sábado, 2 de fevereiro de 2019

Esplendor da Honra Capitulo 9


Que vossa caridade não seja fingida. Aborrecei o mal, apegai-vos solidamente ao bem...
Epístola aos romanos, 12,9
Demétria ficou horrorizada pela visão que permanecia imóvel diante ela. Reconheceu Miley imediatamente, porque a mulher se parecia consideravelmente com seu irmão Nicholas. Tinha os mesmos cabelos castanhos, e seus olhos também eram castanhos. Mas não era tão alta como Nicholas, e estava muito magra, com um tom pálido em sua pele que indicava a Demétria ter estado doente.
Miley usava um vestido de uma cor muito pálida, combinando com sua palidez. Agora estava tão coberto de pó e sujeira que sua verdadeira cor não podia ser reconhecida. Seus cabelos, longos e ressecados, pareciam tão sujos quanto seu vestido. Demétria pensou que podia haver algo mais que sujeira vivendo naquela desleixada aparência.
Uma vez que a comoção inicial se dissipou, Demétria já não se sentia incomodada pela aparência de Miley. Podia ver a expressão acossada que havia nos olhos da pobre moça. Ali havia dor, e um desespero que fez com que Demétria sentisse vontade de chorar. Santo Deus, seu irmão tinha causado aquilo! Então Demétria soube, sem sombra de dúvidas, que Sebastian arderia nas chamas do inferno durante toda a eternidade.
Joseph passou o braço pelos ombros de Demétria e a puxou, até deixá-la imóvel junto dele. Demétria não entendeu o motivo que o levou a fazer aquilo, mas deixou de tremer dentro daquele abraço.
- Vou matá-la, Joseph! - disse Miley, gritando a ameaça.
Kevin apareceu rapidamente. Demétria o viu correr para sua irmã e agarrá-la pelo braço.
Miley lentamente seguiu seu irmão até a mesa. Kevin estava falando com ela, mas seu tom de voz era muito baixo para que Demétria pudesse ouvir o que ele estava dizendo. Mas o que ele dizia, parecia acalmar sua irmã. Seus passos perderam a rigidez e ela balançava a cabeça, várias vezes, em resposta às palavras do irmão.
Quando Miley estava sentada junto a Kevin, de repente, voltou a gritar sua ameaça.
- Tenho direito de matá-la, Joseph!
Havia tanto ódio naqueles olhos que Demétria teria dado um passo para trás, se Joseph não a estivesse segurando tão firmemente.
Não sabia como responder à ameaça. Finalmente assentiu, indicando a Miley que entendia o que tinha prometido fazer, e então percebeu que aquele assentimento podia ser interpretado como se ela estivesse de acordo com Miley cumprisse sua ameaça.
- Você pode tentar, Miley - respondeu.
Sua resposta pareceu provocar em Miley uma completa ira. A irmã de Joseph se levantou, movendo-se com tal rapidez que o tamborete caiu da plataforma e se estatelou contra o chão de pedra.
- Quando me der as costas, então eu...
- Basta.
A voz de Joseph criou eco nas paredes. A ordem obteve uma reação imediata em Miley, que pareceu murchar-se ante os olhos de Demétria.
Kevin obviamente não gostou nada da maneira com que Joseph gritou com sua irmã, porque dirigiu um feroz cenho franzido ao seu irmão mais velho, antes de recolher o tamborete de Miley e ajudá-la a se sentar.
Joseph resmungou uma maldição. Deixou de segurar os ombros de Demétria, mas a manteve prisioneira, segurando-a por sua mão. E então saiu do salão, puxando-a atrás dele. Demétria teve que correr para não ficar para trás.
Joseph não diminuiu o passo, nem afrouxou sua mão, até que tivessem chegado ao pequeno patamar que havia diante dos aposentos da torre ocupada por Demétria.
- Como pode permitir que chegasse a esse estado? - quis saber Demétria.
- Seu irmão é o responsável por seu estado - respondeu Joseph.
Demétria sabia que ia voltar a chorar a qualquer momento. Ergueu os ombros e disse:
- Estou muito cansada, Joseph. Eu gostaria de ir para cama.
Entrou nos aposentos, andando muito devagar enquanto rezava para que ele não a seguisse. Quando ouviu suas botas ressoando sobre os degraus, soube que Joseph havia partido.
Demétria se virou e fechou a porta, e quase conseguiu chegar à cama antes de começar a chorar.
Joseph voltou imediatamente para o salão. Tinha intenção de exigir a cooperação de seus irmãos no plano que traçou para Demétria.
Kevin e Nicholas ainda estavam sentados à mesa, compartilhando uma jarra de cerveja que havia entre eles. Miley, graças a Deus, já tinha saído do salão.
Quando Joseph se sentou, Nicholas passou-lhe a jarra de cerveja no mesmo instante em que Kevin o interpelava.
- Será que agora os Wexton vão ter que proteger a irmã de Sebastian de um dos nossos?
- Demétria não fez nada a Miley - Nicholas a defendeu -. Ela não se parece em nada com seu irmão, Kevin, e você sabe muito bem. Nós a tratamos de uma maneira vergonhosa, e mesmo assim Demétria nunca chegou a dizer uma única palavra em protesto.
- Não tente bancar o defensor de Demétria comigo - replicou Kevin -. Demétria é valente, é verdade - admitiu com um leve dar de ombros -. Você já contou a história de como ela salvou seu traseiro durante a batalha, Nicholas. Deus, de verdade, se dispôs a contá-la tantas vezes que sei de cor! - acrescentou, olhando para Joseph -. Mas agora não estamos falando do caráter de Demétria. Sua presença deixa Miley muito nervosa.
- Sim - exclamou Joseph -. E isso me agrada.
- O que disse? - perguntou Kevin
- Kevin, antes de perder a paciência, me responda uma coisa: quando foi que Miley falou com você pela última vez?
- Em Londres, logo depois que a encontramos - respondeu Kevin. Sua voz tremia de irritação, mas Joseph não se sentiu ofendido por isso.
- Nicholas? Quando foi a última vez que sua irmã lhe dirigiu a palavra?
- Meu caso é o mesmo que o de Kevin - respondeu Nicholas, franzindo o cenho -. Miley me contou o que tinha ocorrido, e isso foi tudo. Você sabe que ela não disse uma única palavra a ninguém, desde aquela noite.
- Até esta noite – lembrou-lhes Joseph -. Miley falou com Demétria.
- E você vê isso como um bom sinal? - perguntou Kevin com incredulidade -. Miley por fim falou, por certo, mas somente em matar, irmão. Santo Deus, nossa doce irmã jura que matará Demétria. Eu não vejo isso como uma recuperação.
- Miley está voltando para nós - explicou Joseph -. Agora nela só há ira, uma ira tão intensa e abrasadora que virtualmente consome sua mente, mas acredito que, com a ajuda de Demétria, Miley começará a se curar.
Kevin sacudiu a cabeça.
- Quando nossa irmã Catherine veio nos visitar, Miley nem sequer se dignou olhar para ela - disse -. Por que pensa que Demétria pode chegar a ajudar Miley quando sua própria irmã não pôde fazê-lo?
