domingo, 13 de janeiro de 2019

ESPLENDOR DA HONRA Capitulo 6 parte 2


Encontrou-a apoiada em um nodoso carvalho, com a cabeça inclinada. Joseph se deteve, não desejando invadir sua intimidade. Demétria estava chorando. Joseph a contemplou enquanto tirava lentamente sua capa e a deixava cair ao chão, e então entendeu a verdadeira razão de sua aflição. O lado esquerdo de seu vestido estava rasgado até a prega, e estava empapado de sangue.
Joseph não se deu conta de que tinha gritado até que Demétria deixou escapar um gemido de terror. Não tinha forças para se afastar dele, e tampouco resistiu quando Joseph a obrigou a separar suas mãos da coxa, ajoelhando-se junto dela.
Quando Joseph viu a ferida, encheu-se de tanta raiva que suas mãos tremeram, enquanto ele afastava a roupa. O sangue que havia secado em cima da ferida fez com que separá-lo da roupa se convertesse em uma tarefa muito lenta. As mãos de Joseph eram grandes e torpes, e, além disso, estava tentando ser o mais delicado possível.
A ferida era profunda, quase tão longa como o antebraço de Joseph, e estava coberta de terra. Teria que ser limpa e costurada.
- Ah, Demétria - murmurou Joseph com voz subitamente enrouquecida -. Quem fez isto com você?
Sua voz tinha sido como uma cálida carícia, e sua simpatia era evidente. Demétria sabia que voltaria a chorar, outra vez, se Joseph voltasse lhe mostrar alguma bondade. Sim, então o controle que exercia sobre si mesma, iria se partir como um dos frágeis ramos que ela agora agarrava.
Demétria não permitiria que isso acontecesse.
- Não quero sua simpatia, Joseph. - Ergueu os ombros e tratou de despedi-lo com o olhar -. Afaste suas mãos de minha perna. Não é decente.
Joseph ficou tão surpreso por aquela súbita exibição de autoridade que quase sorriu. Logo elevou o olhar e viu o fogo que ardia nos olhos de Demétria, e então soube o que ela estava tentando fazer. O orgulho se converteu em sua defesa. Já tinha percebido o quanto Demétria valorizava seu controle.
Voltou a baixar o olhar para sua ferida, e viu que não era grande coisa o que poderia ser feito com ela naquele momento. Então decidiu deixar que Demétria assumisse o controle.
Joseph forçou uma voz rouca quando se levantou e respondeu:
- Não obterá nenhuma simpatia de mim, Demétria - disse-lhe -. Sou como um lobo. Não suporto as emoções humanas.
Demétria não respondeu, mas aquele comentário fez com que ela arregalasse os olhos. Joseph sorriu e voltou a se ajoelhar junto dela.
- Deixe-me em paz - disse Demétria.
- Não - replicou Joseph suavemente e, desembainhando sua adaga, começou a cortar uma larga tira do vestido de Demétria.
- Está estragando meu vestido - murmurou ela.
- Pelo amor de Deus, Demétria, seu vestido está estragado - respondeu Joseph.
Depois envolveu a coxa de Demétria com a tira de tecido empregando a máxima delicadeza possível. Estava terminando de atar um nó quando ela empurrou seu ombro.
- Está-me fazendo mal - disse, odiando a si mesma por admiti-lo. Maldição, ia chorar.
- Não é verdade - disse ele.
Demétria engasgou, esquecendo-se tudo sobre chorar. O comentário de Joseph a deixou furiosa. Como se atrevia a contradizê-la! Quem estava sofrendo era ela.
- Sua carne precisará de fio e agulha - observou Joseph.
Demétria deu-lhe um tapa no ombro que estava mais perto, quando ele ousou dar de ombros sobre o comunicado.
- Ninguém vai usar uma agulha em mim.
- Você é uma mulher que gosta de contrariar, Demétria - disse Joseph enquanto se inclinava para recolher sua capa. Depois envolveu seus ombros com ela e a pegou nos braços, tendo muito cuidado de proteger sua ferida.
Demétria rodeou instintivamente seu pescoço com os braços, ao mesmo tempo em que pensava arrancar seus olhos com as unhas pela forma grosseira com que ele a estava tratando.
- Você é o quem sempre está contrariando tudo, Joseph - disse-lhe -. Eu sou uma moça de temperamento muito doce e carinhoso que você tentaria destruir se eu desse a oportunidade de fazê-lo. E juro Por Deus que esta é a última vez que vou lhe dirigir a palavra.
- Ah, e, além disso, é tão honrada que jamais faltaria com sua palavra. Não é assim, lady Demétria? - perguntou, enquanto a levava de volta a seus homens que os esperavam.
- Isso mesmo - respondeu Demétria imediatamente. Fechou os olhos e se apoiou em seu peito -. Sabia que tem o cérebro de um lobo? E os lobos têm um cérebro muito pequeno.
Demétria estava muito cansada para levantar o olhar e ver como Joseph reagia aos insultos que lhe dirigia. Enfureceu-se intimamente ante a maneira com que ele a tratava, e de repente compreendeu que estava agradecida por aquela atitude tão fria. De fato, Joseph tinha conseguido colocá-la furiosa o suficiente para que se esquecesse de sua dor. Além disso, havia outra coisa igualmente importante que era a falta de compaixão de Joseph, que a ajudava a superar o impulso de desmoronar e voltar a chorar diante dele. Chorar como uma criança não seria digno, e para Demétria tanto a dignidade como o orgulho eram dois mantos que ela sempre usava. Perder qualquer um seria muito humilhante. Demétria se permitiu um pequeno sorriso, confiante de que Joseph não podia vê-la. Joseph era realmente estúpido, porque acabava de salvar o orgulho de Demétria e ele nem sequer sabia.
Joseph suspirou. Demétria acabava de quebrar sua promessa ao falar com ele. Joseph não sentiu nenhuma vontade de assinalar aquele fato, mas isso o fez sorrir da mesma forma.
Queria obter detalhes de Demétria, saber como tinha sido ferida e pela mão de quem. Não podia acreditar que algum dos seus homens tivesse lhe feito mal, mas os homens de Sebastian também teriam tentado protegê-la, não?
Joseph decidiu que iria esperar antes de conseguir suas respostas. Antes de mais nada, precisava controlar sua ira, e agora Demétria precisava cuidados e descanso.
Lidar com Demétria era difícil. Joseph não era um homem que tivesse o costume de esconder sua ira. Quando ele era injustiçado, ele atacava. Mas mesmo assim, tinha entendido quão perto Demétria estava de desmoronar. Ter que contar o ocorrido a deixou perturbada, naquele momento.
Quando reiniciaram a caminhada, Demétria conseguiu encontrar um alívio para sua dor, aconchegando-se ao peito de Joseph. Sua face descansava debaixo do queixo dele.
Demétria voltava a se sentir segura. A maneira em que reagia à presença de Joseph a confundia. No fundo de seu coração Demétria admitia que Joseph não se parecia em nada com Sebastian, mas antes levar essas palavras a seu leito de morte que dizê-las a Joseph. Afinal de contas, continuava a ser sua prisioneira, sua isca para ser usada contra seu irmão. No entanto, na realidade, não o odiava. Joseph se limitava a retaliar as ações de Sebastian, e ela estava presa entre os dois.
- Sabe que vou escapar.
Demétria não percebeu que havia falado em voz alta até que Joseph respondeu.
- Não o fará.
- Enfim, estamos em casa! - gritou Nicholas.
