quinta-feira, 5 de julho de 2018

O Diário Secreto da Senhorita Demetria Cheever Capitulo 10


Dois dias mais tarde, Adam parecia continuar um pouco aturdido.
Demetria não tinha tentado falar com ele, nem sequer se aproximou, mas de vez em quando o pegava olhandoa com expressão insondável. Sabia que o deixou agitado uma vez que ele nem sequer tinha a presença de ânimo de afastar o olhar quando seus olhos se encontravam. Só ficava olhando fixamente durante um longo tempo, então piscava e se afastava.
Demetria continuava esperando que em algum momento assentisse.
Não obstante, deu um jeito de não estar no mesmo lugar ao mesmo tempo durante a maior parte do fim de semana. Se Adam saía para cavalgar, Demetria explorava a estufa. Se Demetria dava um passeio pelos jardins, Adam jogava cartas.
Realmente civilizados. Muito adultos.
E, pensava mais de uma vez, totalmente dilacerador.
Não se viam nas refeições. Lady Chester se orgulhava de suas habilidades como casamenteira, e posto que fosse impensável que Adam e Demetria se envolvessem romanticamente, não os colocava perto. Sempre estava rodeado por um grupo de jovens e preciosas jovenzinhas, e Demetria a maioria das vezes se via relegada a fazer companhia a viúvas da terceira idade. Imaginava que Lady Chester não tinha muito boa opinião sobre sua habilidade para apanhar um marido desejável. Em troca, Selena estava sempre sentada com três homens extremamente atraentes e ricos, um a direita, outro a esquerda e outro do outro lado da mesa.
Demetria aprendeu bastante sobre remédios caseiros para a gota.
Lady Chester, entretanto, deixou os casais ao azar para um de seus planejados eventos, e aquele era a busca anual do tesouro. Os convidados deveriam procurar em equipes de dois. E já que o objetivo de cada convidado era casar ou embarcar em uma aventura (dependendo, é obvio do status marital de cada um), cada equipe seria formada por um homem e uma mulher. Lady Chester escreveu os nomes dos convidados em pedacinhos de papel e colocou todas as damas em uma bolsa e os cavalheiros em outra.
Naquele momento estava colocando a mão em uma daquelas bolsas. Demetria sentiu desejos de vomitar.
—Sir Anthony Waldove e... — Lady Chester introduziu a mão na outra bolsa.
— Lady Rudland.
Demetria soltou o ar, sem se dar conta de que até esse momento esteve contendo o fôlego. Faria qualquer coisa para ser par do Adam e tudo para evitar.
—Pobre mamãe — sussurrou Selena em seu ouvido. — Sir Anthony Waldove é bastante lerdo. Ela que terá que fazer todo o trabalho.
Demetria levou um dedo aos lábios.
—Pode nos ouvir.
—O senhor William Fitzhugh e... a senhorita Charlotte Gladdish.
—Com quem deseja formar par? — perguntou Selena.
Demetria deu um encolher de ombros. Se não fosse atribuída a Adam, realmente não importava.
—Lorde Adam e... — o coração de Demetria deixou de pulsar... — Lady Selena
Bevelstoke. Não é doce? Levamos fazendo isto cinco anos e esta é nossa primeira equipe irmão e irmã.
Demetria começou a respirar outra vez, sem estar segura de se estava decepcionada ou aliviada.
Selena, entretanto, não tinha dúvidas de seus sentimentos.
—Que desastre! — murmurou, em seu tipicamente assassinado francês. Todos esses cavalheiros, e me coloca com meu irmão. Quando terei outra oportunidade que me permita vagar por aí sozinha com um cavalheiro? É uma pena, digolhe isso, uma pena.
—Poderia ser pior — disse Demetria pragmática. — Nem todos os cavalheiros que estão aí são, é..., Cavalheiros. Ao menos sabe que Adam não tentará te violar.
—É pouco consolo, lhe garanto.
—Livvy...
—Shhh, acabam de nomear lorde Westholme.
—E quanto às damas... —Lady Chester estava emocionada. — A senhorita Demetria Cheever!
Selena lhe deu uma cotovelada.
—Que sorte!
Demetria só deu um encolher de ombros.
—OH, não aja como uma tola — repreendeu Selena. — Não acha que é divino?
Daria meu pé esquerdo por estar em seu lugar. Digame, por que não trocamos de lugar? Não há regras contra isso. E depois de tudo, você gosta do Adam.
Só que muito, pensou Demetria com tristeza.
—E então? Fará? A menos que também esteja de olho em lorde Westholme?
—Não — respondeu Demetria, tentando não soar consternada. — Não, claro que não.
—Então vamos trocar — disse Selena excitada.
Demetria não sabia se devia aproveitar a oportunidade ou correr para o quarto e esconderse no armário. De qualquer forma, não tinha nenhuma boa desculpa para negar à petição de Selena. Livvy certamente iria querer saber por que não queria ficar a sós com Adam. E então o que diria? É apenas que disse a seu irmão que o amava e receio que ele me odeie? Não posso ficar a sós com Adam porque receio que tente me violar? Não posso ficar a sós com ele porque tenho medo de tentar violálo?
O pensamento a fez querer rir. Ou chorar.
Mas Selena estava olhandoa espectadora, daquela maneira que Selena havia aperfeiçoado à idade de, oh, três anos, e Demetria se deu conta de que na realidade não importava o que dissesse ou fizesse, terminaria sendo o par de Adam.
