sábado, 8 de dezembro de 2018

ESPLENDOR DA HONRA Capitulo 3


Tratar com injustiça desonra mais que padecê-la.
PLATÃO, Gorgias
Foram para o norte, cavalgando sem parar durante o resto da noite e a maior parte do dia seguinte, detendo-se só em um par de ocasiões para dar uma pausa a seus cavalos da árdua marcha imposta pelo barão. Demétria se permitiu desfrutar de alguns momentos de intimidade, mas o fato de suas pernas apenas conseguirem sustentar seu peso convertia a tarefa de atender suas necessidades pessoais em uma exaustiva prova; além disso, antes que tivesse a ocasião de estirar seus músculos, que não paravam de protestar, voltava a ser içada ao cavalo de Joseph.
Pelo fato de serem muitos a lhes proporcionar segurança, Joseph decidiu seguir pelo caminho principal. Era um péssimo atalho na melhor das hipóteses, com muitos arvoredos e galhos nus, que convertiam a marcha em um desafio permanente, inclusive para o mais acostumado dos cavalheiros. Os escudos dos homens permaneciam levantados durante a maior parte do tempo. Demétria, entretanto, achava-se bem protegida, firmemente abrigada como estava debaixo da capa de Joseph.
Os soldados estavam bem servidos com seus pesados equipamentos, resguardados para aqueles que iam à frente da tropa e cavalgavam com as mãos livres, e graças ao estado de abandono do atalho, não tinha efeito maior sobre eles, que os fazia ir um pouco mais devagar.
A cruel tortura que foi aquela cavalgada prolongou-se durante quase dois dias. Quando Joseph anunciou que iam passar a noite em uma clareira que tinha avistado, Demétria já estava firmemente convencida de que o barão não era humano. Tinha ouvido como os homens se referiam ao líder deles como um lobo e entendeu muito bem aquele odioso paralelismo, porque Joseph luzia o perfil dessa terrível besta de presa em cima de seu brasão branco e azul. Aquilo a levou a fantasiar que a mãe de seu captor tinha que ter sido uma diabinha do inferno e seu pai um enorme e feio lobo, e que essa era a única razão pela qual podia chegar a manter uma marcha tão exaustiva e desumana.
Quando por fim se detiveram para passar a noite, Demétria estava morta de fome. Sentou-se em um penhasco e contemplou como os soldados se ocupavam de suas montarias. Essa era a primeira preocupação de um nobre, decidiu Demétria, sabendo como um nobre perdia toda efetividade sem seu cavalo. Sim, os cavalos vinham primeiro.
Depois, acenderam pequenas fogueiras, de oito a dez homens ao redor de cada uma delas, e quando todos os fogos ficaram prontos, houve ao menos trinta fogueiras, perfilando em todas elas os cansados ombros dos soldados, que ao fim eram inteligentes para descansar. A comida chegou por último, um parco jantar consistente em pão duro e queijo que tinha ficado amarelo. Chifres cheios de uma cerveja com gosto de sal circularam também entre os homens, mas Demétria percebeu que os soldados só bebiam uma pequena porção dela. Pensou que a cautela possivelmente se impusesse sobre o desejo de desfrutar da bebida,  porque certamente precisariam estar o mais sóbrio possível durante aquela noite, acampados como estavam em uma posição tão vulnerável.
Havia sempre o constante perigo dos bandos formados por homens que, tendo perdido seu lar, acabavam por se converterem em abutres que esperavam a ocasião de cair sobre quem fosse mais fraco que eles, e também existiam as bestas selvagens que percorriam os bosques com uma intenção muito parecida.
O escudeiro de Joseph tinha recebido a ordem de ocupar-se em atender as necessidades de Demétria. O moço se chamava Ansel, e Demétria em seguida soube pelo cenho franzido que o trabalho que tinham-lhe atribuído não era muito de seu agrado.
O único consolo de Demétria era saber que a cada légua que iam avançando para o norte, aproximava-se uma légua a mais de seu próprio destino secreto. Antes de o barão de Wexton interferir em seus planos, ela esteve planejando sua própria fuga. Ia para a casa de sua prima Edwythe na Escócia. Agora Demétria compreendia quão ingênua tinha sido ao pensar que seria capaz de concluir semelhante empreitada. Sim, já tinha percebido sua loucura e inclusive admitia que não conseguiria durar mais de um dia, abandonada em seus próprios recursos, montando a única égua do estábulo de Sebastian que não teria feito com que ela caísse de sua sela. A égua, com a garupa bastante caída e já muito velha, não teria a resistência necessária para semelhante viagem. Sem uma montaria robusta e uma roupa adequada, a fuga não teria sido mais que uma forma de suicídio. E o mapa que Demétria tinha desenhado a toda pressa, apoiando-se na memória cheia de buracos de Simon, a teria feito andar em círculos.
Embora admitisse que, na realidade, não era mais que um sonho insensato, Demétria decidiu que teria que seguir agarrando-se a ele. Agarrou-se àquele brilho de esperança pela singela razão de que era quão único o que tinha. Joseph certamente vivia perto o bastante da fronteira escocesa para que se pudesse chegar até ela a pé. Quanto mais distante poderia estar a nova casa da prima de Demétria? Possivelmente talvez pudesse ir até ali andando.
Os obstáculos terminariam por vencê-la, caso fosse permitido chegar a encontrar um ponto de apoio. Demétria deixou a razão de lado e se concentrou em fazer uma nota de tudo o que ia precisar. Primeiro um cavalo que pudesse levá-la, logo as provisões e, em último lugar, a bênção de Deus. Depois de ter pensado um pouco, Demétria decidiu que tinha invertido a ordem de importância, e acabava de colocar Deus no primeiro lugar da nota e o cavalo no último, quando viu Joseph dirigindo-se para o centro do acampamento. Santo céu, acaso não era Joseph o maior de todos os obstáculos aos quais teria que enfrentar? Sim, Joseph, parte homem e parte lobo, seria o obstáculo mais difícil de todos que deveria superar.
Joseph não havia dito uma única palavra desde que tinham saído da fortaleza de Sebastian. Durante esse tempo, Demétria esteve a ponto de enlouquecer de preocupação de tanto pensar naquela apaixonada afirmação de que agora lhe pertencia. E o que se supunha que significava isso exatamente? Desejou ter tido a coragem de exigir uma explicação. Mas agora o barão se mostrava tão frio e distante com ela, que Demétria achava muito aterrador para que se sentisse capaz de aproximar-se dele.
Deus, estava esgotada. Não podia se preocupar com ele agora. Quando tivesse descansado, encontraria alguma maneira de escapar. Esse era o primeiro dever de uma prisioneira, não?
Demétria sabia que ela não tinha nenhuma experiência no que dizia respeito a tais questões. De que servia saber ler e escrever? Ninguém chegaria a saber jamais daquela sua insólita habilidade, porque não se considerava aceitável que uma mulher tivesse recebido semelhante tipo de instrução. Mas se a maioria dos nobres nem sequer eram capazes de escrever seus próprios nomes! Confiavam nos clérigos para que se encarregassem de desempenhar aquelas tarefas tão carente de significado para eles.
Demétria não culpava seu tio por sua falta de formação. Aquele sacerdote, a quem sempre tinha querido tanto, sentiu prazer em lhe ensinar todas as histórias da antiguidade. Aquela que contava as aventuras de Ulisses terminou sendo a favorita de Demétria. O guerreiro mitológico se converteu em seu companheiro quando era uma garota que passava todo seu tempo terrivelmente assustada. Demétria fingia que Ulisses estava sentado junto dela durante as longas e escuras noites, ajudando-a a mitigar seu medo de que Sebastian viesse e a levasse de volta para casa.
Sebastian! Seu negro nome bastava para fazer com que formasse um nó em seu estômago. Sim, seu irmão era a verdadeira razão pela qual Demétria agora carecia de todas as habilidades necessárias para sua sobrevivência. Nem sequer era capaz de montar um cavalo, pelo amor de Deus! Disso também Sebastian era culpado. Seu irmão a levou para cavalgar umas quantas vezes, quando ela tinha seis anos, e Demétria ainda lembrava daquelas saídas com tanta clareza como se tivessem acontecido no dia anterior. Como Demétria tinha feito papel ridículo, ou ao menos isso era o que Sebastian havia gritado, saltando em torno da sela como um amontoado de feno mal amarrado no lugar!
E assim que seu irmão se deu conta de quão assustada estava Demétria, o que fez foi amarrá-la à sela de montar e dar uma palmada na garupa do cavalo para que se lançasse em um desenfreado galope através dos campos.
O terror de Demétria tinha excitado seu irmão. Quando ela finalmente aprendeu a ocultar seu medo, Sebastian cessou por fim seu sádico jogo.
Até ali aonde chegava sua memória, Demétria sempre soube que não agradava, nem a seu pai nem a seu irmão, e tinha provado de todas as formas que conhecia para fazer com que a quisessem, ainda que fosse só um pouquinho. Quando Demétria fez oito anos a enviaram para o padre Berton, o irmão mais novo de sua mãe, e o que a princípio seria só uma curta visita, converteu-se em longos anos cheios de paz. O padre Berton era o único parente vivo do lado materno da família. O sacerdote fez o que pôde para criá-la e repetia constantemente, até que finalmente Demétria quase chegou a acreditar nele, que eram seu pai e seu irmão os verdadeiros estúpidos, e não ela.
Oh, sim, seu tio era um homem muito bom e carinhoso cujas amáveis maneiras terminaram formando parte do caráter de Demétria. O padre Berton lhe ensinou muitas coisas, nenhuma das quais era tangível, e a queria tanto como qualquer pai de verdade poderia querer uma filha. Explicou-lhe que Sebastian desprezava todas as mulheres, mas nisso Demétria não acreditou. Seu irmão só importava com suas irmãs mais velhas. Tanto Camille como Sara tinham sido enviadas a magníficas mansões para que fossem adquirindo a educação apropriada, e as duas irmãs contavam com um dote impressionante para contribuir no casamento, embora só Camille tenha se casado.
O padre Berton também havia lhe dito que se o pai de Demétria não queria nada com ela, era porque ela se parecia muito com sua mãe, uma mulher delicada e carinhosa com quem ele se casou, e que depois se converteu quase que imediatamente após trocarem seus votos. Seu tio não sabia qual tinha sido a razão pela qual o pai de Demétria havia mudado de atitude, mas mesmo assim atribuía a culpa a sua alma.