Seu olhar era dirigido a Demétria. A maior parte do rosto dela estava escondido, mas o que Nicholas podia ver dele mostrava uma expressão muito tranquila. Pensou que possivelmente estivesse adormecida e agradeceu. Para falar a verdade, Nicholas não sabia como deveria agir com lady Demétria agora. Estava em uma posição condenadamente incômoda. Ele a tinha tratado com desprezo. E como ela o retribuiu? De fato, salvando sua vida! Nicholas não conseguia entender por que Demétria tinha ido ajudá-lo e desejava perguntar-lhe, mas não o fez, porque tinha a sensação de que não iria gostar da resposta.
Quando Nicholas viu os muros se elevando ao céu diante deles, ele cutucou seu cavalo à frente de Joseph de modo que ele poderia ser o primeiro a entrar no pátio interno. Pelo costume e a tradição, Joseph escolheu ser o último de seus homens na hora de entrar na segurança proporcionada pelos grossos muros de pedra. Os soldados gostavam daquele ritual, porque lembrava a cada um deles que seu senhor colocava suas vidas acima da dele própria. Embora cada homem tivesse jurado lealdade ao barão de Wexton, e cada um respondesse de boa vontade ao chamado para unir-se a ele em batalha, cada um também sabia que podia contar com seu senhor para obter amparo.
Era uma aliança muito útil que tinha o orgulho por raiz. Graças a ela, cada homem também podia alardear ser um dos soldados de elite de Joseph.
Os homens de Joseph eram os soldados mais treinados de toda Inglaterra. Joseph atribuía seu sucesso por infligir desafios que homens comuns teriam considerado impossíveis de cumprir. Seus homens eram tidos por serem poucos requeridos, mas quando realizou uma contagem tinha um total de quase seiscentos deles, e todos eram chamados a cumprir os quarenta dias de serviço que ele exigia. Seu poderio era reverenciado e comentado em sussurros por aqueles que não chegavam a sua altura, e suas proezas, de considerável força física, eram narradas sem que houvesse nenhuma necessidade de exagero para animar o relato. A verdade já era suficientemente interessante por si só.
Os soldados eram um reflexo dos valores daquele que os comandava, um nobre que brandia sua espada com muito mais precisão do que todos aqueles que o desafiavam. Joseph de Wexton era um homem a ser temido. Seus inimigos já tinham desistido de tentar descobrir seus pontos frágeis. O guerreiro não mostrava nenhuma vulnerabilidade. Tampouco parecia estar interessado no que o mundo podia lhe oferecer. Não, Joseph nunca fez do ouro sua segunda amante, assim como tinham feito outros de sua classe. O barão de Wexton não apresentava nenhum calcanhar de Aquiles ao mundo exterior. Era um homem de aço, ou pelo menos assim, tristemente, acreditavam todos aqueles que lhe desejavam algum mal. Era um homem que não tinha consciência, um guerreiro que não tinha coração.
Demétria sabia muito pouco a respeito da reputação de Joseph. Sentia-se protegida quando estava em seus braços e via nos soldados que passavam por eles. Ela sentia certa curiosidade pela maneira com que Joseph estava esperando.
Então voltou sua atenção para a fortaleza que havia diante ela. A colossal estrutura se elevava sobre uma colina nua, sem o benefício de uma única árvore que proporcionasse algum tipo de alívio à seriedade. Um muro de pedra cinza circundava a fortaleza; devia ter pelo menos duzentos metros de comprimento de um extremo a outro. Demétria nunca tinha visto nada tão imponente. O muro era alto o bastante para que chegasse a roçar na brilhante lua, ou ao menos isso foi o que pareceu a Demétria. Podia ver parte de uma torre circular sobressaindo de seu interior, tão alta que seu arremate ficava escondido pelas espessas nuvens.
O caminho que levava à ponte levadiça se curvava como o ventre de uma serpente ao longo da escarpada subida. Depois do último de seus homens deixar para trás as pranchas de madeira que atravessavam o fosso, Joseph fez avançar sua montaria. O cavalo estava impaciente par chegar a seu destino, e empinou com um nervoso passo lateral que sacudiu a coxa de Demétria o suficiente para que voltasse a doer. Demétria fez uma careta ao sentir a pontada, sem perceber que estava apertando o braço de Joseph.
Ele soube que Demétria sentia dor. Baixou o olhar para ela, viu sua expressão de cansaço e torceu o rosto.
- Logo poderá descansar, Demétria. Aguente só um pouquinho mais - murmurou-lhe com a voz enrouquecida pela preocupação.
Demétria assentiu e fechou os olhos.
Quando chegaram ao pátio, Joseph desmontou rapidamente e logo pegou Demétria em seus braços. Sustentou-a com firmeza junto ao peito, deu meia volta e andou em direção ao seu lar.
O caminho estava cheio de soldados. Nicholas esperava com dois homens diante das portas do castelo. Demétria abriu os olhos e olhou para Nicholas. Pensou que parecia perplexo, mas não soube a razão.
Até chegarem mais perto, Demétria notou que Nicholas não estava olhando para ela, e então a surpreendeu que a atenção dele estivesse totalmente centrada em sua perna. Olhando para baixo, viu que sua capa não escondia sua ferida. O maltratado vestido pendurava atrás dela como um estandarte rasgado. Só o sangue a cobria, fluindo em abundância ao longo de sua perna.
Nicholas se apressou a abrir as portas de uma grande entrada dupla que ofuscava seus homens. Uma rajada de ar quente deu a boas vindas a Demétria quando chegaram ao centro de um pequeno vestíbulo.
A área em volta dela era, obviamente, de permanência dos soldados. A entrada era estreita, com piso de madeira, e os aposentos dos homens localizado do lado direito. Uma escada circular ocupava toda a parede esquerda, com largos degraus em curva que conduziam ao quarto acima. Havia algo estranhamente perturbador sobre aquela estrutura, que Demétria não conseguia descobrir o que a incomodava até que Joseph a tivesse levado à metade dos degraus.
- A escada está do lado errado - disse de repente.
- Não, Demétria. Está do lado certo - respondeu Joseph.
Demétria pensou que sua observação parecia estar divertindo Joseph.
- Esse não é o lado correto - ela discordou dele -. A escada sempre está do lado direito da parede. Todo mundo sabe disso - acrescentou com grande autoridade.
Por alguma razão, Demétria estava enfurecida por Joseph não admitir aquele defeito tão óbvio em seu lar.
- A escada fica à direita, a menos que se ordene deliberadamente que seja construída à esquerda - respondeu Joseph.
Cada palavra tinha sido articulada com muito cuidado. De fato, Joseph se comportava como se estivesse educando uma criança tola.
O porquê de aquela discussão parecer tão importante para Demétria estava além de sua compreensão. Ela realmente pensou assim, mas jurou que teria a última palavra sobre o assunto.
- Então essa ordem foi dada por um ignorante - disse a Joseph, levantando a vista para ele, fulminando-o com o olhar e lamentou que ele não estivesse olhando para baixo para vê-la -. É um homem muito teimoso.
- E você é uma mulher muito teimosa - replicou Joseph. Logo sorriu, sentindo prazer com sua observação.
Nicholas seguia seu irmão em silêncio. A conversa de Joseph e Demétria parecia ridícula, mas estava muito preocupado para sorrir ante aquele tolo diálogo.