Não é que Selena fosse uma mimada, embora possivelmente fosse um pouco.
Era só que qualquer tentativa por parte de Demetria para evitar o assunto se encontraria com uma pergunta tão precisa e tão persistente que era provável que terminasse revelando tudo.
Caso no qual teria que fugir do país. Ou ao menos, encontrar uma cama onde esconderse. Durante uma semana.
Assim suspirou. E assentiu. E pensou na parte boa e em dias melhores, e deduziu que nenhum era visível.
Selena lhe agarrou a mão e deu um apertão.
—OH, Demetria, obrigada!
—Espero que Adam não se importe — disse Demetria com cautela.
—Oh, não se importará. Provavelmente ficará de joelhos e agradecerá por não ter que passar a tarde inteira comigo. Acha que sou infantil.
—Não é verdade.
—Sim é. Frequentemente me diz que deveria ser mais como você.
Demetria se virou surpreendida.
—Sério?
—Sim. —Mas a atenção de Selena tinha retornado à Lady Chester, quem estava completando a tarefa de unir homens e mulheres. Quando finalizou, os homens se levantaram para procurar suas companheiras.
—Demetria e eu trocamos de lugares! —exclamou Selena quando Adam se aproximou. — Não se importa, não é?
—Claro que não — disse.
Mas Demetria não teria apostado sequer um quarto de penny a que estava dizendo a verdade. Depois de tudo, o que outra coisa podia dizer?
Lorde Westholme chegou pouco depois, e embora fosse o suficientemente educado para tentar ocultar, parecia encantado com a mudança.
Adam não disse nada.
Selena lançou a Demetria um perplexo cenho, o qual Demetria ignorou.
—Aqui está sua primeira pista! — gritou Lady Chester. — Poderiam os cavalheiros, por favor, aproximaremse e pagar seus envelopes?
Adam e Lorde Westholme caminharam até o centro do aposento e retornaram alguns segundos depois com envelopes brancos.
—Vamos abrir o nosso lá fora — disse Selena a lorde Westholme, lançando um breve e malicioso sorriso a Adam e Demetria. — Eu não gostaria que ninguém nos espiasse enquanto discutimos nossa estratégia.
Aparentemente, o resto de competidores teve a mesma ideia, porque um instante depois, Adam e Demetria se encontraram em total solidão.
Ele respirou fundo e plantou as mãos nos quadris.
—Eu não pedi a ela que trocasse — disse Demetria com rapidez. — Selena pediu que eu trocasse com ela. — Ele elevou uma sobrancelha. —Não fui eu! — protestou.
— Livvy está interessada em Lorde Westholme e acha que você pensa que ela é uma criança.
—É uma criança.
Naquele instante Demetria não se sentiu particularmente inclinada a dissentir, mas ainda assim disse:
—Dificilmente poderia saber o que fazia quando nos juntou.
—Poderia ter se negado a trocar — disse ele sem rodeios.
—Oh? Argumentando o que? — exigiu Demetria irritada. Ele não tinha por que estar tão aborrecido porque acabaram como companheiros. — Como sugere que explique a ela que não podemos passar a tarde juntos?
Adam não respondeu por que não tinha resposta, supôs. Simplesmente deu meia volta sobre os calcanhares e saiu com passo irado do recinto.
Demetria o observou um momento, e então, quando se fez aparente que não tinha intenções de esperála, deixou escapar um pequeno ofego e se apressou atrás dele.
—Adam, não corra tanto!
Ele parou em seco, os movimentos de seu corpo mostravam claramente sua impaciência para ela.
Quando Demetria chegou a seu lado, o rosto dele sustentava uma aborrecida e incomoda expressão.
—Sim? — disse alargando a palavra.
Demetria fez o que pôde para controlarse.
—Podemos ao menos ser civilizado um com o outro?
—Não estou zangado contigo, Demetria.
—Bom, certamente finge muito bem.
—Estou frustrado — disse de uma forma que ela estava totalmente segura de que ia destinar a chocála. E logo se queixou. — De muitas formas que poderia imaginar.
Demetria podia imaginar, fazia isso frequentemente e ruborizou.
—Abra o envelope, sim? — murmurou.
Ele o estendeu, e ela o rasgou.
—Encontrem sua seguinte pista sob um sol em miniatura — leu.
Ela o olhou. Ele nem sequer estava olhandoa. Não é que não estivesse olhandoa em particular, era só que estava olhando ao vazio, parecendo como se estivesse em outra parte.
—A estufa de laranjas — declarou ela, quase sem se importar se ele ia participar ou não. — Sempre pensei nas laranjas como pequenas peças de sol.
Ele assentiu bruscamente e fez um gesto com o braço para que ela fosse em frente. Mas havia algo bastante descortês e condescendente em seus movimentos, Demetria sentiu uma entristecedora urgência de apertar os dentes e grunhir enquanto se adiantava com passo irado.
Sem dizer uma palavra, saiu da casa para a estufa. Realmente ele não podia esperar que acabasse de uma vez com aquela maldita busca do tesouro, verdade?
Bom, ela ficaria feliz de satisfazêlo. Era o suficientemente inteligente; aquelas pistas não deveriam ser muito difíceis de decifrar. Poderiam estar de volta em seus respectivos aposentos em uma hora.
Em efeito, encontraram uma pilha de envelopes sob uma laranjeira. Sem uma palavra, Adam se inclinou para pegar um e o estendeu.
Com igual silêncio, Demetria rasgou o envelope. Leu a pista e logo passou ao
Adam.