Joseph descobriu que era muito difícil expor seus sentimentos sob a forma de explicação. Não estava acostumado a discutir nada que fosse realmente importante com seus dois irmãos mais novos. Não, tinha o hábito de se limitar a dar ordens, esperando que todas e cada uma delas fossem realizadas para sua completa satisfação. Joseph governava sua casa da mesma maneira que governava seus homens, e de uma maneira muito parecida como seu pai tinha feito antes dele. A única exceção àquela lei sagrada era quando ia treinar com homens. Então, Joseph se convertia em um participante ativo além de instrutor, exigindo de cada soldado apenas aquelas proezas que ele mesmo já tinha realizado.
No entanto, esta não era uma circunstância normal. Seus irmãos mereciam saber Joseph pensava fazer. Miley também era sua irmã. Sim, eles também tinham direito de expressar suas opiniões.
- Eu digo que devemos enviá-la a Catherine novamente - interveio Kevin, com o maxilar teimosamente apertado.
- Não será necessário - declarou Joseph -. Demétria ajudará Miley. A única coisa que temos que fazer é lhe indicar o caminho a seguir - acrescentou com a sombra de um sorriso -. Demétria é a única que entenderá o que está acontecendo dentro da mente de Miley. Cedo ou tarde, nossa irmã irá procurá-la.
- Sim, Joseph - replicou Kevin -. Miley irá até sua Demétria, certamente, mas com uma adaga na mão e um assassinato na mente. Seremos obrigados a tomar todas as precauções possíveis.
- Eu não quero que Demétria corra nenhum perigo - observou Nicholas -. Eu acredito que deveríamos tê-la deixado para trás, e dessa maneira Sebastian não demoraria muito em encontrá-la. E ela não é a Demétria de Joseph, Kevin. Todos somos igualmente responsáveis por ela.
- Demétria é minha, Nicholas - anunciou Joseph. Sua voz era suave, mas o desafio estava lá, no conjunto de seus ombros e na maneira como ele olhou para seu irmão.
Nicholas assentiu a contragosto. Kevin, que não tinha ficado nada satisfeito com o tom possessivo da voz de Joseph, contemplou a troca de olhares entre os dois irmãos.
De repente Kevin estava totalmente de acordo com Nicholas, o que era uma verdadeira raridade, porque normalmente Nicholas e Kevin tinham pontos de vista opostos em quase todos os assuntos importantes.
- Demétria poderia ter ficado para trás - disse, pensando em trazer junto a isso a possibilidade de devolvê-la o mais rápido possível.
O punho de Joseph atingiu a mesa com força suficiente para derrubar a jarra de cerveja. Se Nicholas não tivesse reagido tão rapidamente como o fez, a jarra teria caído da mesa para estatelar-se contra o chão.
- Demétria não vai a parte alguma, Kevin - disse Joseph -. Não voltarei a perguntar isso, irmão. Conto com seu apoio nesta decisão?
Um longo silêncio foi-se formando entre os dois irmãos.
- Então é assim que as coisas estão - disse Kevin finalmente.
Joseph assentiu. Nicholas olhou para eles com perplexidade. Era evidente que ele tinha perdido alguma coisa, mas não conseguia entender o que era.
- Sim, assim é como as coisas estão – reconheceu Joseph -. Pensa em me desafiar nisto?
Kevin suspirou e sacudiu a cabeça.
- Não - disse finalmente -. Pode contar comigo, Joseph, embora eu queira aconselhá-lo sobre os problemas que esta decisão trará.
- Isso não me fará mudar de ideia, Kevin.
Joseph não parecia disposto a explicar aquela conversa. Nicholas decidiu esperar até que pudesse falar a sós com Kevin, e então averiguar o que estava acontecendo. Além disso, outro comentário fez com que ele formulasse uma rápida pergunta.
- Joseph? O que você quis dizer quando falou que Demétria só precisa ser direcionada para ajudar Miley?
Joseph finalmente desviou seu olhar para Nicholas. Sentia-se feliz por poder contar com o apoio de Kevin, e isso tinha feito que seu humor melhorasse muito.
- Demétria teve experiências que irão ajuda-la com nossa irmã - disse -. Proponho que façamos com que as duas estejam juntas sempre que possível. Kevin, será seu dever trazer sua irmã para jantar a cada noite. Você, Nicholas, trará Demétria. Ela não tem tanto medo de você.
- Ela tem medo de mim? - perguntou Kevin com incredulidade.
Joseph passou por cima da pergunta, embora tenha lançado um olhar de irritação a Kevin, fazendo-o saber quão pouco gostava que o interrompessem.
- Que Miley ou Demétria rechacem o convite carece de importância. Tragam-nas pela força se tiverem que fazê-lo, mas elas jantarão juntas.
- Miley destruirá a nossa delicada Demétria – Nicholas se apressou em dizer -. Então, a doce Demétria nunca poderá fazer frente a ...
- A doce Demétria tem um temperamento tão feroz quanto uma tormenta de inverno, Nicholas - disse Joseph em um tom bastante exasperado -. A única coisa que temos que fazer é animá-la a perder um pouco desse temperamento.
- O que está dizendo? - Nicholas quase gritou, claramente assustado -. Demétria é uma donzela muito doce e delicada por que ...?
O cenho franzido habitual em Kevin o abandonou, e de fato começou a soltar uma risadinha.
- Também tem um gancho de esquerda muito doce e delicado, Nicholas - disse -. E todos sabemos muito bem quão terna e carinhosa donzela ela é. Demétria gritou forte o suficiente para que toda a Inglaterra pudesse ouvi-la.
- Naquele tempo a febre controlava sua mente - replicou Nicholas -. Eu lhe disse que devíamos ter cortado seu cabelo para deixar sair os demônios, Joseph. Demétria não era ela mesma, tenho certeza disso. Ora, ela nem sequer sabe que deixou o olho de Kevin todo preto!
Joseph sacudiu a cabeça.
- Não é necessário que defenda Demétria na minha frente - disse.
- Bom, o que você vai fazer com Demétria? - perguntou Nicholas sem poder se conter.
- Aqui ela terá um porto seguro, Nicholas - disse, depois disso se levantou e já se dispunha a sair do salão quando o comentário de Kevin chegou até ele.
- Não será seguro até que Miley recupere o juízo. Demétria vai ser submetida a uma provação.
- Vai ser uma prova terrível para todos nós - disse Joseph -. Mas se Deus quiser, logo tudo estará terminado.
Joseph se despediu de seus irmãos e foi ao lago para seu mergulho.
Seus pensamentos voltaram a Demétria. Não podia negar a verdade. Um irônico capricho do destino tinha feito com que Demétria não se visse manchada pela negra natureza de Sebastian. Era uma mulher a ser considerada. Demétria escondia seu verdadeiro caráter de si mesma, pensou Joseph com um sorriso. No entanto, ele tinha conseguido vislumbres preciosos da autêntica lady Demétria. Mesmo assim, era necessária uma febre galopante para trazer à luz seu apaixonado espírito. Sim, Demétria era muito sensual e tinha uma sede de vida que agradava a Joseph imensamente.
Possivelmente, pensou, Miley também ajudaria Demétria. Sem que ela soubesse, sua irmã podia ajudar Demétria a liberar algumas de suas capas.
As gélidas águas finalmente incomodaram Joseph o suficiente para que deixasse de lado aqueles pensamentos. Terminaria de nadar e depois iria ver Demétria. Aquele motivo tão singular o ajudou a passar pelo ritual ainda mais depressa do que era comum nele.