Demétria quase não guardava nenhuma lembrança dos primeiros anos, embora uma sensação agradável envolvesse de todo seu ser, a cada vez que pensava em sua mãe. Naquela época Sebastian não estava ali com muita frequência para zombar dela, e Demétria estava adequadamente protegida pelo amor de sua mãe.
Sebastian era o único que dispunha das respostas às perguntas que Demétria fazia. Seu irmão possivelmente explicaria tudo isso algum dia, e então ela o entenderia. E com a compreensão chegaria a cura, não é?
Deus, decidiu Demétria, tenho que afastar de minha cabeça todos estes pensamentos tão sombrios. Deixou-se escorregar do alto do penhasco e foi dar um passeio pelo acampamento, bem afastada dos homens.
Quando ela virou e entrou no denso bosque, ninguém a seguiu e isso permitiu que Demétria pudesse se ocupar em satisfazer as exigências de seu corpo. Já estava retornando por onde tinha vindo, quando viu um pequeno riacho. A superfície da água estava congelada, mas Demétria utilizou um galho para quebrar o gelo. Ajoelhou-se junto ao riacho, lavou suas mãos e sua face. As águas daquele riacho estavam geladas demais para enrugar as pontas de seus dedos, mas aquele líquido cristalino tinha um sabor maravilhoso.
Então Demétria sentiu que alguém acabava de parar atrás dela. Voltou-se com tanta rapidez que esteve a ponto de perder o equilíbrio. Era Joseph, elevando-se sobre ela.
- Venha, Demétria - disse-lhe -. É hora de descansar.
Não deu tempo para que ela respondesse a sua ordem, porque se inclinou sobre ela e a colocou em pé. Sua calosa mão era tão grande que rodeou as suas. A pegada de Joseph era firme, mas seu contato era suave e não a soltou até que chegaram à abertura de sua tenda, uma estrutura de estranho aspecto consistente em peles de animais selvagens que formavam uma cúpula graças aos grossos e rígidos troncos que as sustentavam. As peles manteriam o vento à raia, já que começava a aumentar. Outra pele cinza tinha sido estendida em cima do chão dentro da tenda, com a óbvia intenção de que foi utilizada como cama de armar. O resplendor da fogueira mais próxima projetava sombras que dançavam sobre as peles, fazendo com que a tenda parecesse cálida e convidativa.
Joseph indicou com um gesto que ela entrasse. Demétria se apressou a lhe obedecer, mas uma vez dentro da tenda descobriu que não conseguia ficar quieta. As peles de animal tinham absorvido uma grande parte da umidade do chão, e Demétria sentiu como se a tivessem deitado em cima de um enorme bloco de gelo.
Joseph ficou imóvel com os braços cruzados na frente de seu enorme peito e a contemplava, enquanto ela tentava de se acomodar. Demétria manteve o rosto impassível, jurando que morreria antes de oferecer uma única palavra de queixa a Joseph.
De repente ele voltou a incorporá-la com um brusco puxão, faltando muito pouco para que derrubasse a tenda em sua pressa. Tirou sua capa dos ombros, então Joseph fincou um joelho no chão e estendeu o objeto em cima das peles de animal.
Demétria não entendia qual poderia ser sua intenção. Tinha pensado que a tenda fosse unicamente para ela, mas, na sequência, Joseph se acomodou no interior e, estendendo seu corpo inteiro, ocupou a maior parte do espaço. Demétria começou a se virar, enfurecida com a maneira com que ele tinha puxado sua capa para sua própria comodidade. Por que não se limitou a deixá-la na fortaleza de Sebastian se tinha intenção de fazê-la morrer de frio, em vez de arrastá-la com ele por meio mundo?
Nem sequer teve tempo de soltar uma exclamação abafada, porque Joseph a prendeu com a celeridade de um raio. Demétria caiu em cima dele e deixou escapar um gemido de protesto. Quase não tinha conseguido meter dentro de seu peito um pouco de ar antes que Joseph rolasse para o lado, levando-a com ele. Então, estendeu sua capa por cima dos dois, deixando Demétria presa dentro de seu abraço. Seu rosto ficou ficado voltado para a base do pescoço de Joseph, e alto de sua cabeça estava justo abaixo do queixo dele.
Demétria, horrorizada ante uma posição tão íntima, tratou de se separar. Empregou até o último grama de energia que possuía, mas a pressão de Joseph era muito forte para que pudesse soltá-la.
- Não posso respirar - murmurou junto ao pescoço de Joseph.
- Pode sim - respondeu ele.
Demétria acreditou ouvir diversão em sua voz. Isso a enfureceu quase tanto como a arrogância de sua atitude. Como ele se atrevia a decidir se ela podia respirar ou não?
Demétria estava muito irritada para ter medo. De repente percebeu que suas mãos continuavam livres de amarras, e começou a dar tapas nos ombros de Joseph até que suas palmas da mão arderam. Joseph tinha tirado a cota de malha antes de entrar na tenda, por isso agora seu peito só estava coberto por uma camisa de algodão. O fino tecido ficava tensamente estirado sobre seus largos ombros, marcando os músculos fortes. Demétria podia sentir a força que irradiava de seu corpo através da suavidade do algodão. Deus, não havia nem um só grama de gordura para agarrar e beliscar! A pele de Joseph era tão inflexível como sua natureza teimosa.
E, entretanto, havia uma diferença muito clara. O peito de Joseph em contato com sua bochecha era uma presença cálida, quase quente, e terrivelmente convidativa no que se referia a aconchegar-se junto dele. Além disso, cheirava muito bem, a couro e masculinidade, e Demétria não pôde evitar reagir. Estava esgotada. Sim, essa era a razão pela qual a proximidade de Joseph tinha um efeito tão inquietante sobre ela. Mas por que seu coração estava acelerado?
A respiração de Joseph esquentava seu pescoço, reconfortando-a. Como podia estar sentindo aquilo? Demétria estava tão confusa que nada mais parecia ter sentido para ela. Sacudiu a cabeça, decidida a espantar aquela sensação de sonolência que estava invadindo suas boas intenções, e logo fechou as mãos sobre a camisa de Joseph e começou a puxá-la.
Joseph deve ter ficado aborrecido por ela se debater. Demétria o ouviu suspirar uns instantes antes de ele agarrar suas mãos e colocá-las debaixo da camisa, fazendo com que suas palmas da mão ficassem sobre seu peito. A grossa capa de pelo que cobria a cálida pele de Joseph fez com que Demétria sentisse uma suave comichão nas pontas dos dedos.
Demétria se perguntou como era possível que estivesse sentindo tanto calor, quando lá fora estava tão frio. A proximidade de Joseph era como um puxão erótico e sensual que pesava sobre seus sentidos, alagando-a com umas sensações que Demétria nunca soube possuir. Sim, aquilo era erótico, o que sem sombra de dúvida também o tornava pecaminoso e obsceno, porque a pélvis de Joseph estava pressionada contra a união das pernas de Demétria. Agora Demétria podia sentir a dureza de Joseph precisamente ali, intimamente aninhada junto a ela. A camisola que tinha colocado demonstrava ser uma proteção totalmente inadequada contra a virilidade de Joseph, e a falta de experiência de Demétria no que dizia respeito àquelas questões não proporcionava nenhum tipo de amparo contra as estranhas sensações, capazes de deixá-la totalmente perplexa, que aquela situação estava lhe provocando. Por que não sentia raiva do contato de Joseph? O certo era que Demétria não sentia raiva, mas falta de ar.
Então um pensamento espantoso se infiltrou na mente de Demétria e fez que exalasse um arquejo de horror. Não era precisamente aquela posição que um homem adotava quando se acoplava com uma mulher? Demétria se afligia com aquele pensamento durante uns minutos intermináveis e logo se apressou a descartar esse temor. Lembrava-se de que a mulher tinha que estar deitada sobre suas costas, e embora não estivesse muito certa de qual seria a maneira exata em que se fazia aquilo, não acreditava que estivesse correndo um perigo autêntico. Em uma ocasião tinha ouvido Marta, enquanto falava com as outras criadas durante uma visita, e lembrava que aquela mulher tão tosca sempre começava cada uma das luxuriosas aventuras que relatava com a observação de que ela estava deitada de costas. Sim, lembrou Demétria com um intenso alívio, Marta tinha sido muito precisa. «Tombada sobre minhas costas estava eu», começava sempre. Agora Demétria lamentava não ter ficado para escutar o resto das atrevidas histórias daquela mulher.
Deus, essas era outra das áreas de sua educação que tinha sido descuidada infelizmente! Então Demétria ficou muito zangada, porque uma dama decente deveria ter este tipo de preocupação de qualquer maneira.
Tudo era culpa de Joseph, naturalmente. Será que ele a abraçava de uma maneira tão íntima, única e exclusivamente para zombar dela? Demétria estava perto dele o bastante para que pudesse sentir a força de seus fortes músculos. Se quisesse, Joseph podia chegar a esmagá-la. Demétria estremeceu diante semelhante imagem e imediatamente afastou seus temores. Não queria provocar o bárbaro. Ao menos agora, a nova posição de suas mãos protegia seus seios, e Demétria agradeceu que fosse assim. Sua gratidão teve uma vida muito curta, entretanto, porque logo que acabava de pensar que no fundo devia agradecer essa pequena misericórdia, Joseph mudou de posição e então os seios de Demétria ficaram presos a ele. Seus mamilos endureceram, envergonhando-a ainda mais.
De repente Joseph voltou a se mexer. - Que diabos...? - disse, rugindo a pergunta inacabada junto à orelha de Demétria. Ela não soube o que tinha provocado aquele desabafo por parte dele, só que ia ficar surda o resto de sua vida.
Quando Joseph deu um salto, resmungando um juramento que ela não pôde evitar ouvir, Demétria se apressou a se separar. Olhou para Joseph pela extremidade do olho. Seu captor se incorporou sobre um cotovelo e estava procurando algo debaixo dele.
Então, e precisamente no mesmo instante em que a mão de Joseph levantava a arma, Demétria se lembrou da adaga que pertencia ao escudeiro, que ela havia escondido no forro de sua capa.
Ela não pôde evitar franzir o cenho.
Joseph não pôde evitar sorrir.