OS ROMANOS PODERÃO TE AJUDAR A ENCONTRAR A SEGUINTE PISTA.
Se estava ficando irritado por seu silencioso comportamento, não demonstrou.
Só dobrou o pedaço de papel e a olhou com expressão de aborrecida espera.
—Está sob um arco — disse ela em tom prático. — Os romanos foram os primeiros em usálos como arquitetura. Há vários no jardim.
Assim foi. Dez minutos depois, recolheu outro envelope.
—Sabe quantas pistas temos que conseguir antes de finalizar? — perguntou Adam.
Era a primeira frase desde que havia começando, e concernia a quando se livraria dela. Demetria apertou os dentes ante o insulto, negou com a cabeça e abriu o envelope. Tinha que permanecer serena. Se o deixasse fazer sequer uma brecha em sua fachada, romperia completamente em pedaços. Dominando seus traços para permanecer impassíveis, tirou a parte de papel e leu:
—Precisarão caçar para a próxima prova.
—Algo relacionado com a caça, supõe — disse Adam.
Ela elevou as sobrancelhas.
—Decidiu participar?
—Não seja mesquinha, Demetria.
Ela deixou sair o ar, irritada e decidiu ignorálo.
—Há um pequeno pavilhão de caça ao Leste. Levará a menos quinze minutos caminhar até lá.
—E como descobriu esse pavilhão?
—Estive caminhando um pouco.
—Sempre que estou dentro de casa, suponho.
Demetria não viu razão para negar aquela declaração. Adam semicerrou os olhos para o horizonte.
—Acha que Lady Chester nos enviaria tão longe da casa principal?
—Até agora não me equivoquei — replicou Demetria.
—É verdade — disse com um aborrecido encolhimento de ombros. — Vamos.
Caminharam penosamente entre as árvores durante dez minutos quando
Adam lançou um duvidoso olhar ao céu escurecido.
—Parece que vai chover — disse laconicamente.
Demetria levantou o olhar. Estava certo.
—O que quer fazer?
—Agora?
—Não, na próxima semana. É obvio que agora, imbecil.
—Imbecil? — Sorriu seus brancos dentes quase a cegaram. — Me fere.
Demetria semicerrou os olhos.
—Por que de repente está sendo tão agradável comigo?
—Estava? — murmurou, e ela se sentiu mortificada. — OH, Demetria, talvez eu goste de ser agradável contigo — continuou, com um condescendente suspiro.
—Talvez não.
—Talvez sim — disse. — E talvez às vezes, você simplesmente torna as coisas difíceis.
—Talvez — disse com igual arrogância, — chova, e deveríamos nos mover.
Um trovão abafou sua última palavra.
—Talvez tenha razão — respondeu Adam, fazendo uma careta ao céu. —
Estamos mais perto do pavilhão ou da casa?
—Do pavilhão.
—Então vamos andar depressa. Eu não gostaria de ser apanhado em uma tempestade com relâmpago no meio do bosque.
Demetria não pôde discordar, apesar de sua preocupação pela propriedade, assim começou a caminhar mais rápido para o pavilhão de caça. Mal andaram dez metros quando caíram as primeiras gotas de chuva. Outros dez metros e era um aguaceiro torrencial.
Adam a agarrou pela mão e começou a correr, arrastandoa pelo caminho.
Demetria ia tropeçando atrás dele, perguntandose se servia de algo, posto que já estivessem encharcados até os ossos.
Poucos minutos depois se encontraram frente ao pavilhão de caça de dois aposentos. Adam segurou a maçaneta e virou, mas a porta não se moveu.
—Que droga! — murmurou.
—Está fechada? — perguntou Demetria batendo os dentes.
Ele assentiu bruscamente com a cabeça.
—O que vamos fazer?
Ele respondeu batendo o ombro contra a porta.
Demetria mordeu o lábio. Isso tinha que doer. Tentou uma janela. Fechada.
Adam voltou a empurrar a porta.
Demetria caminhou pelo lado da casa e tentou outra janela. Com um pequeno esforço a deslizou para cima. Ao mesmo tempo, ouviu Adam cair do outro lado da porta. Por um momento Demetria considerou engatinhar através da janela de todas as maneiras, mas em seguida decidiu ser magnânima e a desceu. Ele teve por um montão de problemas para derrubar a porta. O mínimo que ela podia fazer era deixálo acreditar que era seu cavalheiro da brilhante armadura.
—Demetria!
Ela voltou correndo para frente.
—Estou aqui. — Apressouse para o interior da casa e fechou a porta atrás dela.
—Que diabo, estava fazendo lá fora?
—Sendo uma pessoa muito mais amável do que poderia imaginar — murmurou, desejando nesse momento ter cruzado a janela.
—Hein?
—Só estava dando uma olhada — disse. — Estragou a porta?
—Não muito. Embora o ferrolho de segurança esteja quebrado.
Ela fez uma careta de dor.
—Machucou o ombro?
—Estou bem. —Tirou o empapado casaco e o pendurou em um gancho que havia na parede. — Tire isso... — Com um gesto indicou o leve casaco. — Seja lá como chama isso.
Demetria colocou os braços ao redor do corpo e negou com a cabeça.
Ele lhe dirigiu um olhar impaciente.
—É um pouco tarde para modéstias de donzela.
—Poderia entrar alguém a qualquer momento.
—Duvido — disse. — Imagino que todos estão a salvo e quentes no estúdio de
Lorde Chester, observando as cabeças que estão penduradas na parede.