Demétria acabava de abrir as portinholas de sua janela quando viu Joseph indo para o lago. Ele estava de costas para ela, e Demétria o viu tirar até a ultima peça de roupa e mergulhar na água.
Não sentiu vergonha alguma ao vê-lo sem roupa. Sim, a nudez de Joseph não a constrangia nem um pouco. Demétria estava muito atordoada pelo que aquele insensato estava fazendo para ruborizar-se com sua nudez. Além disso, ele estava de costas para ela, salvando seu verdadeiro desconforto.
Demétria não podia acreditar que ele estava mergulhando no lago, mas isso foi precisamente o que ele fez, e sem vacilar em nenhum momento.
A lua cheia proporcionava luz suficiente para que pudesse segui-lo através do lago e de volta. Demétria não o perdeu de vista em nenhum instante, mas um súbito sentido da modéstia a impulsionou a fechar os olhos quando Joseph voltou à beirada. Demétria esperou durante o que lhe pareceu um período de tempo adequado e, então, voltou a olhar.
Joseph estava de pé junto na beirada do lago, com a metade inferior de seu corpo coberto. Parecia um vingador divino filho de Zeus, porque era dotado de um corpo magnífico.
Não se incomodou em voltar a vestir a túnica, mas a jogou descuidadamente em cima de um ombro. Acaso não sentia frio? Demétria já estava tremendo em razão da brisa que entrava pela janela. Mas Joseph se comportava como se fizesse um cálido dia de primavera. De fato, voltava para seu lar, andando sem nenhuma pressa.
O coração de Demétria acelerou progressivamente seus batimentos conforme Joseph ia se aproximando. O barão de Wexton era, certamente, muito bem constituído. Tinha pernas longas, magro na cintura e extremamente largo nos ombros. A força que havia na parte superior de seus braços ficava claramente delineada pela luz, e Demétria pôde ver músculos que virtualmente ondulavam através de seu peito. O poder irradiava dele inclusive naquela distância, atraindo Demétria e a enchendo de inquietação ao mesmo tempo.
Então Joseph se deteve de repente e, elevando o olhar, surpreendeu Demétria observando-o. Ela levantou instintivamente a mão em um gesto de saudação, mas logo fraquejou em sua tentativa. Demétria não podia ver a expressão que havia no rosto de Joseph, mas supôs que estaria franzindo o cenho. Bem sabia Deus que essa era sua expressão mais comum.
Demétria deu meia volta e retornou para sua cama, esquecendo-se de fechar as portinholas em sua pressa.
Ainda estava muito zangada. Cada vez que a imagem de Miley vinha a sua mente, dava-lhe vontade de gritar. Mas o que fez foi chorar, durante quase uma hora, até que teve suas bochechas em carne viva e seus olhos inchados.
Miley era a razão inicial de sua fúria. A pobre moça tinha passado por uma provação realmente terrível.
Demétria entendia muito bem o que se sentia ao se ver à mercê de outra pessoa. Conhecia a raiva que havia dentro de Miley e se compadecia da jovem.
Mas também estava furiosa com os irmãos Wexton. Eles tinham piorado muito mais a situação Miley tão mal.
Demétria tomou a decisão de que agora aceitaria a responsabilidade referente a Miley. Ela não pensou que quisesse ajudar a irmã de Joseph, porque Sebastian tivesse-lhe causado tanta dor. Apesar de Demétria ser a irmã de Sebastian, não ia se sentir culpada por conta do parentesco. Ajudaria Miley exatamente porque a irmã de Joseph estava vulnerável e perdida.
Seria o mais amável possível com a jovem, e também iria tratá-la com carinho. Certamente com o passar do tempo Miley terminaria aceitando seu apoio.
Sem que pudesse evitar, começou a chorar outra vez. Demétria se sentia terrivelmente presa. Estava muito perto da fronteira e do lar de sua prima Edwythe, mas agora teria que esperar algum tempo, antes que pudesse concluir sua fuga. Miley necessitava de amor e que a guiassem, e os bárbaros de seus irmãos não sabiam como lhe dar nenhuma daquelas duas coisas. Sim, pensou Demétria, sua presença era necessária ali, pelo menos até que a irmã de Joseph pudesse recuperar parte das forças que tinha perdido.
O ar se tornou gelado dentro de seus aposentos. Demétria se aconchegou debaixo dos cobertores, tremendo, até que se lembrou que as portinholas estavam totalmente abertas. Levantando-se da cama, jogou uma pele de animal sobre seus ombros e correu para a janela.
Tinha começado a chover, algo que Demétria concordou ser bastante apropriado para seu estado de ânimo atual. Lançou um rápido olhar ao lago com a única intenção de se certificar de que Joseph não continuava ali, e então seus olhos foram mais à frente do lago para contemplar o topo da colina mais baixa, que podia ser vista por cima dos baluartes.
Foi então que Demétria avistou um animal. Demétria ficou tão surpresa por aquela súbita visão que ficou nas pontas dos pés e inclinou-se no vão da janela, não atrevendo a desviar o olhar nem por um instante, porque temia que aquela enorme besta desaparecesse diante de seus olhos.
O animal parecia estar olhando para ela. Foi nesse momento que Demétria percebeu que sua cabeça tinha perdido o juízo, assim como tinha acontecido com Miley. Santo céu, aquela besta parecia um lobo. E Por Deus que era realmente magnífico!
Sacudiu a cabeça, mas mesmo assim continuou olhando, fascinada por aquela visão. Quando o lobo arqueou o pescoço, jogando-o para trás, Demétria imaginou que possivelmente estivesse uivando. Mas o som nunca chegou até ela, provavelmente engolido pelo vento e pela chuva que açoitavam as pedras.
Demétria não soube quanto tempo permaneceu junto à janela, contemplando o animal. Depois de um momento, fechou os olhos, deliberadamente, sabendo muito bem o que fazia, mas o lobo ainda estava ali quando os abriu outra vez.
- É apenas um cão - murmurou, falando consigo mesma -. Sim, é um cão, não um lobo. Um cão muito grande - acrescentou.
Se Demétria tivesse uma natureza supersticiosa, logo chegaria à conclusão de que o lobo era um presságio.
Demétria fechou as portinholas e voltou para a cama.
Sua mente estava cheia de imagens da besta selvagem, e passou muito tempo antes que o sono a reclamasse. Seu último pensamento foi apenas uma teimosia, insistindo na ideia de que não tinha visto um lobo, definitivamente.
Em algum momento da noite fria, Demétria estremeceu o suficiente para despertar. Então sentiu como Joseph a rodeava com o braço e a atraía para seu calor.
Sorriu ante aquele sonho tão fantástico e voltou a dormir.



domingo, 27 de janeiro de 2019

Esplendor da Honra Capitulo 8


Examinai tudo. Retenha o bem
Primeira epístola aos Tessalonicenses 5:21.
Demétria se sentou na beira da cama, concentrando-se em fazer com que suas pernas recuperassem as forças. Uma tímida pancada ressoou sobre a porta uns minutos depois de Joseph sair. Demétria respondeu e uma criada entrou no quarto. Fina como um pergaminho e com aspecto de cansada, a criada tinha os ombros encurvados e sua larga testa estava sulcada por profundas rugas de preocupação. Quando se dirigiu para a cama, seus passos tornaram-se cuidadosos.
A criada parecia estar a ponto de sair correndo a qualquer momento, e foi então que Demétria percebeu que possivelmente estivesse assustada. A mulher não parava de lançar longos olhares à porta.