Demétria ficou tão surpresa por aquele sorriso tão cheio de espontaneidade, que faltou pouco para devolvê-lo. Em seguida, ela notou que seu sorriso não alcançava seus olhos, e decidiu que, afinal de contas, seria melhor não sorrir.
- Para ser uma criatura tão tímida está demonstrando ter muitos recursos, Demétria - disse Joseph.
Sua voz não poderia ser mais doce e suave. Acabava de elogiá-la ou estava zombando dela? Demétria não sabia o que pensar, por isso decidiu não contar que tinha se esquecido da existência da arma. Se chegasse a admitir aquela verdade diante de Joseph, então não haveria dúvida de que ele a tomaria por uma estúpida.
- Foi você quem me capturou - lembrou-lhe -. Se demonstrei ter recursos, é apenas porque a honra me obriga a escapar. Este é o dever de uma prisioneira.
Joseph franziu o cenho.
- Ofende-se com minha honestidade, milord? - Perguntou Demétria -. Possivelmente seja melhor eu não lhe dirigir a palavra. Agora eu gostaria de dormir - acrescentou -. E vou tratar de esquecer, inclusive, o fato de que está aqui.
Para demonstrar que tinha falado a sério, Demétria fechou os olhos.
- Venha cá, Demétria.
Aquela ordem pronunciada em um tom tão suave fez com que um calafrio de medo descesse rapidamente pelas costas de Demétria, e um nó de tensão se formou dentro de seu estômago. Ele estava fazendo isso outra vez, decidiu, porque conseguia assustá-la a tal ponto que não conseguia nem respirar. E Demétria já estava cheia de tudo isso. Não acreditava que houvesse muito mais medo dentro dela. Abriu os olhos para olhar Joseph, e quando viu que a adaga agora estava apontada em sua direção, deu-se conta de que pensando melhor ainda ficava uma reserva de medo afinal de contas.
Que covarde eu sou, pensou enquanto se ia aproximando lentamente de Joseph. Ela parou ao seu lado, de frente para ele, apenas a poucos centímetros de distância.
- Pronto, já está satisfeito? - perguntou.
Um instante depois supôs que ele não estivesse nada satisfeito, quando se viu deitada sobre suas costas, com Joseph elevando-se em cima dela. Demétria o tinha tão perto que podia ver os pontinhos prateados que reluziam dentro do cinza de seus olhos.
Demétria tinha ouvido dizer que os olhos refletiam os pensamentos que passavam pela mente, mas nem mesmo assim pôde saber o que se passava na cabeça de Joseph. Isso a preocupou.
Joseph observou Demétria. A confusão de emoções, que ela estava mostrando sem querer, acabava por diverti-lo ao mesmo tempo em que o irritava. Sabia que Demétria tinha muito medo dele, no entanto não chorava nem suplicava. E que bonita era, Santo Deus! Um respingo de sardas cobria a ponta de seu nariz. Joseph achou aquele pequeno defeito do mais atraente. Sua boca também era atraente. Joseph se perguntou qual seria o sabor daquela boca e sentiu-se excitado só por aquele pensamento.
- Vai passar a noite toda me olhando? - perguntou Demétria.
- Possivelmente o faça - respondeu Joseph -. Se eu desejasse fazê-lo - acrescentou, sorrindo pela maneira com que ela tentou não franzir o cenho diante de sua resposta.
- Então eu terei que ficar olhando para você durante toda a noite - respondeu Demétria.
- E a que se deve isso, Demétria? - ele perguntou com doçura.
- Se pensa que vai poder se aproveitar de mim enquanto durmo, barão, está muito equivocado.
Ela estava muito indignada.
- E como vou me aproveitar de você, Demétria?
Agora ele estava sorrindo e agora sim tratava-se de um autêntico sorriso, porque refletia a profundidade de seus olhos.
Demétria desejou ter ficado em silêncio. Deus, agora era ela mesma quem estava colocando ideias obscenas na cabeça dele!
- Preferia não falar nesse assunto - conseguiu balbuciar finalmente -. Sim, esqueça o que eu disse, rogo-lhe isso.
- Mas não quero esquecer - respondeu Joseph -. Pensa que esta noite vou satisfazer minha luxúria e que vou tomá-la enquanto descansa?
Joseph baixou a cabeça até que ficou a um escasso sopro de distância do rosto de Demétria. Sentiu prazer em ver como ela se ruborizava, e inclusive chegou ao extremo de expressar sua aprovação com um grunhido.
Demétria permanecia tão imóvel como uma corça, presa por suas próprias preocupações.
- Você não vai me tocar - balbuciou subitamente -. Certamente você está cansado demais para pensar em tais coisas... e além disso acampamos em uma clareira... Não, não me tocará - concluiu.
- Possivelmente.
E o que podia significar aquilo exatamente? Demétria viu o brilho misterioso que reluzia nos olhos de Joseph. Estaria sentindo um autêntico prazer sobre sua óbvia inquietação?
Decidiu que não ia permitir que Joseph se aproveitasse dela sem que antes houvesse uma boa briga. Com esse pensamento na cabeça, atingiu-o, dirigindo seu punho justo abaixo de seu olho direito. O murro acertou totalmente o alvo escolhido, mas Demétria pensou que ela tinha recebido mais dor do que ele. De qualquer maneira, foi Demétria quem gritou de dor, porque Joseph nem sequer chegou a pestanejar. Deus, ela provavelmente havia quebrado a mão e por nada!
- É feito de pedra - murmurou Demétria.
- Por que fez isso? - perguntou Joseph, em um tom cheio de curiosidade.
- Para você saber que lutarei com você até a morte se tentar me forçar - balbuciou Demétria. Pareceu-lhe ser um discurso muito valente, mas a força que suas palavras pudessem ter ficou arruinada pelo tremor de sua voz. Suspirou, sentindo-se muito desanimada.
Joseph voltou a sorrir.
- Até a morte, Demétria? - perguntou depois.
Ao observar a expressão realmente horrível que acabava de aparecer no rosto dele, Demétria decidiu que a ideia lhe parecia agradável.
- Você se apressa em tirar conclusões - comentou Joseph -. Isso é um defeito.
- Você me ameaçou - contra-atacou Demétria -. Isso é um defeito ainda maior.
- Não - ele arguiu -. Foi você quem sugeriu isso.
- Sou a irmã de seu inimigo - recordou-lhe Demétria, sentindo-se muito satisfeita com a carranca que o lembrete provocou -. Não pode mudar esse fato - acrescentou, como advertência.
A tensão desapareceu imediatamente dos ombros de Demétria. Ela deveria ter pensado neste argumento mais cedo.
- Mas com os olhos fechados, eu não saberei se é a irmã de Sebastian ou não - disse Joseph -. Há rumores de que você vivia com um padre depravado e que você servia de prostituta para ele. Mas na escuridão, isso não me incomodaria. Todas as mulheres são iguais quando se trata de cama.
Ela desejou poder voltar a atingi-lo. Demétria ficou tão indignada com aquelas palavras venenosas, que seus olhos se encheram de lágrimas. Queria gritar, dizer que o padre Berton estava em boas relações com seu Deus e sua igreja, e que além disso casualmente era seu tio. O sacerdote era a única pessoa que se importava com Demétria, o único que a amava. Como Joseph ousava sujar a reputação de seu tio?
- Quem lhe contou essas histórias? - perguntou, com a voz transformada em um murmúrio enrouquecido.
Joseph pode ver até que ponto suas palavras acabaram por feri-la. Então soube que todas as histórias eram justamente o que ele tinha suspeitado que eram, meras falsidades. Demétria não podia esconder sua dor. Além disso, ele já tinha percebido sua inocência.
Demétria estava destroçada com suas palavras cheias de malícia.
- Você acha que eu vou tentar convencê-lo de que os falatórios que você ouviu sobre mim não são verdadeiros? - Perguntou Demétria -. Bem, reflita outra vez, Barão. Acredite no que quiser. Se você acha que eu sou uma prostituta, então eu sou prostituta.
Seu acesso de cólera não pôde ser mais veemente
ira que Joseph tinha presenciado desde que a tornou prisioneira. De repente, sentiu-se fascinado por aqueles
incríveis olhos azuis que estavam cintilando com tamanha indignação. Sim, não restava dúvida de que Demétria era inocente.
Decidiu colocar fim naquela conversa para assim Demétria seria poupada de mais sofrimento.

- Durma - ele ordenou.
- Como posso dormir com o medo de que você e aproveite de mim durante a noite? - perguntou ela.
- Realmente pensa que seria capaz de continuar dormindo enquanto eu fizesse isso com você? - perguntou Joseph em um tom cheio de incredulidade. Deus, ela acaba de insultá-lo, mas mesmo assim ele compreendeu que Demétria era muito ingênua para saber disso. Joseph sacudiu a cabeça -. Se eu decidisse me aproveitar de você, tal como você o descreve, eu prometo acordá-la antes. Agora feche os olhos e durma.
Atraiu-a para seus braços, obrigando suas costas a ficarem unidas a seu peito. O braço de Joseph a envolveu de uma maneira que não podia ser mais íntima, repousando sobre a curva de seu seio. E depois estendeu a capa por cima dos dois, resolvido a expulsar Demétria de sua mente.
Dizê-lo foi mais fácil que fazê-lo. O aroma de rosas envolvia Demétria, e o corpo dela parecia tão suave perto dele. Sua proximidade era quase inebriante. Joseph soube que o sono demoraria um bom tempo para reclamá-lo.
- Como você o chamaria?
A pergunta de Demétria chegou até ele debaixo da capa que os cobria. Sua voz soou um pouco abafada pelo tecido, mas Joseph ouviu até a última palavra do que havia dito. Depois teve que repassar mentalmente toda a conversa que tinham mantido, antes de ele entender sobre o que ela estava perguntando.
- Aproveitar-me de você? - perguntou, esclarecendo sua pergunta.
Um instante depois sentiu como ela assentia com a cabeça.
- Violação - disse Joseph, murmurando aquela palavra tão execrável no alto da cabeça de Demétria.
Demétria se incorporou de repente, atingindo o queixo de Joseph com a cabeça em sua pressa. A paciência dele começava a se esgotar. Decidiu que nunca deveria ter falado com ela.
- Nunca possuí nenhuma mulher pela força, Demétria - disse -. Sua virtude está a salvo. E agora, durma.