Nicholas sabia que Kevin estaria esperando por eles. Sim, seu outro irmão certamente estaria dentro da sala. Miley provavelmente também estaria ali. Nicholas percebeu que agora estava preocupado por Demétria. Não queria que ela tivesse nenhum confronto desagradável, e esperava ter tempo para explicar a irmão Kevin, quão doce e delicada era a natureza de Demétria.
A preocupação de Nicholas ficou temporariamente esquecida quando Joseph chegou ao segundo nível e não virou para entrar no salão. Pegou a direção oposta, subiu por outra escada e logo entrou no centro da torre. Os degraus eram mais estreitos, e o cortejo se viu um tanto limitado pelas pronunciadas curvas.
O quarto do alto da torre estava gelado. Havia uma grande lareira construída no centro da parede circular. Uma grande janela havia sido aberta, justamente do lado daquela lareira. A janela estava totalmente aberta, e as portinholas de madeira balançavam de um lado ao outro para terminar se chocando ruidosamente contra as paredes de pedra.
Junto à parede interna havia uma cama, e Joseph tratou de ser o mais delicado possível quando deitou Demétria ali. Nicholas os seguia e Joseph foi dando ordens a seu irmão enquanto ia acrescentando toras de madeira dentro da lareira.
- Envie Gerty com uma bandeja de comida para Demétria, e diga a Kevin para trazer seus remédios - disse -. Terá que dar uns pontos na perna de Demétria.
- Ele colocará mil objeções - comentou Nicholas.
- Ele o fará mesmo assim.
- Quem é Kevin?
A pergunta suavemente formulada procedia de Demétria. Tanto Joseph como Nicholas se viraram, olhando na direção da moça. Demétria estava tentando se levantar para ficar sentada na cama, e franzia o cenho diante a impossibilidade da tarefa. Seus dentes começaram a tiritar de frio e tensão, e finalmente voltou a desabar sobre a cama.
- Kevin é nosso irmão do meio, entre Joseph e eu - explicou Nicholas.
- Quantos Wexton há? - perguntou Demétria voltando a franzir o cenho.
- No total, somos cinco - respondeu Nicholas -. Catherine é a irmã mais velha e depois vem Joseph, Kevin, Miley e, por último, eu - acrescentou com um sorriso -. Kevin cuidará de sua ferida, Demétria. Conhece todas as maneiras de curar, e antes que você se dê conta, voltará a estar como nova.
- Por quê?
Nicholas franziu o cenho.
- Por que, o quê?
- Por que quer que eu volte a estar como nova? - perguntou Demétria, claramente perplexa.
Nicholas não soube o que responder. Voltou seu olhar para Joseph, com a esperança de que ele desse uma resposta à pergunta de Demétria. Joseph tinha acabado de acender o fogo e agora estava fechando as portinholas. Sem se virar, ordenou:
- Nicholas, siga minhas instruções.
O tom de sua voz não possibilitava discutir a ordem, e Nicholas foi suficientemente sensato para obedecer. Tinha chegado até a porta quando a voz de Demétria o alcançou.
- Não traga seu irmão. Posso cuidar de minha ferida sem ajuda.
- Agora, Nicholas.
A porta se fechou com um golpe seco.
Então Joseph se virou para Demétria.
- Enquanto estiver aqui, não vai desobedecer nenhuma de minhas ordens. Ficou claro?
Ele caminhava em direção à cama com lentos e medidos passos.
- Como vou entender alguma coisa, milord? - sussurrou Demétria -. Não sou mais que um peão, não? Não é assim como funcionam as coisas?
Demétria fechou os olhos antes que ele pudesse assustá-la de algum jeito. Então, cruzou os braços sobre o peito, em uma tentativa de manter afastado o frio que reinava no recinto.
- Deixe-me morrer em paz - sussurrou a seguir, falando em um tom realmente muito melodramático. Deus, como desejava ter tido força e coragem necessárias para gritar! Sentia-se muito infeliz. Novas dores iriam chegar se o irmão de Joseph a tocasse também -. Não tenho força para suportar os cuidados de seu irmão.
- Sim, você tem, Demétria.
O tom de Joseph não podia ser mais doce, mas Demétria estava muito furiosa para perceber.
- Por que tem que contradizer tudo o que digo? Isso é um defeito terrível - murmurou.
Então bateram à porta. Joseph respondeu com um grito, enquanto cruzava o cômodo. Apoiou um ombro no suporte que havia em cima da lareira, com seu olhar dirigido a Demétria.
Demétria estava muita curiosidade para manter fechados os olhos. A porta protestou com um chiado enquanto se abria, e uma mulher de idade avançada apareceu no vão. Levava uma bandeja de comida em uma mão e uma jarra na outra, assim como duas peles de animal debaixo de seu braço. A criada era uma mulher gordinha com olhos castanhos cheios de preocupação. Atreveu-se a lançar um olhar apressado a Demétria, e depois se virou para seu senhor, fazendo-lhe uma torpe reverência.
Demétria concluiu que a criada tinha muito medo de Joseph. Contemplou a pobre mulher, sentindo uma grande compaixão pela criada, que tratava de equilibrar os objetos que levava nas mãos, ao mesmo tempo em que fazia uma genuflexão.
Joseph tampouco deixava a situação confortável para a mulher. Ele lhe deu um breve aceno de cabeça e, em seguida, fez um gesto para o lado de Demétria. Nem uma palavra de encorajamento ou bondade foi por ele proferida.
A criada demonstrou ser muito rápida com os pés, porque virtualmente correu para a cama depois que Joseph ordenou, gaguejado duas vezes antes de chegar até ela.
Colocou a bandeja de comida ao lado de Demétria e lhe ofereceu a jarra.
- Qual o seu nome? - perguntou Demétria à criada, falando em uma voz muito baixa para que Joseph não pudesse ouvi-la.
- Gerty - respondeu ela.
Então a mulher se lembrou das cobertas que levava debaixo do braço e se apressou em levar a bandeja de comida à arca de madeira, que havia perto da cama. Depois, cobriu Demétria com as peles de animal.
Demétria lhe dirigiu um sorriso de agradecimento, e aquilo animou a criada a acomodar as peles de animal sobre as pernas de Demétria.
- Vejo que está morrendo de frio - sussurrou.
Gerty não sabia sobre a ferida de Demétria. Quando ela empurrou a pele contra sua coxa lesionada, Demétria fechou os olhos contra o insulto insuportável daquela dor, mas não disse uma palavra.
Joseph viu o que tinha acontecido e pensou em chamar a atenção da criada, mas o mal já tinha sido feito. Agora Gerty estava entregando a comida a Demétria.
- Obrigado por sua gentileza, Gerty.
A cortesia de Demétria surpreendeu Joseph. Olhou sua prisioneira, viu sua expressão tranquila e se pegou sacudindo a cabeça. Em vez de se enfurecer com a criada, lady Demétria agradeceu-lhe a gentileza.
A porta se abriu de repente. Demétria se virou para ela com os olhos exagerados pelo medo e viu como a porta ricocheteava uma vez contra a parede, antes de ficar imóvel. Um homem que era um autêntico gigante acabava de aparecer no vão com as mãos apoiadas nos quadris e uma careta feroz desenhada em sua face. Com um suspiro cheio de cansaço, Demétria chegou à conclusão de que aquele era Kevin.
Gerty contornou o gigante e se afastou pelo corredor no mesmo instante em que Kevin entrava no recinto. Uma esteira de criados o seguiu, trazendo com eles terrinas cheias de água e uma variedade de bandejas em cima das quais havia recipientes de estranhas formas. Os criados depositaram suas bandejas no chão junto à cama e deram meia volta, inclinaram-se ante Joseph e partiram. Todos agiam como coelhos assustados. E por que não? Demétria perguntou a si mesma. Afinal de contas, dois lobos nos aposentos com Demétria, então, por acaso, isso não bastava para assustar qualquer um?