Demétria sorriu em uma tentativa de aliviar o visível desconforto da criada, embora estivesse perplexa ante o tímido comportamento.
A mulher segurava alguma coisa atrás de suas costas. Movendo-se muito devagar, fez com que uma mochila ficasse visível e então balbuciou:
- Trouxe sua bagagem, milady.
- Oh, isso é muito amável de sua parte - respondeu Demétria.
Demétria pôde ver que seu agradecimento satisfez a mulher. Agora já não parecia tão preocupada, só um pouco confusa.
- Não sei por que tem tanto medo de mim - apressou-se a dizer, decidindo enfrentar o problema da maneira mais direta possível -. Não vou lhe fazer mal, posso prometer isso. O que os irmãos Wexton disseram para lhe assustar tanto?
A franqueza de Demétria aliviou a tensão que havia na postura da mulher.
- Não me disseram nada, milady, mas não sou surda. Pude ouvir como gritava dentro deste quarto, inclusive quando eu estava lá embaixo fazendo manteiga, e quase todos os gritos eram seus.
- Eu estava gritando? - perguntou Demétria, horrorizada por aquela revelação e pensando que a mulher deveria estar enganada.
- Estavam sim - respondeu a criada, assentindo vigorosamente com a cabeça -. Sabia que tinha febre e não podia evitar fazê-lo. Gerty trará sua comida daqui a pouco. Eu tenho que ajudá-la a trocar de roupa, se este for seu desejo.
- Estou faminta - observou Demétria. Flexionou suas pernas, testando sua força -. E, além disso, estou tão fraca como um bebê. Qual é o seu nome?
- Meu nome é Maude, como a rainha - anunciou a criada -. A que morreu, naturalmente, já que nosso rei William ainda não tem uma esposa.
Demétria sorriu.
- Maude, acredita que poderia me arrumar um banho? - perguntou -. Sinto-me tão suja...
- Um banho, minha senhora? - Maude pareceu horrorizar-se ante a ideia -. No mais frio inverno?
- Estou acostumada a tomar banho todos os dias, Maude, e parece que se passou uma eternidade desde a última vez em que...
- Um banho por dia? E para quê?
- É que eu gosto de me sentir limpa - respondeu Demétria. Jogou um longo olhar à criada e chegou à conclusão de que àquela boa mulher também não seria nada mal tomar um banho, embora guardasse seu comentário para si mesma, por temer ofender a pobre Maude -. Acredita que seu senhor permitiria que eu desfrutasse desta pequena vaidade?
Maude encolheu os ombros.
- Pode ter todo aquilo que quiser, desde que fique sempre aqui neste quarto - respondeu -. O barão não quer que fique doente, tentando se esforçar muito. Suponho que poderia encontrar alguma banheira por aí e fazer com que meu homem a subisse pela escada.
- Tem família, Maude?
- Sim, um homem muito bom e um moço que já tem quase cinco verões. O menino é um demônio.
Maude ajudou Demétria a levantar e a acompanhou até a cadeira que havia junto ao fogo.
- Meu menino se chama William - seguiu dizendo -. Colocamos esse nome pelo nosso rei morto, e não por aquele que está no comando agora.
A porta se abriu durante o relato de Maude. Outra criada se apressou a entrar, trazendo consigo uma bandeja de comida.
- Não há necessidade de ficar tão nervosa, Gerty - disse Maude -. Não está tão maluca como imaginávamos.
Gerty sorriu. Era uma mulher volumosa, de olhos castanhos e pele impecável.
- Sou a cozinheira aqui - informou a Demétria -. Ouvi dizer que era muito bonita. Mas está um pouco magra, sim, demasiadamente magra. Coma até o último pedacinho desta comida, ou do contrário você será levada embora pelo primeiro vento mais forte que soprar.
- Ela quer tomar banho, Gerty - anunciou Maude.
Gerty arqueou uma sobrancelha.
- Bom, então ela pode ter um. Mas não poderá nos culpar se ficar rígida de frio.
As duas mulheres continuaram conversando animadamente entre elas enquanto limpavam os aposentos de Demétria. Era evidente que sabiam fazer amizade com facilidade, e Demétria desfrutou em ouvir suas fofocas.
Elas também a ajudaram com o banho. Quando a banheira foi tirada do quarto, Demétria já estava exausta. Lavou seu cabelo, mas estava demorando uma eternidade para secar e Demétria se sentou sobre uma suave pele de animal, estendida em frente à lareira. Ela separou as mechas de seu longo cabelo, aproximando-as das chamas para que secassem mais rápido, até que seus braços começaram a doer. Com um ruidoso bocejo, que não ficava nada elegante em uma dama, Demétria se deitou sobre aquela macia pele de animal, pensando apenas em descansar por pouco tempo. Só vestia sua regata, e ainda não queria colocar suas roupas até que seus cabelos estivessem secos e trançados.
Joseph a encontrou profundamente adormecida. Deitada de lado, em frente ao fogo, Demétria oferecia uma imagem realmente sedutora. Tinha encolhido suas pernas douradas até deixá-las junto ao seio, e seu magnífico cabelo cobria a maior parte de sua face.
Não pôde deixar de sorrir. Deus, como parecia uma gatinha, enrolada feita um novelo! Sim, não havia dúvida de que Demétria estava muito atraente, e provavelmente terminaria morrendo de frio, se ele não fizesse algo a respeito.
Demétria nem sequer abriu os olhos quando Joseph a agarrou em seus braços e a levou para cama. Ele sorriu pela maneira com que ela se aconchegou instintivamente contra seu peito. Também suspirou, como se s sentisse muito à vontade e, maldição, voltava a cheirar à rosa.
Joseph a colocou em cima da cama e a cobriu. Tentou se comportar da maneira mais distante possível, mas não pôde evitar passar a mão pela lisa suavidade de sua bochecha.
Demétria tinha um aspecto terrivelmente vulnerável quando estava dormindo. Certamente esta era a razão pela qual ele não queria sair dali. Demétria era tão inocente e confiante, que o impulso de protegê-la era esmagadora. Em seu coração, Joseph sabia que não deixaria que ela voltasse para o irmão. Demétria era um anjo e ele não permitiria que voltasse a estar perto daquele demônio do Sebastian, nunca mais.
Era como se todas as regras estivessem de cabeça para baixo diante dele. Com um gemido de exasperação, Joseph foi para a porta. Demônios, pensou, já nem sequer sabia o que passava por sua cabeça.
E tudo era obra de Demétria, embora certamente ela não tivesse consciência daquele fato. Ela o distraía, e quando estava perto dela Joseph quase não podia pensar.
Decidiu que teria que colocar um pouco de distância entre ele e Demétria até que pudesse resolver todas as questões que o preocupavam tanto. Mas assim que tomou a decisão de se afastar de Demétria, seu humor tornou-se sombrio. Finalmente resmungou uma maldição, deu meia volta e fechou a porta atrás dele lentamente, sem fazer nenhum ruído.
Demétria ainda estava bastante fraca, então o isolamento forçado não a incomodava. Mas depois de dois dias, tendo apenas Gerty e Maude para lhe fazerem uma visita ocasional, já estava começando a sentir os efeitos de sua prisão. Dedicou-se a andar de lá para cá nos aposentos até que chegou a saber de cor o último centímetro dela, e logo começou a deixar as criadas nervosas, quando insistiu em fazer o que elas consideravam ser trabalho comum. Demétria esfregou o chão e as paredes. O exercício físico também foi de muita ajuda. Sentia-se tão presa como um animal. E esperava, hora após hora, que Joseph viesse vê-la.