- Nunca? - disse Demétria, sussurrando sua pergunta.
- Nunca! - disse Joseph, gritando sua resposta.
Demétria acreditou. Era muito estranho, mas agora se sentia a salvo e sabia que não lhe faria mal enquanto dormisse. Sua proximidade já estava começando a reconfortá-la de novo.
O calor de Joseph não demorou a agir como uma droga para fazê-la dormir. Aconchegou-se um pouco mais a Joseph, ouviu-o gemer quando acomodou suas costas junta ao corpo de Joseph para ficar mais cômoda, e se perguntou o que estaria incomodando-o, agora. Quando Joseph a segurou pelo quadril e a manteve imóvel, Demétria percebeu que seus movimentos mantinham-no acordado.
Seus sapatos tinham caído de seus pés, e Demétria os deslizou lentamente entre as panturrilhas de Joseph para pegar um pouco mais de seu calor. Teve muito cuidado para não se mexer demais por medo de voltar a irritá-lo.
A cálida respiração de Joseph roçava seu pescoço. Demétria fechou os olhos e suspirou. Sabia que deveria resistir à tentação, mas o calor de Joseph a agitava ao mesmo tempo em que a tranquilizava. Lembrou-se de uma de suas histórias favoritas a respeito de Ulisses, aquela que contava suas aventuras com as sereias. Sim, o calor de Joseph parecia cortejá-la assim como a canção que aquelas ninfas mitológicas cantaram para atrair Ulisses e seus soldados a uma destruição certa. Ulisses soube ser mais inteligente que as sereias e colocou cera nos ouvidos de seus homens para bloquear aquele som irresistível.
Demétria desejou ser tão ardilosa e cheia de recursos como o épico guerreiro.
O vento assobiava ao redor dela choramingando uma triste melodia, mas Demétria estava bem protegida, firmemente estreitada entre os braços de seu captor. Fechou os olhos e então aceitou a verdade. A canção da sereia a tinha capturado.
Só despertou uma vez durante a noite. Suas costas tinham suficiente calor, mas seu peito e os braços estavam ficando gelados. Sempre se movendo muito devagar para não perturbar o sono de Joseph, Demétria se virou entre seus braços. Apoiou a bochecha no ombro de Joseph para que lhe servisse de travesseiro e deslizou as mãos debaixo de sua camisa.
Não estava completamente acordada quando Joseph começou a esfregar sua frente com o queixo, Demétria suspirou satisfeita e se aninhou um pouco mais. As costeletas de Joseph faziam cócegas em seu nariz. Demétria jogou a cabeça para trás e foi abrindo os olhos lentamente.
Joseph olhava para ela fixamente. Sua expressão, tão cálida e cheia de ternura, tinha renunciado às defesas de antes. Mas sua boca parecia ter uma dura firmeza, e Demétria se perguntou o que sentiria caso Joseph finalmente a beijasse.
Nenhum dos dois disse uma única palavra, mas quando Demétria foi para Joseph, ele a recebeu na metade do caminho.
Demétria tinha um gosto tão bom como ele sabia que ela teria. Deus, que suave e convidativa era! Não estava completamente acordada e por isso não resistiu, embora por esta razão sua boca não estivesse aberta o suficiente para que ele pudesse penetrá-la. Joseph resolveu aquele problema rapidamente fazendo-a baixar o queixo com o polegar, e então colocou sua língua dentro da boca de Demétria antes que ela pudesse adivinhar sua intenção.
Capturou o arquejo afogado que saiu dela e então deu seu próprio gemido.
Quando Demétria utilizou timidamente sua própria língua para acariciar a dele, Joseph a deitou sobre suas costas e se colocou entre suas pernas. Suas mãos sustentavam os lados de sua face, mantendo-a imóvel para que recebesse seu delicado ataque.
As mãos de Demétria estavam presas debaixo da camisa de Joseph. Então seus dedos começaram a acariciar seu peito, fazendo com que a pele de Joseph ficasse febril.
Joseph queria chegar a conhecer todos seus segredos e satisfazer seu desejo ali mesmo e naquele preciso instante, e tudo porque Demétria se mostrava tão maravilhosamente disposta à presença dele.
O beijo chegou a ficar tão intenso e abrasador que Joseph soube que corria perigo de perder o controle. Sua boca moveu-se uma e outra vez sobre a de Demétria para penetrar, tomar e acariciar com sua língua. Deus, era como se nunca pudesse chegar a saciar-se dela!
Foi o beijo mais incrível que ele alguma vez experimentou, e Joseph não teria colocado fim nele se, de repente, ela não começasse a tremer. Um suave gemido escapou das profundezas da garganta de Demétria, e aquele som tão sensual quase conseguiu fazer com que ele perdesse a razão.
Quando Joseph se separou bruscamente dela, Demétria ficou muito atônita para que pudesse reagir. Ele deitou sobre suas costas com os olhos fechados, e a única indicação que ele deu sobre aquele beijo foi sua áspera e entrecortada respiração.
Demétria não sabia o que fazer. Deus, quão envergonhada de si mesma ela se sentia! Que estranho impulso se apoderou dela? Havia agido de uma maneira tão indecorosa, tão... vulgar. E o cenho franzido que havia no rosto de Joseph estava lhe dizendo que não tinha-lhe agradado.
Demétria teve vontade de chorar.
- Joseph? - perguntou, pensando que sua voz soava como se já estivesse chorando.
Ele não respondeu, mas seu suspiro lhe disse que ele havia escutado ao pronunciar seu nome.
- Sinto muito.
Seu pedido de desculpa deixou Joseph tão surpreso que ele se virou de lado para olhá-la. O intenso desejo que ardia dentro dele era dilacerante e não pôde manter afastado o cenho franzido de seu rosto.
- O que é que você sente? - quis saber, irritando-se ante a aspereza com que soou sua voz.
Soube que havia tornado a assustá-la, porque Demétria em seguida lhe deu as costas. Estava tremendo de uma maneira bastante violenta para que Joseph também percebesse disso. Queria estender suas mãos para ela para voltar a atraí-la para os seus braços, quando Demétria finalmente lhe respondeu, dizendo:
- De ter-me aproveitado de você.
Joseph não podia acreditar no que acabava de ouvir. Aquilo foi a desculpa mais ridícula que jamais recebeu.
Um lento sorriso foi impondo-se pouco a pouco ao franzido do cenho que tinha escurecido seu semblante. Deus, de repente, teve vontade de voltar a rir, e não teria se importado em ceder também a esse outro impulso, se Demétria não tivesse sido tão profundamente sincera quando lhe falou. Mas o desejo de não ferir seus sentimentos conteve sua risada. Joseph não entendia qual era a razão que o impulsionava a querer proteger os sentimentos de Demétria, mas o caso era que estava ali e ia consumindo-o por dentro.
Deixou escapar um prolongado gemido. Demétria o ouviu, e em seguida chegou à conclusão de que Joseph estava profundamente aborrecido com ela.
- Prometo-lhe que não voltará a acontecer, Joseph - apressou-se em dizer.
Joseph rodeou a cintura da moça com o braço e a atraiu para ele.
- E eu lhe prometo que voltará a acontecer, Demétria - disse então.
Ela pensou que aquilo soava como um juramento.


opaaaaa, algo tem ai
bjemi

sábado, 1 de dezembro de 2018

Esplendor da Honra Capitulo 2


Minha é a vingança, eu farei justiça...
Epístola aos Romanos, 12, 19

- Será que ficou louco? - sussurrou Demétria com voz cheia de assombro.
O barão não lhe respondeu, mas seu cenho franzido sugeria que a pergunta não tinha lhe agradado em nada. Levantou Demétria com um rápido puxão, depois teve que agarrá-la pelos ombros para que não perdesse o equilíbrio. Sem sua ajuda ela teria voltado a ficar prostrada de joelhos no chão. Demétria se surpreendeu ao descobrir que as mãos do barão de Wexton sabiam ser muito suaves para o que podia se esperar de um homem de seu tamanho, e aquele pequeno pedaço de conhecimento a deixou ainda mais confusa do que já estava.
A tramoia que o guerreiro acabava de empregar com Demétria estava além de sua compreensão. Ele era o prisioneiro e ela sua salvadora, e não havia dúvida de que o barão já tinha reparado naquele fato, não? Demétria tinha se arriscado em tudo por ele! Santo Deus, havia tocado em seus pés e os tinha esquentado; sim, tinha-lhe dado absolutamente tudo aquilo que se atreveu a chegar dar.
O barão de Wexton, aquele nobre subitamente convertido em bárbaro, elevava-se sobre ela como a uma torre, e em seu rosto havia uma expressão de selvageria mais que de acordo com o gigantesco de suas proporções. Demétria sentiu o poder que irradiava dele, tão irresistível e abrasador como o contato de um atiçador esquentado pelas chamas de uma lareira, e embora tratasse desesperadamente de não se encolher diante do olhar impressionante gélido dos olhos cinza do barão, soube que estava tremendo de maneira violenta para que ele pudesse perceber seus tremores.
Joseph interpretou mal sua reação e se inclinou para recolher sua capa. Quando colocou a roupa ao redor dos ombros de Demétria, sua mão roçou a curva de seus seios. Ela pensou que o contato não tinha sido intencional, mas mesmo assim retrocedeu um passo instintivamente, enquanto se apressava a arrumar a capa diante dela. O cenho franzido do barão se tornou mais profundo do que tinha estado antes. Ele a pegou pelas mãos, deu meia volta e a precedeu pelo escuro corredor, arrastando-a atrás dele.
Demétria teve que correr para se manter a sua altura, já que do contrário, ele teria que arrastá-la pelo chão.
- Por que quer enfrentar os homens de Sebastian, quando não há nenhuma necessidade disso? - perguntou.
Não houve resposta por parte do barão, mas isso não dissuadiu Demétria. O guerreiro estava indo para sua própria morte e ela se sentia obrigada a detê-lo.
- Por favor, barão, não faça isto. Escute-me. O frio embotou sua mente. Irão matá-lo.
Demétria tentou se afastar de seu captor, resistindo energicamente e empregando todas suas forças, mas ele nem sequer afrouxou o passo.
Como ia salvá-lo agora, em nome de Deus?