Demetria tentou ignorar o nó que acabava de se formar na garganta. Tinha esquecido que Lorde Chester era um ávido caçador. Inspecionou rapidamente o aposento. Adam estava certo. Não havia nenhum a vista. Não era provável que alguém tropeçasse com eles logo, e pelo que se via lá fora, a chuva não tinha intenção de amainar.
—Por favor, me diga que não é uma dessas damas que escolhem a modéstia acima da saúde.
—Não, claro que não. — Demetria tirou o casaco e o pendurou no gancho próximo ao dele. — Sabe como acender o fogo? —perguntou.
—Sempre que tivermos lenha seca.
—OH, mas deve haver alguma por aqui. Depois de tudo, é um pavilhão de caça
— levantou a cabeça e olhou Adam com olhos esperançados. — A maioria dos homens não gosta de estar aquecidos enquanto caçam?
—Depois que caçam — corrigiu distraidamente enquanto procurava lenha. — E a maioria dos homens, incluindo Lorde Chester, crê ser preguiçosa o suficientemente para preferir a curta viagem de volta à casa principal do que esforçarse em acender um fogo aqui.
—OH — Demetria permaneceu quieta por um momento, observando como ele se movia pelo recinto. Então disse. — Vou ao outro cômodo para ver se há roupa seca que possamos usar.
—Boa ideia. —Adam observou suas costas enquanto ela desaparecia de sua vista. A chuva havia colocado a camisa ao corpo dela e pôde ver os quentes e rosados tons da pele através do tecido úmido. Suas partes baixas, que estavam incrivelmente geladas devido à chuva, ficaram quentes e duras com notável velocidade. Amaldiçoou e em seguida começou a levantar a tampa de uma arca de madeira para procurar madeira.
Deus misericordioso, o que fez para merecer aquilo? Se lhe dessem uma pluma
e papel e ordenassem que escrevesse a tortura perfeita, nunca teria imaginado aquilo.
E isso porque tinha uma imaginação ativa.
—Encontrei madeira aqui!
Adam seguiu a voz de Demetria até o cômodo seguinte.
—Está aqui — indicou uma pilha de lenha perto de uma lareira. — Acredito que
Lorde Chester prefere usar esta lareira quando está aqui.
Adam olhou a larga cama com o suave edredom e travesseiros macios. Tinha uma verdadeiramente boa ideia de por que Lorde Chester preferia aquele aposento e não incluía à corpulenta Lady Chester. Imediatamente pôs lenha na lareira.
—Não acha que deveríamos usar o outro cômodo? — Perguntou Demetria.
Ela também tinha visto a larga cama.
—É óbvio que esta parece mais usada. É perigoso usar uma lareira suja.
Poderia estar entupida.
Demetria assentiu lentamente, e ele pôde ver que estava tentando com todas suas forças não parecer incomodada. Continuou procurando roupa seca enquanto
Adam se encarregava do fogo, mas tudo o que encontrou foram umas velhas mantas com áspera aparência. Adam a olhou enquanto colocava uma sobre os ombros.
—Casimira? — Disse ele alargando a palavra.
Demetria arregalou os olhos. Ele se deu conta de que ela não havia percebido de que a estava olhando. Sorriu, ou na realidade, foi bem mais mostrar os dentes. Talvez se sentisse incomodada, mas maldita fosse, ele também. Achava que era fácil para ele?
Havia dito que o amava pelo amor de Deus. Por que demônio fez tal coisa? Será que não sabia nada dos homens? Era possível que não entendesse que essa era a única coisa garantida para aterrorizálo?
Ele não queria que ela lhe confiasse seu coração. Não queria essa responsabilidade. Já foi casado. Teve seu próprio coração espremido, chutado e jogado em um montão de lixo queimado. A última coisa que queria era custodiar o de outra pessoa, especialmente o de Demetria.
—Usa o edredom da cama — disse com um encolher de ombros. Tinha que ser mais cômodo do que o que ela encontrou.
Mas ela negou com a cabeça.
—Não quero enrugálo. Não quero que ninguém saiba que estivemos aqui.
—Mmm, sim — disse ele com crueldade. — Então teria que me casar contigo, não é assim?
Pareceu tão afligida que ele murmurou uma desculpa. Bom Deus estava tornandose alguém que particularmente não gostava. Não queria ferila. Só queria...
Droga, não sabia o que queria. Nem sequer podia pensar no futuro além de dez minutos, justo nesse momento, não podia concentrarse em outra coisa que não fosse manter as mãos quietas.
Mantevese ocupado com o fogo, deixando sair um grunhido satisfeito quando uma pequena chama amarela por fim se curvou sobre uma lenha.
—Tranquila — murmurou, colocando com cuidado um pequeno ramo perto da chama. — Aí vamos, aí vamos... E... Sim!
—Adam?
—Acendi o fogo — resmungou, sentindose um pouco tolo por sua emoção.
Endireitouse e se virou. Ela ainda estava sujeitando a puída manta ao redor dos ombros.
—Não te fará bem se ficar molhada graças a camisa – comentouo.
—Não tenho muito que escolher, não é?
—Isso depende de você, suponho. Quanto a mim, vou me secar. —Seus dedos foram para os botões da camisa.
—Talvez devesse ir a outro cômodo — sussurrou ela.
Adam notou que não se moveu nem um centímetro. Deu um encolher de ombros, e em seguida tirou a camisa.