Kevin ainda não havia dito uma única palavra ao irmão. Joseph não queria desentendimento algum diante de Demétria. Sabia que ele ficaria furioso, e que isso assustaria Demétria. Mesmo assim, tampouco iria se retratar pelo que tinha feito.
- Não vai dar boas vindas a seu irmão, Kevin? - perguntou Joseph.
O estratagema funcionou. Kevin pareceu ficar surpreso com a pergunta, e seu rosto perdeu um pouco de sua ira.
- Por que não fui informado de seu plano de trazer com você a irmã de Sebastian? - perguntou depois -. Acabo de saber que Nicholas entendeu isso desde o início.
- E suponho que também se gabou disso - disse Joseph, sacudindo a cabeça.
- Ele fez isso.
- Nicholas exagera, Kevin. Não tinha conhecimento algum de minhas intenções.
- E de sua razão para manter este plano em segredo, Joseph? - perguntou Kevin.
- Você teria ficado contra o plano - observou Joseph. Sorriu ante sua própria admissão, como se tivesse encontrado um grande prazer na discussão.
Demétria observou a mudança que aquilo produziu nas maneiras de Joseph. Estava realmente assombrada. Ora, ele parecia tão absurdamente bonito quando sorria! Sim, pensou, parecia humano. E isso, repreendeu-se a si mesma, era tudo o que se permitia pensar a respeito da aparência de Joseph.
- Quando você deu as costas a uma discussão? - gritou Kevin a seu irmão.
As paredes tinham que estar tremendo por causa do grito. Demétria se perguntou se tanto Kevin como Nicholas sofreriam de algum problema de audição.
Kevin não era tão alto como Joseph, notava-se quando ambos estavam de pé, perto um do outro.
Mas se parecia mais com ele que Nicholas. Quando franzia o cenho seu rosto adquiria um aspecto quase ameaçador. As feições faciais eram quase idênticas, incluindo o cenho franzido. Mas o cabelo de Kevin não era preto, mas tão castanho como um campo recém-arado, abundante e grosso. Quando se virou para olhá-la, Demétria acreditou ver um sorriso iluminando aqueles escuros olhos castanho, antes de se tornarem tão frios como a pedra.
- Se pensa em gritar comigo, Kevin, devo dizer que ouço perfeitamente - disse Demétria.
Kevin não replicou. Cruzou os braços em cima do peito e a olhou, escrutando-a durante um bom tempo, até que Joseph disse para ele ver a ferida de Demétria.
Quando seu irmão foi para a cama, Demétria começou a assustar-se de novo.
- Preferia que não cuidasse de mim - disse, tratando de evitar que tremesse sua voz.
- Suas preferências não me dizem respeito - observou Kevin. Agora sua voz era tão suave como tinha sido a dela.
Demétria admitiu a derrota quando Kevin pediu com um gesto que lhe mostrasse qual era a perna que devia cuidar. Kevin era grande o bastante para obrigá-la a obedecer pela força, e Demétria precisava conservar toda sua energia para a dura prova que a aguardava.
A expressão de Kevin não se alterou quando ela levantou o cobertor. Demétria se certificou de esconder o resto de seu corpo de seu olhar. Afinal de contas, ela era uma dama casta e era bom que Kevin entendesse isso desde o início.
Joseph foi para o outro lado da cama. Franziu o cenho quando Kevin tocou a perna de Demétria e esta fez uma careta de dor.
- Será melhor que a segure, Joseph - observou Kevin. Sua voz foi doce, e toda sua concentração era obviamente dirigida à tarefa que tinha diante dele.
- Não! Joseph? - exclamou Demétria, não conseguia afastar o desespero de seus olhos.
- Não há nenhuma necessidade - explicou Joseph a seu irmão. Então, olhou para Demétria e acrescentou -: Se for necessário, eu vou segurá-la para que não se mexa.
Os ombros de Demétria voltaram a descer sobre a cama. Ela assentiu com a cabeça e um olhar de calma estendeu em seu rosto.
Joseph estava certo de que teria que segurá-la, caso contrário Kevin não poderia completar o trabalho de limpar sua ferida e voltar a juntar a carne, costurando-a. Haveria dor, intensa, mas necessária, e o que ela gritasse durante aquela terrível prova, não seria nenhuma humilhação para uma mulher.
Kevin arrumou seus apetrechos e finalmente preparou-se para começar. Olhou seu irmão, recebeu sua anuência com a cabeça e voltou a olhar para Demétria. O que viu o deixou bastante surpreso e fez com que ficasse imóvel. Havia confiança naqueles magníficos olhos azuis, e nem o menor rastro de medo podia ser visto neles. Kevin admitiu que Demétria era realmente bonita, tal como Nicholas tinha afirmado.
- Pode começar, Kevin - murmurou então ela, interrompendo o curso dos pensamentos de Kevin.
Kevin viu como Demétria agitava a mão em um gesto majestoso, indicando que estava esperando. Quase sorriu ante sua exibição de autoridade. A secura de sua voz também o surpreendeu.
- Não seria um pouco mais fácil se empregasse apenas uma faca quente para selar a ferida? - perguntou Demétria, e se apressou em continuar falando antes que Kevin pudesse lhe responder -. Não é que eu pretenda dizer como deve ser feito - disse -. Peço que não se ofenda, mas não parece um pouco bárbaro utilizar uma agulha e fio?
- Bárbaro?
Kevin parecia estar tendo certo problema em continuar com a conversa.
Demétria suspirou, e decidiu que estava muito cansada para fazer-se entender.
- Pode começar, Kevin - repetiu -. Estou preparada.
- Posso? - perguntou Kevin, olhando para Joseph para observar sua reação.
Joseph estava muito preocupado para sorrir diante da conversa de Demétria. Estava muito sério.
- Além de ser bonita, você gosta de mandar - disse Kevin a Demétria, com a recriminação suavizada com um sorriso.
- Ande logo com isso - murmurou Joseph -. A espera é pior que a ação.
Kevin assentiu. Abstraiu-se de tudo que não fosse seu dever. Preparou-se para suportar os gritos que sabia iriam começar assim que tocasse em Demétria, então ele começou a limpeza.
Demétria não chegou a emitir um único som. Em algum momento da terrível prova, Joseph se sentou na cama. Demétria virou imediatamente o rosto para o lado em que ele estava e agiu como se tentasse espremer-se debaixo do corpo dele. Suas unhas cravaram-se na coxa de Joseph, mas ele não acreditou que ela realmente soubesse o que estava fazendo.
Demétria não acreditou que pudesse continuar suportando tanta dor por muito mais tempo. Agradecia Joseph estar, ali, embora não pudesse entender por que sentia daquela maneira. Agora não era capaz de pensar direito, e se limitava a aceitar o fato de que Joseph havia se convertido em sua âncora para continuar se agarrando à vida. Sem ele seu controle seria derrubado.
Justo quando estava certa de que ia começar a gritar, sentiu como a agulha atravessava sua pele. Um doce esquecimento a reclamou e não sentiu nada mais.
Joseph soube o exato instante em que Demétria desmaiou. Separou lentamente a mão dela de sua coxa e, suavemente, virou seu rosto até que toda sua face fosse visível para ele. As lágrimas tinham molhado suas bochechas, e Joseph as secou muito devagar até fazê-las desaparecer.