Eles chegaram à pesada porta que dava ao pátio de armas. O barão a abriu com um empurrão tão enérgico que as dobradiças se desprenderam de seus encaixes. A porta ficou convertida em um montão de tábuas ao bater violentamente contra o muro de pedra. Demétria foi arrastada pela abertura, para um vento gelado que esbofeteou sua face e zombou de sua fervente convicção de que o homem, a quem tinha soltado há menos de uma hora, tinha enlouquecido. Não, o barão não podia estar mais centrado.
A prova de sua prudência rodeava Demétria. Mais de cem soldados se alinhavam no interior do pátio interior e havia ainda mais, que agora chegavam do alto do muro de pedra. Depois de havê-lo escalado rapidamente, todos eles movendo-se com a celeridade do vento quando começa a aumentar e tão silenciosamente como ladrões, e cada um deles vestia as cores azul e branco do barão de Wexton.
Demétria ficou tão aflita por aquela súbita visão, que nem sequer percebeu que seu captor se deteve para olhar seus homens, enquanto estes paravam diante dele. Chocou-se com as costas do barão e estendeu instintivamente as mãos para agarrar-se a sua cota de malha e assim recuperar o equilíbrio; só então percebeu que o barão tinha atado suas mãos.
Ele não deu a menor indicação de que sabia que ela estava imóvel atrás de suas costas, agarrando-se a sua cota de malha como se, de repente, ela se convertesse em sua única tábua de salvação. Demétria percebeu que podia parecer estar se escondendo ou, pior ainda, que tinha medo, e reagiu imediatamente dando um valente passo para um lado para que todos e cada um dos presentes pudesse vê-la. O alto de sua cabeça chegava aos ombros do barão. Demétria ficou imóvel com os ombros muito erguidos, tratando de igualar a postura desafiante do barão, enquanto rezava para que o terror que estava sentindo não fosse visível.
Deus, quão assustada estava! Para falar a verdade, Demétria não tinha muito medo da morte e o que realmente a aterrorizava era o ato de morrer, que precedia à morte propriamente dita. Sim, o que a fazia sentir-se tão mal por dentro era pensar em qual seria sua própria conduta antes que a suja ação tivesse chegado a se completar. Teria uma morte rápida, ou arrancariam sua vida muito lentamente? Perderia no último instante esse domínio de si mesma, que tão cuidadosamente tinha cultivado, e comportar-se-ia, então, como uma covarde? Pensar nisso a transtornou a tal ponto que esteve apta a gritar, ali e naquele mesmo momento, que queria ser primeira a sentir o contato da lâmina que traria consigo sua morte. Mas suplicar um final rápido também faria dela uma covarde, não é?, e então a profecia de seu irmão seria cumprida.
O barão de Wexton não tinha nem ideia de quais eram os pensamentos que estavam passando, como um raio, pela mente de sua prisioneira naquele instante. Baixou o olhar para Demétria, viu a tranquilidade de sua expressão e se sentiu levemente surpreso por ela. Ele a viu cheia de calma, quase serena, e, entretanto, ele sabia que suas maneiras não iriam demorar muito para mudar. Demétria estava a ponto de presenciar sua vingança, a qual começaria com a destruição total e absoluta de seu lar. Antes que bendita vingança tivesse chegado a seu fim, sem dúvida ela já estaria chorando e rogando-lhe piedade.
Um dos soldados chegou correndo e se deteve diante do barão. Para Demétria ficou evidente que estava aparentado com seu captor, já que tinha a mesma cor, entre negro e castanho, dos cabelos e o mesmo porte musculoso, embora não fosse tão alto. O soldado desdenhou Demétria e se dirigiu ao homem que o comandava.
- Dê a ordem, Joseph, ou ficaremos aqui durante toda a noite? - perguntou.
Então o barão se chamava Joseph. Por estranho que pudesse parecer, ouvir seu nome de batismo ajudou a mitigar um pouco o temor de Demétria. Joseph... Sim, o nome pareceu fazê-lo um pouco mais humano dentro de sua mente.
- E então, irmão? - quis saber o soldado, proporcionando com isso a Demétria, tanto o parentesco que os unia, como a razão pela qual o barão consentiu uma atitude tão insolente por parte de seu vassalo.
O soldado, que com certeza seria um irmão mais novo a julgar por seu aspecto juvenil e pela falta de cicatrizes infligidas em batalha, voltou seu olhar a Demétria. Seus olhos castanhos refletiram o desprezo que ela inspirava. Parecia como se pudesse atingi-la a qualquer momento. O enfurecido soldado chegou ao extremo de dar um passo para trás, como se desejasse colocar um pouco mais de distância entre ele e a leprosa que, subitamente, Demétria havia se convertido.
- Sebastian não está aqui, Nicholas - disse Joseph a seu irmão.
O comentário do barão foi feito em um tom tão suave e tranquilo que Demétria, em seguida, se sentiu cheia de uma nova esperança.
- Então irá para casa, milord? - perguntou, voltando-se para elevar o olhar para ele.
Joseph não lhe respondeu. Demétria teria repetido sua pergunta se o vassalo não a tivesse interrompido, gritando uma ladainha de observações terrivelmente grosseiras. Seu olhar não se separou nem um só instante dela, enquanto dava rédia solta a sua decepção. Embora Demétria não entendesse a maior parte daqueles comentários grosseiros, bastou-lhe ver a aterradora expressão que havia nos olhos de Nicholas para saber que eram pecaminosos.
Joseph se dispunha a ordenar que seu irmão colocasse fim de uma vez em seu ataque infantil, quando sentiu que Demétria agarrava sua mão. Seu contato o deixou tão assustado que não soube como reagir.
Demétria se pegou a ele e Joseph pôde sentir como tremia, mas quando se voltou para baixar os olhos para ela, viu que parecia tranquila e dona de si mesma. Estava olhando fixamente para Nicholas. Joseph sacudiu a cabeça. Sabia que seu irmão não tinha nem ideia de quão aterrador ele parecia para Demétria. Para falar a verdade, Joseph duvidava que isso tivesse muita importância para Nicholas, caso ele soubesse.
De repente a ira de Nicholas irritou Joseph. Demétria era sua prisioneira, não sua oponente, e quanto mais rápido Nicholas entendesse como deveria ser tratada, tanto melhor.
- Basta! - exigiu -. Sebastian se foi. Suas maldições não o trarão de volta.
Joseph subitamente separou sua mão da de Demétria. Então, passou o braço pelos ombros, quase a jogando no chão em sua pressa, e a atraiu para o seu lado. Nicholas ficou tão assombrado por aquela evidente exibição de amparo, que quão único pôde fazer foi ficar contemplando seu irmão com a boca aberta.
- Sebastian tem que ter tomado o caminho que leva para o sul, Nicholas, porque do contrário vocês o teriam visto - disse Joseph.
Demétria não pôde evitar intervir.
- Agora irá para casa? - perguntou, tentando fazer com que sua voz não soasse excessivamente desejosa de que assim fosse -. Sempre poderá desafiar Sebastian em outra ocasião - sugeriu, esperando que isso aliviasse a desilusão que estavam sentindo os dois irmãos.
Ambos se viraram para olhá-la. Nenhum dos dois respondeu, mas a expressão que havia em sua face deixava muito claro que pensavam que não batia muito bem da cabeça.
O medo de Demétria começou a se intensificar outra vez. A terrível expressão que havia nos olhos do barão fez que quase dobrassem seus joelhos. Baixou rapidamente a vista até que se encontrou contemplando o peito do barão, envergonhando-se com toda sua alma de que estivesse demonstrando semelhante fraqueza de caráter.
- Não sou eu quem perdeu o juízo - murmurou -. Ainda pode sair daqui sem que lhe peguem.
Joseph fez como se não tivesse ouvido seu comentário e, agarrando-a pelas mãos atadas, arrastou-a até o mesmo poste do qual ela o tinha liberado. Demétria, com as pernas debilitadas pelo medo, tropeçou em duas ocasiões. Quando Joseph finalmente a soltou, Demétria se apoiou na madeira estilhaçada e esperou para ver o que faria a seguir.
O barão a fulminou com um prolongado olhar, e Demétria chegou à conclusão de que aquele olhar era uma ordem não falada de que não saísse dali. Logo se virou até que seus ombros a ocultaram de seus soldados. Suas musculosas coxas estavam muito separadas e suas enormes mãos se converteram em dois punhos firmemente apoiados sobre o ângulo de seus quadris. Era uma postura de batalha que desafiava claramente aqueles que o olhavam.
- Ninguém vai tocar nela. É minha - ressonou então a poderosa voz de Joseph, abatendo-se sobre seus homens com tanta violência, como as gélidas partículas que se precipitavam sobre eles das alturas.
Demétria se voltou para observar a porta do castelo de Sebastian. A voz de Joseph tinha que ter chegado em seu interior, alertando os soldados adormecidos. Mas quando os homens de Sebastian não irromperam imediatamente no pátio, Demétria pensou que o vendaval tinha que ter levado consigo a voz do barão de Wexton.
Joseph começou a se afastar de Demétria. Ela estendeu a mão e o agarrou pela parte de trás de sua cota de malha. Os elos circulares de aço cortaram seus dedos. Demétria voltou o gesto em uma careta de dor, mas não tinha certeza se sua reação tinha sido causada por aqueles elos que a tinham machucado ou pela expressão de fúria que luzia no rosto do barão de Wexton, quando ele se virou para ela. Tinha-o tão perto que seu peito roçava o dela. Demétria se viu obrigada a jogar a cabeça para trás para poder ver sua face.
- Não entende, barão - balbuciou -. Bastaria que lhe viesse a razão para que percebesse quão desatinado é este plano.
- Quão desatinado é meu plano? - repetiu Joseph, sentindo-o bastante espantado pela ousada afirmação de Demétria para chegar ao extremo de uivar. Não entendia por que queria saber do que estava falando aquela moça, mas o caso era que queria sabê-lo. Demônios, mas ela acabava de insultá-lo! Joseph teria matado um homem por muito menos. Contudo, a expressão de inocência que havia no rosto de Demétria, e a sinceridade que impregnava em sua voz, indicavam que ela nem sequer era consciente da terrível transgressão que acabava de cometer.
Demétria pensou que Joseph estava chegando ao ponto de querer estrangulá-la, e reprimiu o impulso de voltar a fechar os olhos contra aquele olhar que tanto a intimidava.
- Se tiver vindo por mim, então desperdiçou seu tempo - disse.