—Deveria ir — sussurrou de novo.
—Então vá — disse ele. Mas seus lábios se curvaram.
Ela abriu a boca como se fosse dizer algo, mas a fechou.
—Eu... —interrompeuse, um olhar de horror cruzou suas feições.
—Você o que?
—Devo ir. —E desta vez o fez, deixou o quarto com prontidão.
Adam sacudiu a cabeça quando se foi. Mulheres. Alguém as entendia?
Primeiro dizia que o amava. Logo dizia que queria seduzilo. E mais tarde o evitava durante dois dias. Agora parecia aterrada.
Voltou a menear a cabeça, desta vez mais rápida, seu cabelo jogou água pelo quarto. Envolvendo uma das mantas ao redor dos ombros, parou em frente ao fogo e se secou. Entretanto, sentia as pernas condenadamente incômodas. Olhou de soslaio a porta. Demetria a tinha fechado quando se foi, e dado seu presente estado de virginal vergonha, duvidava que entrasse sem bater.
Tirou a calça com rapidez. O fogo começou a esquentálo imediatamente.
Voltou a dar uma olhada à porta. Só por via das dúvidas, baixou a manta e a enrolou ao redor da cintura. De fato, parecia bastante a um kilt.
Voltou a pensar de novo na expressão do rosto dela antes que saísse correndo do quarto. Vergonha virginal e algo mais. Era fascinação? Desejo?
E o que esteve a ponto de dizer? Não foi "deveria ir” que foi o que na realidade disse.
Se houvesse se aproximando, tivesse pegado seu rosto entre suas mãos e sussurrado, "Diga", o que ela teria dito?
3 DE JULHO DE 1819.
Quase volto a dizer. E acho que ele soube. Acho que ele sabia o que eu ia dizer.


Demorei eu sei, poderia dar um monte de desculpas sobre isso, mas a verdade é que esqueci do blog mesmo
foi mals ae





sábado, 16 de junho de 2018

O Diário Secreto da Senhorita Demetria Cheever Capitulo 9


Demetria passou a seguinte semana fingindo ler tragédias Gregas. Era impossível manter a mente concentrada em um livro o suficiente para ler um de verdade, mas posto que tivesse que olhar as letras na página de vez em quando, e pensou que bem poderia escolher algo de acordo com seu humor.
Uma comédia a teria feito chorar. Uma história de amor, que Deus a perdoasse, a teria feito desejar morrer imediatamente.
Selena, a quem nunca foi conhecida por sua falta de interesse nos assuntos de outras pessoas, foi incessante na busca da razão que havia atrás do mau humor de Demetria. De fato, as únicas vezes em que não interrogava Demetria, era quando tentava alegrála. Selena estava na metade de uma dessas sessões de ânimo, entretendo Demetria com histórias sobre certa condessa que tinha jogado a seu marido de casa até que este aceitou deixála comprar quatro pequenos poodles como mascotes, quando Lady Rudland chamou brandamente à porta.
—OH, bem — disse, colocando à cabeça pela porta. — Estão as duas aqui.
Selena, não se sente dessa forma. Não é próprio de uma dama.
Selena ajustou submissamente sua postura antes de perguntar.
—O que ocorre, mamãe?
—Queria informálas de que fomos convidados à casa da Lady Chester para uma visita campestre na próxima semana.
—Quem é Lady Chester? —inquiriu Demetria, deixando seu novo manuseado volume de Tosquio sobre o colo.
—Nossa prima — respondeu Selena. — Terceiro ou quarto grau, não posso recordar.
—Segundo – corrigiu lady Rudland. — E aceitei o convite em nome de todos.
Seria de má educação não aceitar, já que é um familiar tão próximo.
—Adam vai? —perguntou Selena.
Demetria quis agradecer mil vezes a amiga por ter perguntado o que ela não se atrevia a expressar.
—É melhor que vá. Conseguiu escapar das obrigações familiares durante muito tempo — disse Lady Rudland com incomum dureza. — Se não o fizer, terá que responder ante mim.
—Céus — disse Selena impassível. — Que ideia tão terrível.
—Não sei o que acontece com esse menino — disse Lady Rudland com um movimento de cabeça. — É quase como se estivesse nos evitando.
Não, pensou Demetria com um sorriso triste, só a mim.
Adam dava tapinhas impaciente com o pé enquanto esperava que sua família descesse. Pela décima quinta vez essa manhã, encontrouse desejando parecer mais ao resto dos homens da alta sociedade, muitos dos quais ignoravam as mães ou as tratavam como fragmentos de penugens. Mas de alguma forma, sua mãe conseguiu que aceitasse ir aquela condenada festa de fim de semana no campo, a qual é obvio Demetria também iria.
Era um idiota. Esse dia estava conseguindo que o fato se voltasse cada vez mais claro.
Um idiota que aparentemente tinha ofendido o destino, porque logo que sua mãe chegou ao vestíbulo, disse:
—Terá que ir com Demetria.
Aparentemente os deuses tinham um mórbido senso de humor.
Clareou a garganta.
—Acha que é boa ideia, mãe?
Ela lhe dirigiu um olhar de impaciência.
—Não vai seduzir à garota, não é?
Maldita fosse!
—Claro que não. É só que terá que ter em conta sua reputação. O que dirão as pessoas quando nos vir chegar à mesma carruagem? Todo mundo saberá que passamos várias horas a sós.