- Eu acho que preferiria que ela tivesse gritado - murmurou Kevin, enquanto empregava a agulha e o fio para ir unindo a carne rasgada.
- Isso não teria sido mais fácil para você - respondeu Joseph. Ficou de pé quando Kevin terminou e observou como seu irmão envolvia a coxa de Demétria com uma larga tira de algodão.
- Demônios, Joseph, provavelmente terá a febre e morrerá de qualquer maneira - profetizou Kevin com uma careta.
Seu comentário enfureceu Joseph.
- Não! - exclamou -. Não permitirei isso, Kevin.
A veemência com que tinha falado deixou Kevin surpreso.
- Isso teria importância para você, irmão?
- Eu me importaria - admitiu Joseph.
Kevin não soube o que dizer. Ficou imóvel com a boca aberta e viu como seu irmão saía dos aposentos.
Depois o seguiu com um suspiro cheio de cansaço.
Joseph já tinha saído do castelo e estava indo para o lago situado atrás da cabana do açougueiro. Agradecia que fizesse tanto frio, porque isso afastava de sua mente as perguntas que o torturavam.
O rito do banho noturno era outra das exigências que Joseph impunha a sua mente e seu corpo. De fato, tratava-se de um desafio destinado a endurecê-lo contra os desconfortos. Ele não via a hora de nadar e não evitava isso. Nunca deixava de cumprir com aquele ritual, fosse verão ou inverno.
Despiu-se e executou um mergulho tranquilo naquela água gelada, esperando que o frio bastasse para apagar Demétria de seus pensamentos por alguns minutos.
Pouco tempo depois Joseph jantou. Kevin e Nicholas fizeram-lhe companhia, algo que sem dúvida era bastante insólito, porque Joseph tinha o hábito de comer sozinho. Os dois irmãos mais novos falaram de muitas coisas, mas nenhum deles se atreveu a interrogar Joseph a respeito de lady Demétria. O silêncio e sua carranca perpétua durante a refeição não permitiam discussão sobre tema algum.
Depois, Joseph não conseguiu se lembrar do que havia comido. Decidiu descansar um pouco, mas a imagem de Demétria continuava povoando seus pensamentos quando se deitou. Disse a si mesmo que estava acostumado a tê-la perto dele, e que sem dúvida essa era a razão pela qual agora não podia dormir. Passou-se uma hora e logo outra, e Joseph continuava dando volta na cama.
No meio da noite, Joseph finalmente se deu por vencido. Subiu aos aposentos da torre, amaldiçoando-se durante todo o trajeto, dizendo a si mesmo que só queria dar uma olhada em Demétria para ter certeza de que não havia desafiado sua vontade, morrendo.
Ficou imóvel no vão da porta durante um bom tempo, até que ouviu Demétria gemer enquanto dormia. O som o atraiu ao interior do cômodo. Fechou a porta, acrescentou mais lenha ao fogo e foi para perto de Demétria.
Demétria dormia voltada sobre o lado bom e seu vestido havia subido ao redor das coxas. Joseph tentou arrumá-lo um pouco melhor, mas não conseguiu que ficasse ajeitado de uma maneira que o satisfizesse. Sentindo-se bastante frustrado, terminou utilizando sua adaga para cortar o tecido. Não se deteve até que tirou tanto o vestido como a meia túnica, dizendo-se que Demétria estaria muito mais cômoda sem eles.
Agora ela só vestia sua regata branca. O decote do pescoço mostrava a curva de seus seios. Um amplo laço feito com um delicado trabalho de bordado circundava a linha do decote, e os distintos fios vermelhos, amarelos e verdes tinham sido meticulosamente entrelaçados para que formassem um limite, confeccionado com flores da primavera. Era um trabalho de natureza feminina, que agradou bastante Joseph, porque sabia que Demétria tinha passado longas horas trabalhando nele.
Demétria era tão deliciosa e feminina como as flores que tinha bordadas em sua regata. Que criatura tão doce e delicada era! Sua pele, agora salpicada pela tremente claridade do fogo que a banhava com um resplendor dourado, não tinha absolutamente nenhum defeito.
Deus, era muito bonita.
- Oh, demônios... - murmurou Joseph para si mesmo.
Sem o obstáculo do vestido para escondê-la dos olhos de Joseph, Demétria oferecia uma visão ainda mais maravilhosa que antes.
Quando viu que começava a tremer, Joseph se deitou junto dela. A tensão foi-se dissipando lentamente de seus ombros. Sim, acostumou-se a tê-la muito perto dele, e sem dúvida essa era a razão pela qual agora se sentia tão à vontade.
Joseph puxou o cobertor até deixá-los abrigados com ele. Então, passou o braço ao redor da cintura dela, aproximando-a um pouco mais ao seu corpo, mas Demétria foi mais rápida. Deslizou sobre a cama sem que o movimento a despertasse, então, Demétria se aconchegou rapidamente ao corpo de Joseph, até que suas nádegas ficaram acomodadas, da maneira mais íntima possível, à união das coxas dele.
Joseph sorriu. Ficava evidente que lady Demétria também havia-se acostumada a tê-lo perto dela, e sorriu com arrogância, porque Joseph sabia que Demétria não tinha consciência desse fato... ainda.
   


olha quem apareceu hehe
queria saber onde estao as pessoas que leem as fics... pq ultimamente no maximo tem 2 comentarios... sem a opiniao de voces nao sei se estao gostando
COMENTEM PLEASEEEE

sábado, 5 de janeiro de 2019

SPOILER!


"-Se não tivesse me casado com aquele paspalho e tivesse te encontrado antes da burra da Demi...
-O que teria?
-Estaríamos juntos, sei que vocês não fizeram nada esses dias todos, você nem gosta dela, não sente desejo. Afinal ela parece uma criança e não uma mulher.
-Mesmo se eu não conhecesse minha esposa, jamais sentiria algo por você.
-Como pode dizer isso? Olha pra mim e pra ela.
-Você não chega perto da Demi, nem aos pês dela."





a fic mais demorada pra escrever ever!  tipo comecei em 24 de dezembro de 2016.....isso pq sei de cor e salteado as cenas da serie que me inspirou a escrever essa historia.... mas hoje to insipirada, vamos ver...1 temporada ja foi, falta.....

ESPLENDOR DA HONRA Capitulo 6 parte1


Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus.
Primeira epístola aos Corintios, 3, 19
Em seguida ficou evidente que ao barão de Wexton pouco lhe importava que o elemento surpresa não estivesse do seu lado. Seu grito de guerra ecoou pelos arredores, fazendo-se ouvir com tal força, que pouco faltou para que as folhas murchas caíssem de seus ramos. Logo soou uma trombeta, enviando dessa maneira uma mensagem adicional aos soldados que avançavam por baixo, e se por acaso tudo aquilo não fosse suficiente, o estrondo dos cascos dos cavalos que baixavam as encostas a galope, sem dúvida alertou Sebastian e seus homens da ameaça que se aproximava.
Demétria se viu presa entre Joseph e seu irmão, quando começaram a descida. Os soldados também os rodeavam com seus escudos levantados. Embora Demétria não tivesse semelhante proteção, tanto Joseph como Nicholas detiveram os ramos que a teriam arrancado de sua sela, utilizando seus escudos em forma de pipa como barreiras contra os nodosos ramos que bloqueavam seu caminho.