- Acaso acredita que não vale o suficiente para que seja merecedora de minha atenção? - perguntou Joseph.
- É obvio que não valho o suficiente para isso. Aos olhos de meu irmão, eu não tenho valor algum. Isso é um fato do qual estou bem consciente - acrescentou, falando com tal despreocupação que Joseph soube que acreditava no que dizia -. E pode estar certo de que esta noite morrerá. Sim, superam-lhe em número, ao menos quatro a um segundo minhas contas. Há uma segunda fortaleza na torre que temos abaixo, com mais de cem soldados que agora mesmo estão dormindo dentro dela. Esses soldados ouvirão o ruído do combate. O que opina disso? - perguntou, sabendo que agora se estava torcendo as mãos, mas sem ser capaz de deixar de fazê-lo.
Joseph permaneceu imóvel, contemplando-a com uma expressão de perplexidade no rosto. Demétria rezou para que aquela informação, sobre a segunda fortaleza cheia de soldados, que acabava de compartilhar com ele, o obrigasse a ver a insensatez de seu plano.
Suas orações foram em vão. Quando o barão reagiu finalmente, não o fez da maneira que Demétria esperava. Limitou-se a encolher os ombros.
O gesto enfureceu muitíssimo Demétria. Aquele estúpido guerreiro estava claramente resolvido a morrer.
- Pensa que dar as costas a isto, fosse quais fossem as probabilidades, era uma falsa esperança, não é? - perguntou Demétria.
- Era - respondeu Joseph. Um cálido brilho se infiltrou em seus olhos, surpreendendo Demétria, e logo se esfumaçou antes que tivesse tido tempo de reagir. Estaria o barão rindo dela?
Demétria não teve coragem de lhe perguntar. Joseph continuou olhando para ela fixamente durante outro interminável minuto. Depois, sacudiu a cabeça, deu meia volta e pôs-se a andar para o lar de Sebastian. Obviamente, acabava de decidir que já tinha perdido tempo suficiente com ela.
Não houve nem a mais leve pista a respeito de qual podia ser sua intenção. De fato, se alguém julgasse pela aprazível expressão de seu rosto e pela pouca pressa que dava ao andar, muito bem poderia pensar estar realizando uma visita social.
Mas Demétria sabia que não se tratava disso. Sentiu-se cheia de um súbito horror, e pensou que fosse vomitar. Pôde sentir como a bílis subia pelo interior de seu corpo para ir deixando um atalho abrasador ao longo de toda sua garganta. Começou a respirar com uma série de baforadas entrecortadas e ofegantes, enquanto se esforçava freneticamente por desfazer os nós que lhe atavam as mãos. O pânico tornou impossível a tarefa, porque Demétria acabava de perceber que também havia servos dormindo lá dentro. Duvidava que os soldados de Joseph fossem se limitar a matar quem os enfrentasse estando armados. Sebastian certamente não teria feito tal distinção.
Demétria sabia que não demoraria a morrer. O fato de ser a irmã de Sebastian já não podia ser apagado. Mas se pudesse salvar vidas inocentes antes de sua própria morte, não daria esse ato de bondade algum propósito a sua existência? Santo Deus, salvar uma pessoa não faria que sua vida tivesse importância... para alguém?
Demétria continuou debatendo-se com a corda enquanto olhava o barão. Quando ele chegou aos degraus e se virou para seus homens, seu verdadeiro propósito ficou evidenciado. Sim, a expressão que havia em seu rosto mostrava com toda clareza a fúria que sentia.
Joseph levantou lentamente sua espada por cima de sua cabeça. E depois sua voz ressonou com tal força que, sem dúvida, deve ter atravessado os muros de pedra que os rodeavam. Suas palavras cheias de um firme propósito não puderam ser mais claras.
- Que não haja misericórdia!
Os gritos da batalha torturavam Demétria. Sua mente imaginava tudo aquilo que não podia ver, deixando-a presa dentro de um purgatório de pensamentos obscenos. Nunca tinha presenciado uma batalha, e só tinha ouvido exageradas histórias de astúcia e proezas de lábios de soldados vitoriosos que estavam alardeando seus triunfos. Mas nenhuma daquelas histórias incluía as descrições das mortes, e quando soldados que combatiam uns com outros terminaram enchendo o pátio, o purgatório mental de Demétria se converteu em um inferno vivo, com o sangue das vítimas transformado no fogo da vingança de seu captor.
Embora a superioridade numérica favorecesse imensamente os homens de Sebastian, Demétria não demorou a notar que eles não estavam preparados para enfrentar os treinados soldados de Joseph. Viu como um dos soldados de seu irmão elevava sua espada contra o barão de Wexton e perdia a vida por causa disso, e presenciou como outro valente soldado impulsionava sua lança adiante, e logo observava com estupefação como a lança e o braço eram separados de seu corpo. Um ensurdecedor alarido de agonia seguiu ao ataque, quando o soldado desabou para frente e caiu ao chão, agora empapado com seu próprio sangue.
Demétria sentiu que seu estômago revolvia diante de todas aquelas atrocidades. Fechou os olhos para não ter que continuar vendo o horror, mas as imagens continuaram acossando-a.
Um moço, que Demétria pensou podia ser o escudeiro de Joseph, veio correndo em sua direção para ficar ao seu lado. Tinha o cabelo de um loiro intenso e era de estatura média; era tão musculoso que com um simples olhar poderia parecer gordo. O moço desembainhou uma adaga e a sustentou diante dele.
Apenas prestou atenção em Demétria e manteve seu olhar direcionado a Joseph, mas ela pensou que ele havia se colocado ali para protegê-la. Apenas um momento antes tinha visto como Joseph fazia um gesto para o moço.
Em um desesperado esforço, Demétria tratou de concentrar seu olhar no rosto do escudeiro. O moço mordiscava nervosamente o lábio inferior. Demétria não estava muito certa se aquela reação era causada pelo medo ou pela excitação, e então o moço começou a correr para frente, voltando a deixá-la desamparada.
Voltou-se para Joseph, e Demétria viu que tinha deixado cair seu escudo, mas depois observou como o escudeiro corria para recuperá-lo para seu senhor.
Em sua pressa, o moço deixou cair sua própria adaga.
Demétria correu para ela, recolheu-a do chão e logo voltou para poste no caso de Joseph ir até ela. Ajoelhou-se no chão, com sua capa ocultando sua ação, e começou a cortar a corda que atava suas mãos. O acre aroma da fumaça chegou até ela. Demétria levantou o olhar a tempo de ver justamente como uma língua de fogo estalava através da entrada aberta do castelo. Os servos se mesclaram com os homens que combatiam, tentando ganhar sua liberdade, enquanto corriam para as portas. O fogo corria atrás deles, abrasando o ar.
Simon, o primogênito do magistrado saxão e agora já um ancião, foi até Demétria. As lágrimas corriam por seu rosto curtido e o desespero tinha curvado seus robustos ombros.
- Pensei que a tivessem matado, milady - sussurrou enquanto a ajudava a ficar em pé.
O servente tirou a adaga entre seus dedos e cortou rapidamente a corda com ela. Uma vez que tinha ficado livre, Demétria colocou as mãos junto aos ombros.
- Salve-se, Simon. Esta não é sua batalha. Corra, e afaste-se daqui. Sua família precisa de você.
- Mas você...
- Vá, antes que seja muito tarde - implorou Demétria.
Sua voz soou enrouquecida pelo medo. Simon era um homem bom e temente a Deus, que tinha sido muito amável com ela no passado. Estava preso, assim como estavam os outros servos, pela posição e pela herança, atados por lei à terra de Sebastian, e por si só isso já era sentença mais que suficiente para um homem carregar. Deus não podia ser tão cruel para exigir também sua vida.
- Venham comigo, lady Demétria - suplicou Simon -. Vou escondê-la deles.
Demétria sacudiu a cabeça, negando aquilo que ele pedia.
- Terá melhores chances sem mim, Simon. O barão de Wexton iria atrás de mim. Não discuta, por favor - apressou-se a acrescentar, quando viu que Simon se dispunha a protestar de novo -. Vá! - disse, gritando a ordem e dando uma ênfase adicional quando suas mãos empurraram os ombros de Simon.
- Que o Senhor a proteja - murmurou Simon. Entregou sua adaga e se voltou em direção às portas. O ancião apenas se afastou alguns passos de sua senhora, quando foi jogado no chão pelo irmão de Joseph. Nicholas, em sua pressa por atacar outro soldado de Sebastian, acabava de se chocar acidentalmente com o servente. Simon já tinha conseguido ficar de joelhos, quando Nicholas se virou subitamente, como se acabasse de perceber que havia outro inimigo mais à mão que o anterior.
A intenção de Nicholas não podia ser mais clara para Demétria. Gritou uma advertência, e apressou-se em colocar-se diante de Simon, enquanto usava seu corpo para proteger seu servente da lâmina de Nicholas.
- Vá para o lado! - gritou Nicholas, com a espada levantada.
- Não! - Gritou Demétria por sua vez -. Terá que me matar para chegar até ele.
Nicholas reagiu imediatamente elevando um pouco mais sua espada, o que indicava que isso ia ser precisamente o que faria. Seu rosto estava avermelhado pela fúria. Demétria pensou que Nicholas era mais que capaz de matá-la, sem que depois chegasse a padecer nem um só instante de remorso por isso.
Joseph viu o que estava acontecendo e correu imediatamente para Demétria. Todos sabiam que Nicholas tinha gênio muito forte, mas mesmo assim Joseph não imaginou que seu irmão pudesse fazer dano a Demétria. Nicholas morreria antes de infringir uma ordem. Irmão ou não, Joseph era barão dos feudos de Wexford e Nicholas era seu vassalo. Nicholas honraria esse vínculo e Joseph não poderia ter sido ser mais claro: Demétria lhe pertencia. Ninguém devia tocá-la. Ninguém.
Os outros servos, quase trinta no total, também presenciaram o que estava ocorrendo. Quem não estava bastante perto da liberdade se apressou para formar um grupo atrás de Simon em busca de amparo.
Demétria sustentou o olhar cheio de fúria de Nicholas com uma expressão cheia de compostura, mostrando uma tranquilidade que desmentia o terremoto que estava acontecendo em seu interior.