Demétria não parava de repetir a si mesma que deveria estar agradecida por Joseph ter-se esquecido dela. Deus, por acaso não estava acostumada a ser esquecida?
Passados mais dois dias, Demétria já estava perto de se jogar pela janela, só para quebrar um pouco a rotina. Sentia-se aborrecida demais para gritar.
Ficou diante da janela e se dedicou a contemplar o pôr do sol que desvanecia sobre os campos, enquanto pensava em Joseph.
Um instante depois, Demétria pensou que o havia conjurado em sua mente, porque Joseph apareceu, de repente, justamente quando ela pensava em quanto queria vê-lo. A porta se abriu, ricocheteando no muro de pedra para anunciar sua chegada, e um instante depois ali estava ele, imponente e poderoso, realmente muito arrumado para tranquilidade dela. Para falar a verdade, Demétria poderia passar o resto da noite contemplando-o.
- Kevin vai tirar seus pontos - disse Joseph.
Então, entrou nos aposentos e se deteve diante da lareira. Cruzou os braços sobre seu peito, o que fez com que Demétria imaginasse de que aquela missão o aborrecia terrivelmente.
Não pôde evitar sentir-se ferida pela frieza de suas maneiras, mas estava decidida a não deixá-lo saber. Deu a ele o que esperava ser uma expressão máxima de serenidade.
Deus, ela era realmente digna de se ver! Demétria usava um vestido de cor creme, complementado com uma sobreveste azul. Um cordãozinho delicadamente trançado rodeava sua esbelta cintura, acentuando suas curvas femininas.
Seus cabelos não estavam recolhidos, mas sim repousavam sobre a curva de seus seios. Era uma frisada massa de mechas digna de qualquer rainha, pensou Joseph, da cor do zibelina, embora as mechas também estivessem entrelaçadas com alguns fios vermelhos. Lembrou-se da sensação de seu contato, tão suave e sedoso.
Franziu o cenho, subitamente irritado ante a maneira com que ela o perturbava. Também não podia deixar de olhar para Demétria; então admitiu que tinha sentido falta de tê-la junto dele. O pensamento era muito estúpido, algo que Joseph jamais admitiria abertamente, mas, de qualquer maneira, ali estava, esporeando-o para uma nova compreensão.
De repente, percebeu que Demétria usava suas cores, e sorriu. Duvidava que ela soubesse daquele fato, e se ela não parecesse tão malditamente adorável, ele poderia ter mencionado o fato, só para ver sua reação.
Demétria não podia olhar para Joseph por muito tempo. Temia que ele visse em sua expressão o quanto havia sentido falta dele. Então ele iria se regozijar, pensou.
- Eu gostaria de saber o que você vai fazer comigo, Joseph - disse. Voltou seu olhar para o chão, não se atrevendo a levantar os olhos para ver como ele estava interpretando sua pergunta, porque não queria perder a linha de seus pensamentos.
Sim, sua capacidade de se concentrar estava sempre ameaçada, quando ela estava próxima a Joseph. Demétria não entendia sua reação diante ele, mas a aceitava mesmo assim. O barão era capaz de colocá-la nervosa, sem nem mesmo chegar a dizer uma palavra. Ele perturbava a paz de sua alma, confundindo-a também. Quando ele estava por perto, Demétria queria que ele fosse embora. Mas quando Joseph estava longe dela, então sentia falta dele.
Demétria deu-lhe as costas e voltou a olhar pela janela.
- Pensa em me manter trancada nesta torre durante o resto de minha vida? - perguntou-lhe finalmente.
Joseph sorriu pela preocupação que ouviu em sua voz.
- Demétria, a porta não estava trancada - ele disse.
- Está brincando? - perguntou Demétria, virando-se e lançando-lhe um olhar de total incredulidade -. Está tentando me dizer que não estive trancada nesta torre durante toda a semana? - Deus, sentia desejos de gritar -. Poderia ter escapado?
- Não, não poderia ter escapado, mas poderia ter saído do quarto - respondeu Joseph.
- Não acredito em você - Demétria avisou. Cruzou os braços diante dela, imitando zombeteiramente a postura de Joseph -. Mentiria só para me fazer parecer estúpida. Conta com uma vantagem muito injusta, Joseph, porque eu nunca, nunca minto. Por isso - concluiu -, o combate é muito desigual.
Kevin apareceu no vão da porta. O irmão de Joseph tinha seu habitual cenho franzido. Mesmo assim também parecia um pouco receoso, e ficou olhando para Demétria durante um bom tempo, antes de entrar nos aposentos.
- Você vai segurá-la desta vez - disse a Joseph.
Demétria dirigiu um olhar cheio de preocupação a Joseph e o viu sorrir.
- Agora Demétria não tem febre, Kevin, e é tão dócil como uma gatinha - observou. Logo se virou para Demétria e disse que fosse até a cama para que Kevin pudesse tirasse sua bandagem.
Demétria assentiu. Sabia o que deveria fazer, mas a timidez prevaleceu à razão.
- Se vocês dois saírem, terei um minuto de privacidade para me preparar.
- Preparar o quê? - perguntou Joseph.
- Sou uma dama delicada - balbuciou Demétria -. Não permitirei que nenhum de vocês veja nada que não seja minha ferida. É por isso que vou me preparar.
Demétria ficou vermelha o suficiente para que Joseph compreendesse que ela falava muito a sério. Kevin começou a tossir, mas o suspiro de Joseph foi mais sonoro.
- Não é momento para modéstia, Demétria. Além disso, eu já vi suas... pernas.
Demétria ergueu os ombros, fulminou-o com o olhar e logo se apressou em ir para a cama. Agarrou uma das peles de animal que tinha caído no chão, e quando se deitou sobre a cama, estendeu a pele por cima dela e subiu suas roupas até o início de suas coxas.
Deixou à mostra apenas a bandagem exposta, ela começou a longa tarefa de desenrolar o tecido.
Kevin se ajoelhou perto dela enquanto a bandagem era retirada; e foi aí que Demétria percebeu que havia uma sombra escura debaixo de seu olho esquerdo. Perguntou-se como ele teria conseguido aquele arroxeado, e então chegou à conclusão de que o responsável por aquilo provavelmente fosse um de seus irmãos. Que pessoas tão odiosas, disse a si mesma, inclusive quando percebeu que Kevin estava sendo muito delicado, enquanto retirava os pegajosos fios de sua pele.
- Ora, Kevin, não é pior que um beliscão - disse com alívio.
Joseph se tinha postado junto à cama, e parecia disposto a saltar sobre ela, caso Demétria se mexesse.
Ter dois homens olhando sua coxa era bastante constrangedor. Demétria não demorou a se sentir bastante incomodada. Então disse a primeira coisa que veio a sua cabeça, pensando que assim conseguiria desviar a atenção de Joseph de sua coxa.
- Por que há fechaduras em cada lado da porta? - perguntou.
- O quê? - perguntou ele efetivamente perplexo.
- Refiro-me à ripa de madeira que desliza nos aros para trancar a porta - explicou Demétria apressada -. Existem aros em ambos os lados. Por que isso? - perguntou, fingindo interesse por um assunto tão ridículo.