Quando os soldados chegaram a um pequeno penhasco, que se elevava sobre o lugar que seu senhor tinha escolhido para o confronto, Joseph puxou as rédeas do garanhão e gritou uma ordem para o animal. O cavalo se deteve imediatamente. Na sequência, Joseph usou sua mão livre para segurar o queixo de Demétria, e aplicou uma firme pressão, obrigando-a a levantar o olhar para ele.
Olhos cinza desafiaram os azuis.
- Não se atreva a sair deste lugar - disse Joseph.
Ia soltá-la, mas Demétria deteve sua mão.
- Se morrer, não vou chorar por você - murmurou.
Joseph chegou a sorrir para ela.
- Sei que o faria - respondeu com uma voz tão arrogante quanto suave.
Demétria não teve tempo para responder. Joseph colocou seu cavalo em movimento, apertando suas esporas e galopando em direção à batalha que já estava acontecendo em um lugar mais abaixo. Demétria se viu subitamente só no alto daquele penhasco, quando o último dos soldados de Joseph passou junto dela em um furioso galope.
O ruído era realmente ensurdecedor. Metal se estrelava contra metal, ressoando com uma intensidade que ensurdecia os ouvidos. Os gritos de tormenta se mesclavam com os de vitória. Demétria não estava perto o bastante para que pudesse distinguir os rostos, mas manteve sua atenção firmemente dirigida para as costas de Joseph. O animal cinzento que montava era fácil de ver. Demétria contemplou Joseph enquanto este brandia sua espada com golpes precisos, e pensou que o barão de Wexton sem dúvida tinha sido abençoado pelos deuses, quando o inimigo o deixou virtualmente rodeado e Joseph derrubou sua montaria cada oponente com mortíferas cutiladas de sua espada.
Demétria fechou os olhos por um instante. Quando voltou a contemplar a cena, o cinzento tinha desaparecido. Demétria percorreu freneticamente a área com o olhar, procurando por Joseph, e também por Nicholas, mas não conseguiu encontrar nenhum dos dois irmãos. A batalha avançava em sua direção.
Ela não procurou, nem por um só instante, por seu irmão, sabendo que ele não estaria no meio da batalha. Diferentemente de Joseph, Sebastian sempre seria o último a levantar sua espada. O risco era excessivo. Não, seu irmão valorizava muito sua vida, da mesma forma que Joseph parecia não dar nenhum valor a sua. Sebastian deixava que os homens que tinham-lhe jurado lealdade se encarregassem do trabalho de lutar. E se o curso da batalha terminasse virando contra ele, então sempre seria o primeiro a fugir.
- Esta não é minha luta! - gritou Demétria com toda a força de seus pulmões. Puxou as rédeas, determinada a partir com a maior rapidez possível. Não presenciaria aquela batalha nem um minuto a mais. Sim, ela deixaria todos eles ali.
- Venha, Silenus, vamos - disse, ordenando que o animal avançasse tal como tinha visto Joseph fazer.
O cavalo não se moveu. Demétria puxou as rédeas energicamente e com a firme determinação de fazer com que o animal obedecesse a sua vontade. Os soldados estavam subindo rapidamente para o penhasco, e a urgência tornava-se subitamente imperiosa.
Joseph estava furioso. Tinha procurado por Sebastian, mas não pôde encontrar nem rastro dele. A vitória sobre seus inimigos realmente careceria de significado, se o homem que os comandava voltasse a escapar. Levantou a vista para lançar um rápido olhar em Demétria e ficou atônito ao ver que a batalha a rodeava. Então, Joseph percebeu que tinha estado tão entretido em encontrar Sebastian, que não tinha dedicado atenção suficiente à segurança de Demétria. Admitiu seu erro, reprovando-se por não ter sido previdente o bastante para deixar homens que cuidassem dela.
Joseph jogou seu escudo no chão, e soltou um estridente assobio, que esperava chegar até seu cavalo. Seu coração subiu à garganta, enquanto corria em direção ao elevado. Aquela intensa necessidade de proteger Demétria era uma reação totalmente ilógica, disse a se mesmo, mas ela era sua prisioneira e ele tinha a responsabilidade de mantê-la a salvo. Sim, essa era a razão pela qual agora estava correndo para ela, rugindo sua indignação com tanta força como teria feito em qualquer grito de batalha.
O cavalo respondeu ao sinal do assobio lançando-se à frente. Agora o animal permitiria que seu cavaleiro o controlasse, mas Demétria perdeu as rédeas quando sua montaria iniciou aquele súbito galope.
Silenus saltou por cima de dois soldados que estavam chegando ao alto do penhasco, atingindo a ambos na cabeça com suas patas traseiras. Os gritos dos soldados os seguiram colina abaixo.
Demétria não demorou a estar no meio da batalha, com homens a cavalo e mais homens a pé enchendo o chão ao redor dela, todos lutando por suas vidas. O cavalo de Joseph viu seu caminho bloqueado pelos soldados. Demétria se agarrou ao pescoço do animal e rezou por um rápido fim.
De repente viu Nicholas abrindo passagem para ela. Ia a pé, sustentando uma espada ensanguentada em uma das mãos e um escudo banguela na outra, rechaçando da esquerda os ataques de que era objeto, enquanto ia impulsionando sua espada para frente com a mão direita.
Um dos soldados de Sebastian se equilibrou sobre Demétria, com sua espada levantada contra ela. Um brilho enlouquecido vidrava seu olhar, como se já tivesse deixado para trás o conhecimento do que estava fazendo.
Demétria compreendeu que aquele homem tinha intenção de matá-la. Gritou o nome de Joseph, mas mesmo assim sabia que agora sua segurança dependia de seu próprio desempenho. Não havia outra escapatória que o chão duro, e Demétria se apressou em se lançar por cima do flanco do cavalo. Não foi rápido o bastante. A lâmina encontrou seu alvo, abrindo um talho profundo que transpassou a coxa esquerda de Demétria. Gritou em agonia, mas o som morreu em sua garganta quando se chocou contra o chão. Sua respiração foi bruscamente expelida.
Sua capa a seguiu para o chão, caindo em uma pilha em cima de seus ombros. Muito atordoada, e próxima ao estado de choque, a concentração de Demétria ficou subitamente absorvida pela tarefa de puxar aquela peça de roupa ao redor de seu corpo, em um lento e árduo processo cujo término chegou a ser uma autêntica obsessão para ela. A princípio a dor em sua coxa era tão forte que pensou fosse morrer por causa disso. E então, uma dormência abençoada foi se estendendo, pouco a pouco, por sua coxa e mente, dando-lhe novas forças. Levantou-se, sentindo-se ainda muito confusa e bastante atordoada, e se ateve à capa sobre seus seios, enquanto observava os homens que combatiam ao redor dela.
O cavalo de Joseph a empurrou bruscamente entre os ombros, faltando muito pouco para que voltasse a jogá-la no chão. Demétria recuperou o equilíbrio e se apoiou no flanco do animal, achando certo consolo no fato de o cavalo não ter fugido quando ela caiu no chão. O animal também agia como uma barreira, protegendo suas costas de qualquer ataque.
As lágrimas correram por sua face, uma reação involuntária ao cheiro de morte que permeava o ar. Nicholas gritou alguma coisa no ar, mas Demétria não conseguiu entender o que ele estava gritando, e a única coisa que pôde fazer foi olhá-lo fixamente, enquanto Nicholas abria passagem até ela. Nicholas voltou a gritar, agora com voz mais premente que antes, mas a ordem se mesclou com o estrépito de metal chocando-se contra outro metal e tornou-se muito confuso para que pudesse ser entendido.