Joseph se deteve ao lado de seu irmão no tempo exato de observar a estranha reação de Demétria. Sua prisioneira elevou lentamente a mão para seus cabelos e logo separou a espessa massa de cachos do lado de seu pescoço. Falando com uma voz que não podia estar mais cheia de calma, sugeriu que Nicholas afundasse sua folha ali e, se tivesse a bondade, que fosse o mais rápido possível ao fazê-lo.
Nicholas pareceu ficar atônito com a reação de Demétria ao seu blefe, e foi baixando lentamente sua espada até que a ponta ensanguentada ficou apontada para o chão.
A expressão de Demétria não se alterou enquanto voltava sua atenção para Joseph.
- Será que o ódio que sente por Sebastian se estende a seus servos? - perguntou -. Mata homens e mulheres inocentes porque a lei os obriga a servir a meu irmão?
Antes que Joseph pudesse articular uma resposta, Demétria lhe deu as costas. Depois, agarrou a mão de Simon e o ajudou a se levantar.
- Ouvi dizer que o barão de Wexton é um homem de honra, Simon. Não se separe de mim. Vamos enfrentá-lo juntos, meu querido amigo. - E, voltando-se novamente para Joseph, acrescentou -: e veremos se este nobre é um homem de honra ou se não se diferencia em nada de Sebastian.
Então, Demétria ficou subitamente consciente de que sustentava a adaga em sua outra mão. Escondeu a evidência atrás de suas costas até que sentiu um súbito rasgo no forro de sua capa, e logo deslizou a faca dentro da abertura, rezando para que a prega fosse forte o bastante para poder sustentá-la. A fim de encobrir sua ação, gritou:
- Todas estas boas pessoas tentaram me proteger de meu irmão, e morrerei antes que ver como coloca a mão em cima deles! A escolha é sua.
Quando respondeu a seu desafio, a voz de Joseph estava cheia de desprezo.
- Diferentemente de seu irmão, eu não prendo os fracos - disse a Demétria -. Vá, ancião, e abandone este lugar. Pode levar os outros com você.
Os servos se apressaram a obedecer. Demétria os viu correr para as portas; aquela amostra de compaixão por parte do guerreiro a surpreendeu.
- E agora, barão, tenho um pedido a mais a fazer - disse, virando-se novamente para Joseph -. Rogo-lhe que me mate agora. Já sei que sou uma covarde ao pedir isso, mas a espera está se tornando insuportável. Faça o que deve fazer.
Acreditava que ele tinha intenção de matá-la. Joseph voltou a se sentir assombrado por seus comentários, e decidiu que lady Demétria era a mulher mais estranha que jamais encontrou.
- Não vou matá-la, Demétria - anunciou antes de dar meia volta e se afastar.
Uma súbita onda de alívio se apoderou de Demétria. Acreditava que Joseph havia respondido dizendo-lhe a verdade. Quando pediu que acabasse de uma vez com aquela vil ação, ele tinha parecido sentir-se tão surpreso que... Sim, agora ele estava dizendo a verdade.
Demétria se sentiu vitoriosa pela primeira vez em toda sua existência. Tinha salvado a vida de Joseph, e viveria para poder falar disso.
A batalha tinha terminado. Os cavalos tinham sido libertados dos estábulos, e expulsos atrás dos servos por meio das portas abertas, apenas uns instantes antes das novas e destrutivas chamas devorarem a frágil madeira.
Demétria foi incapaz de sentir a menor sombra de indignação ante a destruição do lar de seu irmão. Aquele lugar nunca tinha pertencido a ela. Ali não havia lembranças felizes.
Não, não tinha maneira de sentir indignação. A vingança de Joseph era o justo castigo aos pecados de seu irmão Sebastian. Aquela noite escura estava fazendo justiça graças à mão de um bárbaro, vestido com roupagens de cavalheiro, um radical na maneira de pensar de Demétria, que se atrevia a passar por cima da forte amizade que unia Sebastian com o rei da Inglaterra.
O que tinha feito Sebastian ao barão de Wexton para merecer semelhante represália? E que preço teria que pagar Joseph por sua ousadia? Exigiria William II, quando se inteirasse daquele ataque, a vida de Joseph? Sem dúvida o rei iria satisfazer Sebastian, se ele ordenasse semelhante ação. Diziam que Sebastian exercia um insólito domínio sobre o rei, e Demétria tinha ouvido dizer que eram amigos muito especiais. Só na semana anterior se inteirou do que realmente significavam todas as obscenidades murmuradas em voz baixa. Marta, que tinha a língua muito comprida e estava casada com o encarregado dos estábulos, tinha extraído um grande deleite em revelar a baixeza de sua relação tarde da noite, depois de ter bebido muitos goles de cerveja.
Demétria não tinha acreditado nela. Ficou vermelha e negou tudo, dizendo a Marta que Sebastian tinha permanecido solteiro porque a dama a quem entregou seu coração tinha morrido. Marta tinha zombado da inocência de Demétria, e finalmente terminou obrigando sua senhora a admitir a possibilidade.
Até aquela noite, Demétria não tinha percebido que alguns homens podiam chegar a agir muito intimamente com outros homens, e a revelação de que um desses homens fosse seu irmão e diziam que o outro era o rei da Inglaterra, fazia com que tudo fosse ainda mais repulsivo. Seu asco tornou-se físico: Demétria se lembrou de que tinha vomitado o jantar, o que fez Marta rir bastante.
- Queimem a capela.
A ordem de Joseph ressoou pelo do pátio, fazendo com que os pensamentos de Demétria voltassem ao presente. Recolheu sua saia, e correu imediatamente para a igreja
na esperança de ter tempo para tirar dali suas escassas posses, antes que a ordem fosse levada adiante. Ninguém parecia estar prestando atenção nela.
Joseph a interceptou no exato instante em que Demétria chegava à entrada lateral. O barão de Wexton deixou cair bruscamente suas mãos sobre a parede, impedindo a passagem em ambos os lados. Demétria deixou escapar um ofego de surpresa e se voltou para elevar o olhar para ele.
- Não há nenhum lugar em que possa se esconder de mim, Demétria.
Sua voz era suave. Deus, quase parecia aborrecido.
- Não me escondo de ninguém - respondeu Demétria, tratando de manter afastada a raiva de sua voz.
- Então, será que deseja arder com sua capela? - Perguntou Joseph -. Ou possivelmente pensa utilizar esse passadiço secreto do qual me falou...
- Nenhuma das duas coisas - respondeu Demétria -. Todas os meus pertences estão dentro da igreja. Eu ia pegá-los depois. Disse que não ia me matar e pensei que poderia levar minhas coisas comigo.
Como Joseph não respondeu à explicação que ela acabava de dar, Demétria fez outra tentativa. Moldar um pensamento coerente, ainda assim, era algo que não funcionava muito bem com Joseph olhando-a tão fixamente.
- Não pedirei uma montaria - disse -, apenas minhas roupas que estão atrás do altar.
- Não me pedirá isso? - Joseph sussurrou a pergunta. Demétria não soube como reagir a ela, ou ao sorriso que lhe dedicou -. Realmente espera que eu acredite que você estava vivendo na igreja?
Demétria desejou ter coragem suficiente para lhe dizer que pouco se importava se ele acreditasse ou deixasse de acreditar. Deus, realmente era uma covarde! Mas os longos anos de duras lições, sobre como controlar seus verdadeiros sentimentos, foram de grande utilidade naquele momento, porque lhe proporcionou uma expressão tranquila, obrigando sua raiva a ficar de lado. De fato, inclusive arrumou-se para encolher os ombros.
Joseph viu inflamar a faísca da raiva no azul dos olhos de sua prisioneira. Aquela emoção aparecia tão pouco na serena expressão de seu rosto e desapareceu tão rapidamente, que se convenceu de não tê-la surpreendido se não ficasse observando-a com tanta atenção. Por ser apenas uma mulher, Demétria sabia controlar-se com imensa habilidade.
- Responda-me, Demétria. Deseja que eu acredite que você estava vivendo nesta igreja?
- Não estava vivendo aqui - respondeu Demétria, quando não pôde continuar suportando o penetrante olhar de Joseph nem um só instante a mais -. Só escondi ali minhas coisas para, assim, poder escapar pela manhã.
Joseph franziu o cenho enquanto refletia sobre o que acabava de ouvir.
Por acaso ela o tomava por louco para pensar que ele chegaria a acreditar em uma história tão descabelada? Nenhuma mulher abandonaria as comodidades de seu lar para viajar durante aqueles meses tão duros. E aonde queria que acreditasse que se dirigia?
Tomou uma rápida decisão para demonstrar a falsidade da história de Demétria, só para ver qual era sua reação quando a mentira fosse descoberta.
- Pode ir recolher seus pertences - disse.
Demétria não ia discutir sua boa sorte. Acreditou que ao dar sua aprovação, Joseph também estaria aceitando seu próprio plano para deixar a fortaleza.
- Então posso deixar esta fortaleza?
A pergunta saiu de seus lábios antes que pudesse se conter. E Deus, como lhe tremeu a voz ao fazê-la.
- Sim, Demétria, deixará esta fortaleza - aceitou Joseph.
Chegou a sorrir para ele. Aquela súbita mudança em seu comportamento deixou Demétria um pouco preocupada. Elevou o olhar para ele, tratando de ler sua mente. Era uma tarefa da mais inútil, como compreendeu em seguida. Joseph ocultava muito bem seus sentimentos, o bastante para que ela pudesse decidir se estava dizendo a verdade ou não.
Ela passou por baixo do braço dele, então, Demétria correu pelo corredor que havia na parte de trás da igreja com Joseph indo atrás dela.
O pequeno saco de estopa continuava onde ela havia escondido no dia anterior. Demétria o tomou em seus braços e depois se virou para olhar Joseph. Estava disposta a expressar sua gratidão, mas titubeou assim que voltou a ver a expressão de surpresa em seu rosto.
- Não acreditou em mim? - perguntou, e em sua voz havia tanta incredulidade como a que estava presente na expressão dele.
Joseph respondeu com o cenho franzido. Então, deu meia volta e saiu da igreja andando com passo rápido e decidido. Demétria o seguiu. Agora suas mãos estavam tremendo de uma maneira que era quase violenta em seus intensos estremecimentos. Demétria decidiu que só se tratava do horror da batalha que tinha presenciado e que começava a surtir efeito. Tinha visto tanto sangue, tantos mortos... Seu estômago e sua mente se rebelavam, e a única coisa que podia fazer era rezar para que fosse capaz de manter a compostura, até que Joseph e seus soldados partissem.