Não obstante, sua estratégia funcionou. Joseph se virou, olhou a porta e voltou a olhar para Demétria. Agora estava observando sua face, esquecendo, no momento, sua coxa descoberta.
- E então? - ela o desafiou -. Ou ficou tão confuso quando fez a porta que não conseguiu decidir de que lado deveria colocar as trancas?
- Demétria, pela mesma razão pela qual a escada foi construída à esquerda - replicou Joseph. Uma tênue, mas inegável luz brilhou em seu olho, e Demétria percebeu a mudança que aquilo produzia em sua feição. Quando sorria, Joseph não era tão preocupante.
- E qual é essa razão? - perguntou, sorrindo consigo mesma.
- Que eu prefiro assim.
- Essa é uma razão muito mesquinha - concluiu Demétria.
Ela continuou sorrindo até que percebeu estar segurando a mão de Joseph. Apressadamente deixou-a livre e voltou a olhar para Kevin.
O irmão olhava para Joseph. Ele levantou e disse -: curou-se.
Demétria baixou o olhar para a linha espantosamente irregular que marcava sua coxa e torceu o rosto ante aquela horrível cicatriz. Mas recuperou rapidamente o controle de si mesma, envergonhando-se de sua reação superficial. Ora, se ela nem mesmo era vaidosa!
- Obrigada, Kevin - ela disse, enquanto puxava a coberta sobre sua perna.
Joseph não tinha visto o resultado do trabalho do Kevin. Inclinou-se para frente para afastar a pele do animal. Demétria empurrou sua mão e apertou a ponta do cobertor contra a cama.
- Seu irmão acaba de dizer que estou curada, Joseph.
Obviamente ele queria ver com seus próprios olhos. Demétria soltou um gritinho de surpresa, quando Joseph afastou o cobertor com um tapa. Demétria tentou baixar o vestido, mas Joseph agarrou suas mãos e lenta, deliberadamente, foi subindo a sobreveste até que a coxa de Demétria ficou totalmente descoberta.
- Não há nenhuma infecção - observou Kevin, dirigindo-se a Joseph, enquanto contemplava a cena do outro lado da cama.
- Sim, está curada - anunciou Joseph com uma inclinação de cabeça.
Quando soltou as mãos de Demétria, ela se apressou em esticar seu vestido. Perguntou:
- Não acreditou em seu próprio irmão? - perguntou, parecendo horrorizada.
Joseph e Kevin intercambiaram um olhar que Demétria não pôde interpretar.
- É obvio que não acreditou nele - murmurou ela -. Provavelmente deu-lhe o olho preto - acrescentou, deixando seu desgosto à mostra -. É isso que eu poderia esperar dos irmãos Wexton.
Joseph mostrou sua exasperação virando-se e caminhando até a porta. Seu forte suspiro o seguiu. Kevin permaneceu onde estava, contemplando Demétria com o cenho franzido por um minuto a mais, e então seguiu seu irmão.
Demétria repetiu seu agradecimento.
- Já sei que ele ordenou que cuidasse da minha ferida, Kevin, mas agradeço de qualquer maneira.
Demétria estava certa de que aquele homem tão rude e mal-humorado desprezaria seu agradecimento, e se preparou para suportar seus insultos. Fosse qual fosse a indelicadeza que lhe dissesse, ela humildemente dar-lhe-ia a outra face.
Kevin não se incomodou em dizer nada. Demétria se sentiu bastante decepcionada. Como ia poder demonstrar aos Wexton que era uma donzela amável e delicada se eles não lhe davam ocasião de fazê-lo?
- O jantar será servido dentro de uma hora, Demétria. Pode se juntar a nós no salão quando Nicholas vier buscá-la.
Joseph saiu pela porta depois de dar o recado. Kevin, entretanto, se deteve e se virou lentamente para olhar, outra vez, para Demétria. Parecia estar meditando alguma decisão.
- Quem é Polifemo? - perguntou finalmente.
Demétria abriu muito os olhos. Que pergunta mais estranha.
- Ora, era um gigante que mandava nos Ciclopes no antigo conto de Homero - respondeu -. Polifemo era um gigante terrivelmente deformado que tinha um olho apenas, enorme e justo no meio de sua testa. Comeu os soldados de Ulisses no jantar - acrescentou com um delicado encolhimento de ombros.
Kevin não gostou de sua resposta.
- Pelo amor de Deus - murmurou.
- Não deveria falar o nome de Deus em vão! - gritou Demétria -. E que motivo você tem para me perguntar sobre quem era Polifemo?
O som de uns passos que se afastavam rapidamente fez com que Demétria imaginasse que Kevin não iria responder.
Mas mesmo assim, nem a indelicadeza do irmão de Joseph conseguiu diminuir o prazer que Demétria estava sentindo. Saltou da cama e soltou uma gargalhada. Deus, por fim ia poder sair daquele quarto! Não tinha acreditado, nem por um só instante, que a porta tivesse permanecido sem fechar durante toda a semana. Joseph havia dito aquilo só para chateá-la. Claro, pensou, porque ele me fez acreditar que eu era estúpida, caso eu tentasse.
Demétria vasculhou sua mochila. Desejou ter um bonito vestido para usar, e então percebeu quão insensato era aquele desejo. Era sua prisioneira, pelo amor de Deus, não sua convidada.
Precisou de apenas cinco minutos para se arrumar. Ela caminhou pelo quarto por um tempo, e depois foi até a porta, averiguar quão segura estava fechada. Com o primeiro puxão, a porta se abriu tão bruscamente que quase fez com que Demétria caísse.
Era evidente que Joseph tinha deixado a porta aberta só para preparar-lhe uma armadilha. Demétria queria acreditar aquela história... até que se lembrou que Joseph tinha saído do quarto antes de Kevin.
Um som subiu pelo vão da escada, atraindo Demétria ao patamar. Inclinou-se sobre o corrimão e se esforçou para ouvir a conversa, mas a distância demonstrou ser muito longa para distinguir qualquer palavra. Demétria finalmente se deu por vencida e voltou a entrar em seu quarto. Então viu a longa madeira apoiada no muro de pedra e, seguindo um impulso, pegou-a e arrastou-a para dentro do quarto. Escondeu a tranca debaixo da cama, sorrindo para si mesma ante a ousadia de sua ação.
- Posso ter vontade de deixar você trancado do lado de fora, Joseph, ao invés de permitir que você me deixe trancada aqui dentro.
Como se ela pudesse permitir muito de coisa alguma, pensou. Deus, tinha passado muito tempo confinada dentro daquele quarto e certamente essa era a razão pela qual via tanta graça em seus pensamentos.
Nicholas demorou uma eternidade para vir buscá-la. Demétria já tinha chegado à conclusão de que Joseph tinha mentido, e que só estava sendo cruel com ela.
Quando ouviu o ruído de passos, sorriu com alívio e se apressou em postar-se junto à janela. Alisou seu vestido e arrumou bem os cabelos, obrigando-se a adotar uma expressão de calma.
Nicholas não estava franzindo o cenho. Isso já era uma surpresa. Naquela noite estava muito elegante, vestido com a cor da floresta na primavera. Aquele verde quente o deixava bonito.
Quando falou, havia ternura em sua voz.
- Lady Demétria, queria falar um momento com você antes de descermos - anunciou em lugar de falar uma saudação.
Depois ele lançou um olhar cheio de preocupação, juntou as mãos atrás das costas e caminhou diretamente para frente dela.
