupasse com isso - disse a Demétria, e colocou a mão em seu ombro para oferecer um pouco de consolo.
Demétria não fez nenhum comentário. Jogou a cabeça para trás para olhá-lo, e Anthony ficou atônito ante a súbita mudança que ocorreu em sua senhora. A via muito serena, e então percebeu quão aterrorizada ela realmente estava. Sim, aquela era a mesma expressão que havia em seu rosto durante as primeiras semanas, em que esteve cativa de Joseph.
Anthony não sabia de que maneira poderia ajudá-la. Se ele tentasse explicar que Joseph tinha a intenção de casar-se com ela assim que voltasse, havia a possibilidade de piorar ainda mais a situação. Ambos sabiam que o barão tinha mentido para Demétria.
- Demétria, seu marido ama você - disse Anthony, lamentando não ser capaz de evitar que sua voz soasse um pouco áspera quando falou.
- Ele não é meu marido, é, Anthony?
Anthony admitiu a derrota. Decidiu que deveria deixar para Joseph a explicação apropriada, e voltou a concentrar sua atenção no ditado.
Finalmente, tudo se reduziu a uma mensagem singela, que apenas informava que o barão de Wexton ainda não havia retornado a sua fortaleza, e portanto não sabia nada a respeito da ordem do rei.
Anthony fez com que Demétria lesse a mensagem duas vezes. Quando ficou satisfeito, Demétria abanou o pergaminho para secar e lubrificou o dorso para que ele ficasse flexível o suficiente para que ser enrolado.
Anthony entregou a mensagem ao soldado do rei e ordenou que ele se apressasse a retornar ao seu monarca.
Demétria foi para o seu quarto para recolher seus vestidos. Era uma precaução necessária, porque sabia que os soldados do rei podiam chegar em qualquer momento.
Ela foi e explicou a Miley o que tinha acontecido, ficando a maior parte da tarde naquela visita a sua amiga. Não contou a Miley o que dizia exatamente a mensagem do rei, e se calou deliberadamente a qualquer possível menção de que Miley deveria ir com Sebastian.
Demétria nunca permitiria que isso acontecesse. Também não colocaria Joseph em posição de ter que escolher.
Em vez de jantar, naquela noite ela subiu aos aposentos da torre. Passou mais de uma hora imóvel diante da janela, deixando que as emoções que estava sentindo tomassem conta de sua mente.
Lawrence realmente deveria ter sido descoberto mais cedo. Demétria amaldiçoou a si mesma por ter estado tão ocupada que não pudesse perceber aquelas pequenas esquisitices. Ela culpou Joseph. Se ele não a tivesse amedrontado tanto durante aquela cerimônia de casamento, Demétria teria percebido o erro de Lawrence.
Ela nunca considerou a possibilidade de Joseph saber disso durante todo o tempo. Não, Demétria estava certa de que ele acreditava que Lawrence realmente os havia casado. Ela ainda estava furiosa. Joseph tinha mentido descaradamente sobre o conteúdo da carta do monastério de Roanne. Joseph sabia o quanto Demétria valorizava a verdade. Ela nunca mentiu para ele.
- Espere só até eu colocar minhas mãos em você - murmurou -. Miley não é a única que sabe gritar.
Aquele súbito ataque de ira não ajudou muito a melhorar seu estado de ânimo. Pouco depois ela estava chorando de novo.
À meia-noite tinha conseguido ficar esgotada. Apoiou-se na janela. A lua iluminava tudo. Demétria se perguntou se seu brilho estaria derramado agora sobre Joseph. Como ele dormiria aquela noite, ao relento ou em um dos aposentos do rei?
Demétria dirigiu sua atenção para o topo da colina que se elevava fora do muro. Um movimento tinha atraído seu olhar, olhou naquela direção bem a tempo de ver como seu lobo subia pela ladeira.
Era um lobo de verdade, não? Talvez fosse o mesmo que ela tinha visto meses atrás. O animal parecia bem grande.
Desejou que Joseph estivesse ali, de pé perto dela, para que assim pudesse lhe mostrar que seu lobo realmente existia. Ela viu o animal levantar o osso com carne que ela havia deixado lá para ele, virou-se, e desapareceu para baixo do outro lado da colina.
Demétria estava tão exausta, que ela decidiu estar fantasiando outra vez. Provavelmente fosse apenas um cão selvagem, e nem mesmo o que ela havia visto antes.
Joseph era seu lobo. Ele a amava. Demétria nunca tinha duvidado dele em relação a esta questão. Sim, Joseph havia mentido a respeito da carta, mas mesmo assim Demétria sabia de uma maneira instintiva que ele nunca mentiria sobre o amor que sentia por ela.
Aquela verdade a reconfortava. Joseph tinha muito sentido de honra para enganá-la em semelhante maneira.
Tentou dormir, mas o medo tornou impossível conciliar o sonho. Como ela havia ficado feliz ao permitir que Joseph tomasse conta do futuro, e tinha se sentido segura porque levava seu sobrenome. Sim, estava unida a ele.
Até o dia de hoje.
Agora voltava a ficar aterrorizada. O rei exigia sua presença na corte. Demétria ia voltar com Sebastian.
Começou a rezar. Suplicou a Deus que cuidasse de Joseph para que não lhe acontecesse nada de mau. Pediu a Deus que velasse pelo futuro de Miley, e também pelo de Liam, e inclusive rezou por Kevin e Nicholas.
E logo murmurou uma oração para si mesma. Pediu a Deus que lhe desse coragem.
Coragem para enfrentar o diabo.




falta pouco pra acabar aeeee