—Todo mundo pensa em vocês como se fossem irmão e irmã. Encontrarnosemos a uma milha de Chester Park e trocaremos, e assim chegará com seu pai. Não haverá nenhum problema. Além disso, seu pai e eu precisamos falar a sós com Selena.
—O que fez agora?
—Aparentemente chamou Georgiana Elster de tola.
—Georgiana Elster é uma tola.
—Na cara, Adam! Disse na cara.
—Desajuizado da parte dela, mas nada que requeira uma repreensão de duas horas, em minha opinião.
—Isso não é tudo.
Adam suspirou. Sua mãe estava decidida. Duas horas a sós com Demetria. O que tinha feito para merecer aquela tortura?
—Chamou sir Robert Kent “arminho muito grande".
—Na cara, suponho.
Lady Rudland assentiu.
—O que é um arminho?
—Não tenho a menor ideia, mas suponho que não seja um elogio.
—Um arminho é uma doninha, acredito — disse Demetria enquanto entrava no vestíbulo com um vestido de viagem azul nata.
Sorriu aos dois, irritantemente composta.
—Bom dia, Demetria — disse Lady Rudland energicamente. — Vai com Adam.
—Sério? —Quase se afogou com suas próprias palavras e teve que encobrir com um pouco de tosse. Adam achou uma juvenil satisfação nisso.
—Sim. Lorde Rudland e eu precisamos falar com Selena. Esteve dizendo algumas coisas bastante inapropriadas em público.
Escutouse um gemido das escadas. Três cabeças giraram ao redor para olhar
Selena enquanto descia.
—É realmente necessário, mamãe? Não pretendia fazer mal. Nunca teria chamado de bruxa miserável lady Finchcoombre se soubesse que ia se vingar.
O sangue abandonou o rosto de Lady Rudland.
—Chamou lady Finchcoombre de miserável?
—Não sabia? — Perguntou fracamente Selena.
—Adam, Demetria, sugiro que vão já. Nos veremos em algumas horas.
Afastaramse em silencio até a carruagem que os esperava, e Adam sustentou a mão no alto para ajudar Demetria enquanto subia. Os dedos enluvados dela pareciam elétricos sobre os dele, mas ela não devia ter sentido o mesmo, posto que soasse singularmente imutável quando murmurou:
—Espero que minha presença não seja uma prova muito dura para você, milord.
A resposta de Adam foi uma mescla entre grunhido e suspiro.
—Eu não planejei, sabe?
Sentou de frente a ela.
—Sei.
—Não tinha nem ideia de que... —Ela levantou a vista. — Sabe?
—Sei. Minha mãe estava bastante resolvida a falar a sós com Selena.
—OH. Obrigada por acreditar, então.
Ele deixou sair o ar contido, olhando pela janela durante um momento enquanto a carruagem ficava em movimento.
—Demetria eu não acredito que seja algum tipo de mentirosa e incorrigível.
—Não, claro que não — disse ela com rapidez. — Mas parecia bastante furioso quando me ajudou a subir à carruagem.
—Estava furioso com o destino, Demetria, não contigo.
—Que bom — disse ela friamente. — Bom, se me desculpar, trouxe um livro. — retorceuse de forma que a maior parte possível de suas costas estivesse de rosto a ele e começou a ler.
Adam esperou ao redor de trinta segundos antes de perguntar.
—O que é isso que está lendo?
Demetria ficou gelada, logo se moveu lentamente, como se estivesse completando a mais odiosa das tarefas. Levantou o livro.
— Ésquilo.
—Que deprimente.
—Igual ao meu humor.
—OH querida, isso foi um dardo envenenado?
—Não seja condescendente, Adam. Nestas circunstâncias, é pouco apropriado.
Ele elevou as sobrancelhas.
—E o que significa isso exatamente?
—Significa que depois de tudo o que... Ehh... Ocorreu entre nós, sua atitude de superioridade já não é justificada.
—Caramba! Essa sim que foi uma frase longa.
Demetria deixou que seu olhar respondesse por ela. Aquela vez, quando voltou a segurar o livro, cobriu inteiramente o rosto.
Adam riu entre dentes e inclinou para trás, surpreso pelo muito que estava se divertindo. As mais caladas eram sempre as mais interessantes. Demetria talvez nunca escolhesse por si mesma colocarse no centro das atenções, mas podia defenderse em uma conversa com inteligência e estilo. Fazêla fisgar o anzol era altamente divertido. E não se sentia culpado nem um pouco por isso. Apesar de sua malhumorada forma de agir, Adam não tinha dúvidas de que ela desfrutava de cada farpa de seus enfrentamentos verbais tanto quanto ele.
Talvez aquela viagem não fosse tão terrível. Só tinha que assegurarse de mantêla ocupada naquele tipo de divertida conversa e não olhar os lábios dela muito tempo.
Gostava muito daqueles lábios.
Mas não ia pensar nisso. Reataria o batepapo e tentar desfrutar igual fazia antes que de se envolverem em toda aquela confusão. Sentia bastantes saudades da velha amizade com Demetria, e supôs que já que ficariam presos juntos naquela carruagem durante duas horas, então veria o que poderia fazer para ajeitar as coisas.
—O que está lendo? —perguntou.
Ela levantou a vista, irritada.
—Ésquilo. Não me perguntou isso já?
—Queria dizer, que livro de Ésquilo — improvisou ele.
Para sua diversão, ela teve que baixar a vista ao livro antes de responder:
—As Euménides. — Ele piscou. —Você não gosta?