Assim que saiu da capela, lançaram tochas acesas no interior dela. Como ursos famintos, as chamas devoraram o edifício com uma selvagem intensidade.
Demétria esteve contemplando o fogo durante um bom momento, até que percebeu que estava agarrando a mão de Joseph. Então se separou dele imediatamente.
Voltou-se e viu que tinham levado para o pátio interno os cavalos dos soldados. A maior parte dos homens de Joseph já tinha montado e aguardava ordens. No centro do pátio esperava o mais magnífico dos animais, um enorme cavalo branco, quase duas mãos mais alto que qualquer um dos outros cavalos. O escudeiro de cabelos loiros permanecia imóvel diretamente na frente do animal, tentando conservar as rédeas em suas mãos sem que tivesse muito êxito nesse trabalho. Aquele impressionante animal sem dúvida pertencia a Joseph, um animal adequado para a estatura e a linhagem do barão.
Joseph apontou o cavalo para Demétria, indicando que deveria ir para ele. Demétria franziu o cenho ante sua ordem, mas então andou instintivamente para o enorme cavalo. Quanto mais perto estava dele, mais assustada se sentia. Um negro pensamento foi cristalizando no canto mais recôndito de sua mente confusa.
Santo Deus, não iam deixá-la ali.
Demétria respirou fundo, tentando se acalmar. Disse a si mesma que estava muito afetada para pensar com clareza. Era óbvio que o barão não ia levá-la com ele. Por que iria fazer tal coisa, quando ela não era importante o bastante para tanto trabalho?
Decidiu que mesmo assim precisava ouvir sua negativa.
- Não pensa em me levar com você, não é? - balbuciou. Sua voz soou claramente enrouquecida pela tensão, e soube que não tinha conseguido evitar que o medo chegasse a aparecer nela.
Joseph foi até Demétria. Agarrou seu saco e o jogou a seu escudeiro. Então Demétria teve sua resposta. Elevou o olhar para Joseph, viu-o montar rapidamente e então estender sua mão.
Demétria começou a retroceder. Que Deus a ajudasse, mas ia desafiá-lo! Sabia que se tentasse escalar a distância que a separava do alto daquele cavalo, que parecia um demônio, terminaria coberta de vergonha, perdendo a razão ou, o que seria ainda pior, começaria a gritar. Para ser sincera, Demétria acreditava preferir a morte à humilhação.
O cavalo lhe dava ainda mais medo que o barão. Demétria tristemente achava falta de educação, mas não possuía uma única habilidade básica que compunha a arte da subida. Lembranças de uns dias em que ela ainda era muito jovem, quando Sebastian tinha utilizado aquelas escassas lições de equitação que chegou a lhe dar, como uma ferramenta a mais para obter sua submissão, ainda retornavam a sua memória de vez em quando. Agora que já era uma mulher, Demétria percebia que não havia razão alguma para todos aqueles medos dele, mas mesmo assim a criança assustada que havia dentro dela continuava rebelando-se com teimosia, com um temor tão obstinado, como carente de lógica.
Deu outro passo para trás. Então sacudiu lentamente a cabeça, rechaçando a ajuda de Joseph. Sua decisão tinha sido tomada. Com isso seria obrigado a matá-la, se o barão realmente estivesse disposto a fazer tal coisa, mas Demétria não ia subir no cavalo.
Sem pensar nem por um só instante para onde ia, Demétria deu meia volta e começou a andar. Tremia de tal maneira que deu vários tropeções. O pânico ia crescendo rapidamente dentro de seu ser, até que terminou vendo-se quase cega por ele, mas mesmo assim manteve o olhar firmemente dirigido para o chão e continuou andando adiante, dando um passo decidido atrás de outro.
Deteve-se quando chegou ao corpo mutilado de um dos soldados de Sebastian. O rosto do homem estava horrivelmente desfigurado. Aquele espetáculo demonstrou ser o ponto mais máximo do qual Demétria conseguiria seguir adiante. Ficou ali imóvel, no centro da carnificina, contemplando o soldado morto até que ouviu o eco longínquo de um grito cheio de agonia. O som não podia ser mais dilacerador. Demétria levou as mãos aos ouvidos para tratar de sossegar aquele ruído, mas a ação não serviu de nada. O horrível som seguiu e seguiu.
Joseph esporeou seu cavalo, fazendo-o avançar assim, que ouviu que Demétria começava a gritar. Chegou até ela, inclinou-se e a tomou em seus braços, levantando-a rapidamente do chão, sem que tivesse necessidade de fazer nenhum esforço para isso.
Demétria deixou de gritar assim que ele a tocou. Joseph pôs sua grossa capa até que sua prisioneira ficou completamente coberta por ela. O rosto de Demétria descansava sobre os elos de aço de sua cota de malha, mas mesmo assim Joseph dedicou tempo e atenção para jogar para frente umas quantas pregas da capa dela, de tal maneira que sua bochecha ficasse em cima do suave forro de pele de ovelha.
Nem por um só instante pareceu haver nada de estranho naquele repentino desejo de tratá-la com delicadeza. A imagem de Demétria, ajoelhando-se ante ele e tomando seus pés quase congelados debaixo de seu próprio vestido para lhe dar calor, passou rapidamente ante seus olhos. Aquilo tinha sido um ato de bondade, e agora Joseph não podia fazer menos por ela. Afinal, ele era o único responsável por ter causado tal dor em Demétria, antes de mais nada.
Joseph deixou escapar um prolongado suspiro. Já estava feito. Por todos os infernos, e pensar que, além disso, havia começado como um plano tão fácil de ser concluído! Sempre podia aparecer uma mulher para complicar tudo.
Agora havia muitas coisas que tinha que voltar a examinar. Embora o barão soubesse que Demétria não tinha consciência disso, não restava dúvida de que ela tinha complicado tudo. Disse a si mesmo que teria que colocar um pouco de ordem em toda aquela confusão. Agora o plano se via alterado, querendo ou não, porque Joseph sabia, com uma certeza que o assombrava e o enfurecia de uma vez, que nunca deixaria Demétria partir.
Joseph segurou sua prisioneira com mais força e finalmente deu o sinal de iniciar a marcha. Ficou atrás para formar o final do longo cortejo. Quando o último de seus soldados saiu dali, e só estava flanqueado por Nicholas e o jovem escudeiro, dedicou uns minutos preciosos a contemplar a destruição.
Demétria jogou a cabeça para trás para poder ver claramente o rosto de Joseph. Ele deve ter sentido como ela levantava o olhar para ele, porque baixou lentamente seu olhar até que se encontrou olhando-a diretamente nos olhos.
- Olho por olho, Demétria - ele disse.
Demétria esperou que ele contasse algo mais, que explicasse o que tinha feito seu irmão para provocar semelhante represália. Mas Joseph se limitou a continuar contemplando-a em silêncio, como se estivesse desejando, com todas suas forças, que ela entendesse. Demétria já tinha compreendido que ele não ia oferecer nenhuma desculpa por ser tão implacável. Os vencedores não precisavam se justificar.
Voltou-se para as ruínas e então se lembrou de uma das histórias que tinha lhe contado seu tio, o padre Berton, a respeito das guerras púnicas1 que aconteceu na antiguidade. Muitas histórias eram transmitidas com o passar do tempo, a maioria dela era mal vista pela Santa Igreja. Mas mesmo assim, o padre Berton tinha contado a Demétria, educando-a da maneira mais inaceitável possível e, de fato, de um modo que poderia terminar em castigo, mediante a imposição de um severo castigo, no caso de o superior da igreja chegar a saber o que o sacerdote estava fazendo.
1 As Guerras Púnicas consistiram numa série de três conflitos que opuseram a República Romana e a República de Cartago, cidade-estado fenícia, no período entre 264 a.C. e 146 a.C.. Depois de quase um século de lutas, ao fim das Guerras Púnicas, Cartago foi totalmente destruída e Roma passou a dominar o mar Mediterrâneo
2 Cartago deve ser destruída
A carnificina que acabava de presenciar tinha feito com que Demétria se lembrasse da história de Cartago. Durante a terceira e última guerra entre dois grandes poderes, os vencedores destruíram por completo a cidade, assim que Cartago caiu. O que não tinha sido queimado até converter-se em cinzas, tinha sido enterrado debaixo do fértil chão. Não se permitiu que uma única pedra pudesse continuar sobre outra. Como última medida, os campos foram cobertos com sal para que nada crescesse ali no futuro.
A história se repetia aquela noite; agora tanto Sebastian como tudo aquilo que lhe pertencia foram profanados.
- Delenda est Carthago2 - sussurrou Demétria para si mesma, repetindo o juramento feito há tanto tempo por Cartilha, um tribuno da antiguidade.
A observação que Demétria acabava de fazer, deixou Joseph um pouco surpreso, que se perguntou como tinha chegado a adquirir tal conhecimento.
- Certo, Demétria. Ao igual a Cartago, seu irmão deve ser destruído.
- E eu também pertenço a Sebas... a Cartago? - perguntou Demétria, negando-se a pronunciar o nome de seu irmão.
- Não, Demétria. Você não pertence a Cartago.
Demétria assentiu e depois fechou os olhos, inclinando-se para frente até que ficou apoiada no peito dele.
Joseph utilizou a mão para levantar seu queixo, obrigando-a a voltar a olhá-lo.
- Não pertence a Sebastian, Demétria. A partir deste momento, você me pertence. Entende isso?
Demétria assentiu com a cabeça.
Joseph afrouxou a pressão com que a segurava, quando viu o quanto a estava assustando. Ele a contemplou por um instante e depois bem devagar e, sim, com muita delicadeza, cobriu-lhe o rosto com a capa.
Do seu cálido esconderijo junto dele, Demétria falou em um sussurro:
- Acho que eu preferiria não pertencer a nenhum homem.
Joseph a ouviu. Um lento sorriso atravessou seu rosto. O que quisesse ou deixasse de querer lady Demétria não significava absolutamente nada para ele. Porque agora ela lhe pertencia, tanto se desejasse, como se não desejasse.
Lady Demétria tinha selado seu próprio destino.
Tinha esquentado seus pés.
e por hj é só