- Miley provavelmente vai se juntar à família. Ela sabe que você está aqui e...
- Sente-se muito infeliz?
- Sim, apesar de ser algo mais que um mero sentir-se infeliz. Miley não disse nada, mas a expressão que há em seus me deixou um pouco preocupado.
- Por que me está contando tudo isto? - perguntou Demétria.
- Digo isso porque senti que lhe devia uma explicação, para que assim você pudesse se preparar.
- Por que está preocupado? É evidente que mudou consideravelmente a opinião que tinha a meu respeito. É porque ajudei você durante a batalha contra meu irmão?
- Bem, é obvio que sim - balbuciou Nicholas.
- Esta é uma razão realmente lamentável - disse Demétria.
- Arrepende-se por ter salvado minha vida? - perguntou Nicholas.
- Você não entendeu, Nicholas. Sinto muito por ter sido obrigada a tirar a vida de outro homem para poder ajudar você - ela explicou -. Mas não lamento ter sido capaz de lhe ajudar.
- Lady Demétria está se contradizendo - disse Nicholas. Parecia muito confuso.
Ele possivelmente não entenderia. Ele se parecia muito com seu irmão. Sim, supôs Demétria, Nicholas estava acostumado a matar, e nunca compreenderia a vergonha que ela estava sentindo pela maneira com havia se comportado. Deus, ele provavelmente veria sua ajuda como um ato heroico!
- Eu preferiria que tivesse encontrado algo de bom em mim e que essa fosse a razão pela qual mudou de opinião.
- Não entendo você - observou Nicholas, encolhendo-se de ombros.
- Eu sei. - As palavras foram ditas com tanta tristeza que Nicholas sentiu o impulso de consolá-la.
- É uma mulher realmente excepcional.
- Tento não ser. Mas é difícil, porém, quando você considera meu passado.
- Quando digo que a vejo como excepcional, estou lhe fazendo um elogio - replicou Nicholas por sua vez, sorrindo ante a preocupação que tinha percebido na voz dela e perguntou-se se Demétria acharia que excepcional significasse um tipo de defeito.
Sacudiu a cabeça e virou-se para conduzi-la escada abaixo, explicando a Demétria que se ela escorregasse, então ela teria que se agarrar rapidamente nos ombros dele para não perder o equilíbrio. Os degraus estavam um pouco úmidos, e havia alguns lugares bastante escorregadios.
Nicholas manteve um incessante monólogo enquanto desciam a escada, mas Demétria estava muito nervosa para poder escutá-lo. Por dentro parecia um autêntico feixe de nervos ante a possibilidade de enfim conhecer Miley.
Quando chegaram à entrada do salão, Nicholas se apressou em ficar ao lado de Demétria, oferecendo-lhe o braço. Demétria rechaçou aquele gesto tão galante, temerosa de que a mudança de atitude de Nicholas não fosse bem vista entre seus irmãos.
Com uma pequena sacudida em sua cabeça, Demétria cruzou as mãos diante dela e voltou sua atenção para o salão. Céus, era de proporção realmente gigantesca, com uma lareira de pedra ocupando uma considerável porção da parede na frente dela. À direita da grande lareira, e a certa distância dela, havia uma enorme mesa, longa o bastante para acolher, pelo menos, umas vinte pessoas. A mesa estava colocada em cima de uma plataforma de madeira. Tamboretes cheios de sinais se alinhavam ao longo dos dois lados da mesa, alguns deles na posição vertical, mas outros virados.
Um aroma estranho chegou até Demétria, e ela enrugou o nariz em resposta. Então olhou a seu redor e em seguida avistou a causa daquele aroma. Os juncos que cobriam o chão da sala estavam escurecidos pelo passar do tempo. De fato, estavam cheios de sujeira acumulada. Um grande fogo ardia na lareira, esquentando o mal cheiro, e como se isso não fosse suficiente para revolver seu estômago, uma dúzia de cães acrescentava àquela pestilência o aroma da sujeira de seus corpos, enquanto dormiam colados uns aos outros, formando uma pilha satisfeita no centro da sala.
Demétria ficou completamente atônita com aquela desordem, mas estava decidida a guardar seus pensamentos para ela mesma. Se os Wexton desejavam viver igual aos animais, então que assim fosse. Certamente pouco lhe importava o que fizessem.
Quando Nicholas a empurrou suavemente com o cotovelo, Demétria andou na direção da plataforma. Kevin já estava sentado à mesa, de costas para a parede que se elevava atrás dele. O irmão de Joseph observava Demétria e seu rosto demonstrava estar mergulhado em profundas reflexões sobre alguma coisa. Tratava de olhar através de Demétria, da mesma maneira que Demétria fingia agir com indiferença.
Uma vez que ela e Nicholas ocuparam seus lugares à mesa, soldados de diversas categorias e altura lotaram no salão. Os recém-chegados ocuparam os bancos restantes, salvo o que havia na cabeceira da mesa, junto ao lugar de Demétria. Ela imaginou que o banco vazio pertencesse a Joseph, já que ele era o chefe do clã Wexton.
Demétria preparava-se para perguntar a Nicholas quando Joseph se reuniria com eles, quando a voz de Kevin ressoou no salão.
- Gerty!
O alarido levou embora a pergunta de Demétria. A mensagem foi prontamente atendida com uma estrondosa resposta, procedente da despensa que havia à direita do salão:
- Já ouvi você!
Em seguida, Gerty apareceu, equilibrando-se com uma pilha de pranchas vazias segurando em um braço e uma grande bandeja cheia de carne no outro. Duas outras jovens criadas seguiram os passos de Gerty, carregando outras bandejas adicionais, todas elas transbordantes de comida. Uma terceira criada apareceu atrás delas para colocar fim à procissão, com pães crocantes nas mãos e outros mais seguros sob os braços.
O que ocorreu a seguir foi tão repulsivo que Demétria ficou sem fala. Gerty depositou os pratos ruidosamente no centro da mesa, e indicou com um gesto às outras criadas que fizessem o mesmo. As pranchas usadas para comer voaram pelos ares como discos movidos em um campo de batalha, girando loucamente ao redor dela, antes de aterrissarem sobre a mesa, seguidas por gordas jarras de cerveja. Os homens, encabeçados por Kevin, começaram a comer imediatamente.
Obviamente aquilo representava algum tipo de sinal para os cães adormecidos, já que todos se apressaram em se levantar de uma vez e correram para ocupar posições ao longo de ambos os lados da mesa. Demétria não entendeu a razão daquele comportamento tão estranho até que o primeiro osso passou voando por cima dos ombros de um dos soldados. O osso descartado foi recolhido imediatamente por um dos maiores cães, uma espécie de mastim que era quase duas vezes maior que os galgos que estavam perto deles. A seguir houve uma série de ferozes grunhidos até que outro resto bruscamente descartado da mesa foi arrojado por cima de outro ombro, e logo este foi seguido por mais e mais restos, até que todos os cães ficaram freneticamente entretidos em se alimentarem, assim como os homens que a rodeavam.
Demétria observou os homens. Não podia esconder a repugnância que sentia e nem sequer tentou fazê-lo. Ela, no entanto, perdeu o apetite.
Durante todo o jantar nenhuma palavra decente foi dita, e por cima do estalar de queixos dos cães, que ressoava como cortina de fundo, só se podia ouvir os grunhidos obscenos de homens profundamente concentrados em desfrutar de seus pratos.