A mente de Demétria se rebelou contra toda aquela carnificina. Começou a andar na direção de Nicholas, acreditando que era isso que ele desejava que ela fizesse. Tropeçou em duas ocasiões com os braços e as pernas de guerreiros mortos espalhados pelo chão, cuspidos como lixo desprezado, mas continuou andando sem pensar em mais nada que fosse chegar até Nicholas, o único homem que conseguia reconhecer naquele bosque de destruição. Em um canto de sua mente havia a esperança de que ele a levasse até Joseph, e então estaria a salvo.
Demétria já estava a poucos metros dele quando Nicholas foi repentinamente atacado pelas costas. Nicholas se virou para fazer frente àquele novo oponente, com suas costas ficando desprotegida. Demétria viu como outro homem de Sebastian aproveitava a oportunidade que era oferecida, levantando a lâmina enegrecida de sua espada, enquanto corria para aquele alvo tão vulnerável.
Tratou de gritar uma advertência, mas sua voz falhou e de seus lábios só saiu um gemido.
Santo Deus, ela era a única pessoa que estava perto o bastante para poder ajudá-lo, a única que podia alterar aquele desfecho. Demétria não titubeou. Agarrou uma das armas abandonadas entre os rígidos dedos de um cadáver sem rosto. Era uma enorme e pesada maça coberta de pontas agudas e sangue seco.
Demétria sustentou a arma com ambas as mãos, lutando contra seu peso. Agarrou o tosco extremo, meio arrastando e meio levando consigo mesmo aquela maça, enquanto se apressava para posicionar-se atrás de Nicholas, com suas costas quase tocando as costas dele. E depois, esperou a que o inimigo efetuasse seu ataque.
O soldado não se sentiu muito impressionado, já que Demétria oferecia uma frágil defesa contra sua armadura e sua força. O reflexo de um sorriso azedou seu rosto. Lançou um grito de desafio, correu para frente, sua larga e curvada arma bramindo um ar com uma mortífera intenção.
Demétria esperou até o último segundo e então levantou a maça do chão, fazendo-a girar em um grande arco. O terror lhe deu forças. Apenas pretendia deter o ataque do soldado, mas, as pontas salientes que se sobressaíam do bulbo circular da arma rasgaram os elos da cota de malha do guerreiro e entraram na branda carne que estava escondida debaixo dela.
Nicholas terminou seu combate contra o ataque frontal, voltou-se rapidamente na tentativa de chegar até Demétria e faltou pouco para que a derrubasse. Deu a volta bem a tempo de presenciar como morria o guerreiro, e assim como Demétria, viu cair no chão o soldado inimigo com um grito preso em sua garganta e as pontas salientes da maça incrustadas no meio de seu peito. Nicholas ficou tão assustado pelo que acabava de presenciar que ficou momentaneamente sem fala.
Demétria deixou escapar um tênue gemido de angústia. Cruzou os braços diante de sua cintura e se dobrou sobre ela mesma. Nicholas pensou que ela se comportava como ela mesma tivesse recebido a ferida. Tratou de ajudá-la, estendendo a mão para tocar suavemente seu ombro.
Demétria estava tão consumida pelo horror do que acabara de fazer, que nem sequer percebeu a proximidade de Nicholas. A batalha tinha deixado de existir para ela.
Joseph também tinha presenciado aquela morte. Em uma única e rápida ação, montou em seu cavalo, dirigindo o animal até Nicholas. Seu irmão deu um salto para afastar-se de seu caminho, no mesmo instante em que Joseph se inclinava para agarrar Demétria. Levantou-a com seus fortes braços, deixando-a virtualmente sentada na sela de montar diante dele. Deus demonstrou ser misericordioso, porque foi o lado direito de Demétria que suportou toda a força do impacto e sua coxa ferida quase não recebeu nenhuma sacudida.
A batalha já estava quase terminada. Os soldados de Joseph perseguiam as forças de Sebastian enquanto estas iam-se retirando vale abaixo.
- Termine você! - gritou Joseph a Nicholas, jogando as rédeas para dirigir os arreios de sua montaria colina acima. O animal se afastou a galope do campo de batalha, com a pureza de sua raça e resistência tornando-se evidente, quando subiu pelo traiçoeiro terreno, movendo-se com uma velocidade assombrosa.
Joseph tinha se livrado de sua capa e de seu escudo durante a batalha, e passou a utilizar suas mãos para proteger Demétria dos ramos que balançavam em seu caminho.
Demétria não queria sua consideração. Empurrou-se contra ele, tentando fazer com que ele a soltasse, preferindo o chão duro, àquele toque repugnante.
Tinha matado um homem por causa de Joseph.
Joseph não tentou acalmá-la. Agora, sua principal preocupação era colocá-los a salvo. Não fez diminuir o ritmo do galope até que estivessem bem longe da ameaça. Finalmente deteve seu cavalo com um puxão de rédeas, quando entraram em um pequeno bosque. Ali tudo estava calmo, e, além disso, era um lugar bem protegido.
Furioso consigo mesmo por ter colocado Demétria em semelhante perigo, Joseph voltou sua atenção para ela. Quando viu as lágrimas que corriam por sua face, deixou escapar um lamento cheio de frustração.
Depois tratou de tranquilizá-la.
- Já pode deixar de chorar, Demétria - disse -. Seu irmão não estava entre os mortos. Economize suas lágrimas.
Ela nem sequer percebeu que estava chorando. Quando sua mente, por fim, assimilou as palavras de Joseph, Demétria ficou tão furiosa ante aquela má interpretação de sua aflição, que ela mal conseguiu articular uma resposta. Aquele homem era realmente desprezível.
Demétria limpou as lágrimas de suas bochechas e respirou profundamente, armazenado ar fresco e uma nova fúria.
- Até hoje eu não sabia o que é o verdadeiro ódio, barão - disse-lhe -. Mas agora você acaba de dar um novo significado a essa palavra tão vil. Coloco Deus por testemunha de que vou odiá-lo até morrer. É bem possível - continuou dizendo - que me veja condenada ao inferno de qualquer maneira, e todo por sua culpa.
Falava em um tom de voz tão baixo, que Joseph se viu obrigado a inclinar-se para frente até que sua testa roçou a de Demétria, só para poder ouvir suas palavras.
Nada do que ela estava dizendo fazia sentido.
- Será que não me está escutando? - quis saber, embora mantivesse a voz tão suave como era a sua mesma. Sentia a tensão que havia nos ombros de Demétria e sabia que estava muito perto de perder o controle, por isso, tratou de voltar à calmaria. Queria ser amável e delicado com ela, uma reação que nada habitual em sua maneira de pensar, mas Joseph desculpou sua conduta dizendo para si mesmo que era unicamente por se sentir responsável por ela -. Acabo de explicar que seu irmão está a salvo, Demétria. No momento - acrescentou, decidindo ser honesto ao mesmo tempo em que a consolava.
- É você que não me está escutando - replicou Demétria. As lágrimas começaram a cair de novo, interrompendo seu discurso. Ela se calou para pôr-se de lado . Por sua causa, eu tirei a vida a um homem. Foi um grave pecado, e você tem tanta culpa disso como eu. Se não tivesse me levado com você à força, então eu não teria matado ninguém.