—Todas essas mulheres furiosas? Não acredito. Dême uma boa história de aventuras um dia qualquer.
—Eu gosto de mulheres furiosas.
—Sente uma forte empatia? OH, querida, não, não aperte os dentes, Demetria, você não gostaria de ter que ir ao dentista, juro isso.
A expressão dela foi tal, que ele não pôde fazer mais que rir.
—OH, não seja tão sensível, Demetria.
Ainda fulminandoo com o olhar, ela murmurou:
—Sinto muito, milord.
E logo conseguiu de algum jeito fazer uma reverencia total ali no meio da carruagem.
A risada de Adam explodiu em divertidas gargalhadas.
—OH, Demetria — disse, enxugando os olhos. — É uma joia.
Quando se recuperou por fim, ela estava olhandoo como se ele estivesse louco. A ele ocorreu durante um segundo levantar as mãos como se fossem garras e soltar algum tipo de som animal estranho, só para confirmar suas hipóteses. Mas ao final, simplesmente se recostou para trás e sorriu de orelha a orelha.
Ela sacudiu a cabeça.
—Não o entendo.
Ele não respondeu, sem desejar que a conversa voltasse para águas mais sérias.
Ela voltou a elevar seu livro, e aquela vez, ele se dedicou há cronometrar quantos minutos passava antes que virasse a página. Quando o resultado foi de cinquenta segundos, desenhou um sorriso.
—Uma leitura difícil?
Demetria baixou lentamente o livro e lançou um olhar mortal em sua direção.
—Perdão?
—Muitas palavras grandes?
Ela simplesmente o olhou.
—Não mudou de página desde que começou.
Ela deixou escapar um forte grunhido e com grande determinação, passou a página.
—É em inglês ou em grego?
—Perdão?
—Se estiver em grego, isso explicaria sua velocidade.
Os lábios dela se abriram.
—Ou a falta dela — disse ele com um encolhimento de ombros.
—Sei ler grego — disse ela entre dentes apertados.
—Sim e é um lucro elogiável.
Ela baixou a vista a suas mãos. Estavam apertando o livro com tanta força, que os nódulos estavam ficando brancos.
—Obrigada — disse forçada.
Mas ele não tinha acabado.
—Pouco comum para uma mulher, não acha?
Aquela vez, ela decidiu ignorálo.
—Selena não pode ler em grego — disse ele conversador.
—Selena não tem um pai que não faz outra coisa que não seja ler em grego —
Demetria respondeu sem levantar a vista. Tentou concentrarse nas palavras da parte superior da nova página, mas não tinham muito sentido, posto que não tivesse terminado de ler à anterior. Nem sequer havia começado.
Deu tapinhas com um dedo enluvado contra o livro enquanto fingia ler. Não acreditava que houvesse maneira alguma de voltar para a página anterior sem que ele notasse. Tampouco importava muito, pois duvidava que conseguisse ler nada mais enquanto ele estivesse olhando com aquele olhar de cílios espessos para ela. Era mortal, decidiu. A fazia arder e estremecer ao mesmo tempo, ela estava completamente irritada com o homem.
Estava totalmente segura de que ele não tinha interesse em seduzila, mas apesar de tudo, estava fazendo um bom trabalho.
—Um talento peculiar, esse.
Demetria aspirou aos lábios e levantou a vista para ele.
—Sim?
—Ler sem mover os olhos.
Ela contou até três antes de responder.
—Alguns de nós não temos a necessidade de articular as palavras quando leem
Adam.
—Touché, Demetria. Sabia que ainda ficava alguma faísca.
Cravou as unhas com força no assento acolchoado. Um, dois, três. Segue contando. Quatro, cinco, seis. A aquele passo, teria que chegar até cinquenta se quisesse controlar seu caráter.
Adam a observou mover a cabeça ligeiramente ao som de algum ritmo desconhecido e sentiu curiosidade.
—O que faz?
Dezoito, dezenove...
—O que?
—O que faz?
Vinte.
—Está ficando extremamente incomodo Adam.
—Sou persistente. —Sorriu zombador. — Acreditei que você, de todas as pessoas, apreciaria esse traço. E agora, o que estava fazendo? Estava meneando a cabeça de uma forma da mais curiosa.
—Se quer saber — disse cortante — estava contando interiormente para assim poder controlar meu temperamento.
Ele a olhou durante um momento, então disse:
—Sinto calafrios somente em pensar o que poderia ter me dito se tivesse deixado de contar antes.
—Estou perdendo a paciência.
—Não! —disse ele com fingida incredulidade.
Agarrou o livro uma vez mais, tentando ignorálo.
—Deixa de torturar esse pobre livro, Demetria. Nos dois sabemos que não está lendo.
—Vai me deixar em paz? – Ela explodiu por fim.
—Até que número chegou?
—O que?
—Que número? Disse que estava contando para assim não ofender minha tenra sensibilidade.
—Não sei. Vinte. Trinta. Não sei. Deixei de contar faz mais ou menos uns quatro insultos.
—Chegou até trinta? Mentiu Demetria. Não acredito que tenha perdido sua paciência comigo absolutamente.
—Sim, perdi — disse ela com os dentes apertados.
—Não acredito.
—Aaaargh! — atirou o livro nele. Bateu em um lado da cabeça.
—Ai!
—Não seja menino.
—Não seja tirana.
—Deixa de me provocar!
—Não estava te provocando.
—OH, por favor, Adam.