A princípio Demétria pensou que aquilo era algum tipo de truque para fazê-la vomitar, mas como a coisa continuou até que todos os homens encheram seus estômagos e arrotaram suas satisfações, ela se viu obrigada a reconsiderar sua maneira de pensar.
- Não está comendo nada, Demétria. Não está com fome? - perguntou Nicholas com a boca cheia de comida, já que, por fim, percebeu que Demétria não havia tocado em nenhum alimento passado entre eles.
- Tinha, mas a perdi - sussurrou Demétria.
Viu como Nicholas bebia um longo gole de cerveja e depois limpava a boca com a manga de sua túnica. Demétria fechou os olhos.
- Diga-me uma coisa, Nicholas - conseguiu murmurar finalmente -. Por que razão os homens não esperaram por Joseph? Eu imagino que ele exigiria isso.
- Oh, Joseph nunca come conosco - respondeu Nicholas. Arrancou um pedaço de pão de uma enorme fogaça e ofereceu uma parte a Demétria. Ela sacudiu a cabeça.
- Joseph nunca como com vocês?
- Não, desde que nosso pai morreu e Mary ficou doente - afirmou Nicholas.
- Quem é Mary?
- Era - corrigiu-a Nicholas -. Agora está morta. - Arrotou antes de continuar falando -. Mary era a governanta. Já tinha passado muitos anos da sua hora de morrer - prosseguiu, demonstrando bastante falta de sensibilidade na opinião de Demétria -. Eu pensei que ela sobreviveria a todos nós. Miley não queria nem ouvir falar em substituí-la, porque dizia que isso feria seus sentimentos. No final, seus olhos estavam falhando e a metade das vezes ela não podia encontrar a mesa.
Nicholas deu outra enorme dentada na carne e lançou distraidamente o osso por cima de seu ombro. Demétria se viu obrigada a desviar do resto de comida. Uma nova onda de raiva se apoderou dela.
- Em todo caso - continuou Nicholas -, Joseph é o senhor desta fortaleza. Sempre se mantém o mais distante possível da família. Acredito que também prefira comer sozinho.
- Não duvido - murmurou Demétria.
E pensar que ela tinha tido tanta vontade de sair de sua casa!
- Os homens de Joseph sempre comem com semelhante entusiasmo? - perguntou.
Sua pergunta pareceu deixar Nicholas bastante confuso. Encolheu os ombros e disse:
- Quando estão de serviço durante um dia inteiro, eu diria que sim.
Quando Demétria já estava começando a pensar que não poderia continuar vendo aqueles homens nem um instante a mais, a terrível provação chegou a um brusco final. Os soldados se levantaram um a um, arrotaram e partiram. Se o ritual não tivesse sido tão repugnante, Demétria poderia ter achado graça.
Os cães também se retiraram, dirigindo-se com lânguido andar para a lareira para formar uma nova pirâmide diante dela. Demétria percebeu que aqueles animais eram mais disciplinados que seus donos. Nenhum deles se despediu com um arroto.
- Não comeu nada - disse Nicholas -. Não gostou do jantar? - perguntou. Tinha falado em voz muito baixa, e Demétria imaginou que assim o fazia para que Kevin não pudesse ouvir o que estava dizendo.
- Isso era um jantar? - perguntou Demétria, sem poder evitar que a raiva que sentia aparecesse em sua voz.
- Como você o chamaria? - interveio Kevin, subitamente, com um franzido no cenho do tamanho da sala.
- Eu chamaria de engolir a comida.
- Não entendo o que quer dizer com isso - replicou Kevin.
- Pois então, eu terei um imenso prazer em explicar - respondeu Demétria -. Vi animais que tinham melhores maneiras. - Assentiu, dando assim mais ênfase a seu comentário -. Uma ninhada de homens comia sua comida, Kevin. O que acabo de presenciar não foi um jantar. Não, porque era apenas um bando de animais vestidos de homens que enchiam o bucho. Isso está claro o bastante para você?
O rosto do Kevin foi-se avermelhando durante o discurso de Demétria. Parecia a ponto de saltar sobre da mesa e estrangulá-la. Demétria estava muito furiosa para poder se importar. Extravasar sua raiva a fez sentir bem.
- Acredito que você deixou sua posição sobre isso muito clara. Não está de acordo, Kevin?
Oh, Deus, era Joseph quem acabava de falar e sua grave voz tinha reverberado atrás dela. Não se atreveu a se virar, temendo perder sua recém-encontrada coragem.
Demétria o sentia terrivelmente perto dela. Ela se inclinou um pouco para trás, de maneira quase imperceptível, e sentiu como as coxas de Joseph roçavam seu ombro. Demétria percebeu que não deveria tocá-lo, porque se lembrava muito bem do poder que encerravam aquelas coxas tão musculosas.
Decidiu que o faria cair da plataforma. Demétria levantou-se, virando-se rapidamente ao mesmo tempo em que se incorporava, mas se viu comprimida contra o barão de Wexton. Joseph não tinha cedido nem um único centímetro, e agora era Demétria que se via obrigada a deslizar cautelosamente ao redor dele. Recolheu suas saias e desceu da plataforma, virando-se novamente para Joseph com o firme propósito de dizer o que pensava sobre aquele bárbaro jantar. Mas, cometeu o erro de levantar o olhar para ele, e se pegou contemplando seus olhos cinza e sentiu como a coragem lhe escapava.
Aquele poder místico que Joseph parecia possuir sobre a mente de Demétria era realmente muito constrangedor. Agora ele o usava, pensou consigo mesma, para roubar seus pensamentos. Que Deus a ajudasse, porque nem sequer podia se lembrar do que gostaria de dizer.
Sem que tivesse chegado a pronunciar uma única palavra de despedida, Demétria deu meia volta e começou a se afastar lentamente. Ela considerou aquilo como uma grande vitória, porque na realidade tinha preferido correr.
Já tinha percorrido metade da distância que a separava da entrada do salão quando a ordem de Joseph a deteve.
- Não dei permissão para que saísse, Demétria.
Cada palavra foi articulada com uma grande lentidão.
Demétria se virou para Joseph com as costas rígidas, dirigiu-lhe um sorriso que não podia ser menos verdadeiro e lançou sua resposta com o mesmo tom exagerado que ele tinha empregado.
- Eu não pedi permissão.
Demétria teve tempo de ver a feição de espanto de Joseph antes de voltar a dar-lhe as costas. Ela começou a andar, murmurando para si mesma que afinal de contas ela não era nada mais que uma prisioneira, e que os prisioneiros certamente não tinham que obedecer a vontade de seus captores. Sim, as injustiças a ela infligidas eram realmente desleais. Ela era uma dama doce e delicada.
Demétria estava tão concentrada falando com seus sussurros, que não ouviu quando Joseph se moveu. Quando sentiu como suas enormes mãos posavam sobre seus ombros, Demétria pensou de maneira frenética que agora ele acabava de agir como um lobo.
Joseph aplicou uma sutil pressão para detê-la, mas na realidade ela não era necessária. Assim que ele a tocou, ele sentiu como a rigidez abandonava seus ombros.
Demétria se apoiou nele. Joseph a sentiu tremer, e foi então que percebeu que ela não prestava a menor atenção nele. Não, Demétria estava encarando a entrada do salão. Ela estava encarando Miley.