- Sente-se aflita porque matou um homem? - perguntou Joseph, sem poder manter afastada de sua voz a surpresa que sentia. Teve que se lembrar que Demétria era apenas uma mulher, e que coisas mais estranhas pareciam afetar o sexo frágil. Também sopesou dentro de sua cabeça tudo aquilo pelo qual tinha feito Demétria passar durante os últimos dois dias -. Eu matei muitos mais - disse, pensando que isso faria com que a consciência de Demétria se sentisse um pouco menos culpada.
Seu plano não teve nenhum êxito.
- Eu não me importo se você matou uma legião de soldados - anunciou Demétria -. Você não tem alma, assim não importa quantas vidas ceifou.
Joseph não tinha nenhuma resposta para dar àquela afirmação, e compreendeu que não adiantaria de nada discutir com Demétria. Agora estava muito afetada para poder pensar com lógica, e sem dúvida estaria também esgotada. De fato, estava tão fora de si que nem sequer podia levantar a voz.
Joseph a sustentou entre seus braços apertando-a cada vez com mais força até que Demétria deixou de se debater. Com um arquejo cheio de cansaço e se dirigindo mais a ele mesmo que a ela, murmurou:
- O que vou fazer com você?
Demétria o ouviu, e sua resposta foi muito rápida.
- Eu não me importo com o que você vai fazer comigo. - Jogou a cabeça para trás e o olhou fixamente. Então viu o corte que havia justo debaixo do olho direito de Joseph. Utilizou a manga de seu traje para conter o sangue, mas ao mesmo tempo contradisse a delicadeza de sua ação com umas palavras cheias de fúria -. Pode me deixar aqui, ou pode me matar - informou-lhe enquanto ia secando os cantos de sua ferida -. Nada do que faça mudará as coisas para mim. Não deveria ter-me levado com você, Joseph.
- Seu irmão veio atrás de você - observou Joseph.
- Não o fez - contradisse-o Demétria -. Veio atrás de você porque destruiu seu lar. Eu não tenho importância para ele. Se você apenas abrisse sua mente, sei que poderia se convencer da verdade. Mas é muito teimoso para escutar qualquer pessoa. Descobri que falar com você é inútil. Sim, é inútil! Juro que nunca voltarei a falar com você.
Seu discurso consumiu suas últimas forças. Demétria terminou de limpar o melhor que pôde a ferida sofrida por Joseph e depois se apoiou em seu peito, esquecendo-se dele.
Lady Demétria era um paradoxo. Joseph quase não pôde resistir à delicadeza com a qual ela tocou sua face, quando tentou estancar sua ferida. Não acreditava que ela tivesse consciência em nenhum momento do que estava fazendo, e de repente se lembrou de como se afrontou com Nicholas, quando estavam na fortaleza de Sebastian. Sim, ali também Demétria também tinha sido uma contradição. Demétria tinha dado um olhar sereno a Nicholas enquanto ele gritava sua ira, e apesar disso não tinha deixado de segurar, em nenhum momento, a mão de Joseph.
Agora estava furiosa com ele, enquanto o atendia. Joseph voltou a suspirar. Apoiou o queixo na cabeça de Demétria e se perguntou como era possível que uma mulher tão doce e delicada estivesse aparentada com aquele diabo.
A dormência inicial estava começando a se dissipar. Agora que a onda da ira a abandonava, a coxa de Demétria começou a palpitar dolorosamente. Sua capa ocultava dos olhos de Joseph o mal que tinha sofrido. Demétria sabia que ele não tinha percebido sua ferida, e achava uma perversa satisfação naquele fato. Era uma reação ilógica, mas, agora Demétria não parecia ser capaz de pensar razoavelmente. De repente estava tão cansada e faminta, tão dolorida, que simplesmente não podia pensar.
Os soldados se juntaram a Joseph, e em questão de minutos já estavam se dirigindo à fortaleza de Wexton. Uma hora depois, sua teimosa determinação foi a única coisa que impediu Demétria de gritar seu protesto.
A mão de Joseph tinha roçado acidentalmente na coxa ferida de Demétria, e sua capa e seu vestido apenas ofereceram algum amparo contra a abrasadora agonia. Demétria conteve seu grito. Separou os dedos de Joseph com um tapa, mas o fogo de seu contato continuava presente, inflamando a ferida até levá-la a um nível insuportável.
Demétria soube que ia vomitar.
- Temos que parar um momento - disse a Joseph. Queria gritar, e também chorar, mas tinha jurado que ele não destruiria o que ainda restava de seu doce caráter.
Demétria sabia que ele havia ouvido sua solicitação. Seu aceno de cabeça confirmou isso, mas mesmo assim continuaram cavalgando e, depois de uns minutos, Demétria chegou à conclusão que Joseph tinha decidido não atender seu pedido.
Que besta tão desumana era aquele homem! Embora isso lhe proporcionasse pouco consolo, ela mentalmente fez uma lista de nomes insultantes que queria despejar sobre ele. Recorreu a todas as palavras injuriosas que podia se lembrar, apesar de seu vocabulário de palavras cruéis ser limitado. Isso a satisfez, até que percebeu que provavelmente estivesse se rebaixando ao nível de Joseph. Maldição, ela era uma mulher doce e carinhosa!
Seu estômago se negava a se acalmar. Demétria se lembrou de seu juramento de não voltar a lhe dirigir a palavra nunca mais, mas agora se via obrigada, pelas circunstâncias, a repetir seu pedido.
- Se não mandar fazer uma parada, vou vomitar em cima de você - disse.
Sua ameaça conseguiu uma reação imediata. Joseph elevou a mão, dando a ordem de parar. Um instante depois já tinha desmontado de seu cavalo e estava baixando Demétria ao chão, antes mesmo que ela pudesse fazer frente a semelhante ação.
- Por que nos detivemos? Pergunta vinha de Nicholas, quem também tinha desmontado e corria para seu irmão -. Já estamos quase em casa.
- Por lady Demétria - respondeu Joseph, não dando mais nenhuma informação a Nicholas.
Demétria já se dirigia ao tortuoso caminho para a intimidade que as árvores ofereciam, mas se deteve quando ouviu a pergunta de Nicholas.
- Pode ficar aqui e me esperar, Nicholas - disse.
Parecia uma ordem. Nicholas levantou uma sobrancelha, demonstrando sua surpresa e se voltou para seu irmão. Joseph estava franzindo o cenho enquanto contemplava Demétria, e Nicholas chegou à conclusão de que seu irmão estava irritado pela maneira com que Demétria acabava de lhe falar.
- Acaba de passar por uma prova muito dura - apressou-se em desculpá-la, em caso de Joseph decidir em fazê-la pagar de alguma maneira.
Joseph sacudiu a cabeça e continuou olhando para Demétria até que ela desapareceu dentro do bosque.
- Algo vai mal - murmurou, franzindo o cenho enquanto tentava descobrir o estava preocupando.
Nicholas suspirou.
- Talvez esteja doente?
- E, e ameaçou com... - Joseph se dispôs a seguir Demétria sem que chegasse a concluir seu comentário. Nicholas tentou detê-lo com a mão.
- Dê-lhe um pouco de intimidade, Joseph. Ela vai retornar conosco - disse -. Não há nenhum lugar onde possa se esconder - argumentou.
Joseph afastou a mão de seu irmão. Tinha visto a expressão de dor nos olhos de Demétria, e também se fixou na extremada rigidez com que se movia. Joseph soube instintivamente que um estômago enjoado não era a causa daquilo, porque se fosse assim ela não teria favorecido seu peso sobre a perna direita. E se estivesse disposta a vomitar, teria se afastado correndo de seus soldados em vez de andar. Não, algo ia mal e Joseph estava decidido a averiguar o que era.