—OH, de acordo — disse petulante, esfregando o lado da cabeça. — Estava te provocando. Mas não teria feito se não tivesse me ignorado.
—Me perdoe, mas achei que queria que te ignorasse.
—De onde diabo tirou essa ideia?
A boca de Demetria se abriu de repente.
—Está louco? Me evitou como a uma praga durante ao menos os últimos quinze dias. Até evitou sua mãe para me evitar.
—Bom, não é verdade.
—Diga a sua mãe.
Ele piscou.
—Demetria, eu queria que fôssemos amigos.
Ela sacudiu a cabeça. Havia palavras mais cruéis na língua inglesa?
—Não é possível.
—Por que não?
—Não pode ter ambas as coisas. —Continuou Demetria, usando cada gota de energia para evitar que sua voz tremesse. — Não pode me beijar e logo me dizer que quer que sejamos amigos. Não pode me humilhar como fez nos Worthington, e logo declarar que gosta de mim.
—Temos que esquecer o que aconteceu — disse ele brandamente. — Devemos deixar para trás, se não pelo bem de nossa amizade, então pelo de nossa família.
—Você pode fazer isso? — Exigiu Demetria. — De verdade pode esquecer? Porque eu não.
—É obvio que posso — disse, um pouco facilmente.
—Careço de sua sofisticação, Adam — disse, e logo acrescentou gelidamente.
Ou talvez, não sou tão superficial como você.
—Eu não sou superficial, Demetria. —Devolveu com rapidez. — Sou sensato.
Deus sabe que um de nós tem que ser.
Demetria desejou ter algo que dizer. Desejou ter alguma mordaz resposta que o humilhasse, que o deixasse sem palavras, deixandoo como um montão sujo e gelatinoso de patética podridão.
Mas em lugar disso só tinha a si mesmo e as horríveis e furiosas lágrimas que lhe ardiam atrás dos olhos. E nem sequer estava segura de poder fulminálo adequadamente com o olhar, assim olhou a outro lado, contando os edifícios enquanto passavam pela janela e desejando estar em qualquer outro lugar.
E com qualquer outra pessoa.
E aquilo era o pior, porque em toda sua vida, inclusive com uma melhor amiga que era mais bonita, mais rica, e tinha melhores conexões que ela, Demetria nunca desejou estar com ninguém mais do que com quem estava.
Em toda sua vida, Adam fez coisas das quais não estava orgulhoso. Tinha bebido muito e vomitado sobre um tapete valioso. Apostado dinheiro que não possuía.
E inclusive uma vez montou seu cavalo com muita dureza e pouco cuidado e deixou o animal manco durante uma semana.
Mas nunca havia se sentido tão baixo como enquanto olhava o perfil de Demetria, dirigido de forma tão decidida para a janela.
Tão decididamente longe dele.
Não falou durante um longo momento. Deixaram Londres para trás, atravessando os subúrbios onde os edifícios se tornavam mais escassos e longínquos entre si, e finalmente alcançaram o ondulado campo aberto.
Ela não o olhou nem uma vez. Sabia. Tinha estado olhandoa.
E por isso, por fim, posto que não pudesse tolerar outra hora mais de silêncio, nem podia chegar a expor o que era exatamente o que significava aquele silêncio, falou.
—Não pretendia te insultar, Demetria — disse em voz suave, — Mas sei quando algo é uma má ideia. E ter uma confusão amorosa contigo é uma ideia extremamente má.
Ela não se virou, mas a ouviu dizer:
—Por quê?
Olhoua, incrédulo.
—No que está pensando, Demetria? Não importa nada sua reputação? Se correrem rumores sobre nós, estará arruinada.
—Ou teria que se casar comigo — disse com voz baixa e maliciosa.
—O que não tenho intenção de fazer. Sabe. —Jurou em voz baixa. Deus santo, aquilo estava saindo tudo errado. — Não quero me casar com ninguém. —Explicou. — E isso também sabe.
—O que eu sei — a devolveu com rapidez, os olhos com brilhos de evidente fúria — é que... — e então parou, fechando com força a boca e cruzando os braços.
—O que? —exigiu ele.
Ela voltou a virar para a janela.
—Não o entenderia. —E logo adicionou. — Nem me escutaria.
Seu tom depreciativo foi como se tivesse unhas lhe arranhando sob a pele.
—OH, por favor. A petulância não combina com você.
Ela se virou com rapidez.
—E como deveria agir? Digame, como se supõe que tenho que me sentir?
Os lábios dele se curvaram.
—Agradecida?
Agradecida?
Ele se sentou para trás, seu corpo inteiro era uma prova viva de insolência.
—Poderia ter te seduzido, sabe? Com facilidade. Mas não o fiz.
Ela ofegou e se tornou para trás, e quando falou, sua voz foi baixa e letal.
—É odioso, Adam.
—Só estou te dizendo à verdade. E sabe por que não fiz mais? Por que não retirei a camisola de seu corpo, a deitei, e tomei ali mesmo naquele sofá?
Ela arregalou os olhos, e sua respiração ficou audível e ele soube que estava sendo cru, grosseiro, e sim, odioso, mas não podia deterse, não podia deter sua franqueza, porque, maldita fosse, ela tinha que entender. Tinha que compreender quem era ele na realidade, e do que era e não era capaz de fazer.
E aquilo... Aquilo. Por ela. Conseguiu fazer o honrável por ela, e não estava sequer agradecida?
—Direi isso — virtualmente vaiou. — Contiveme pelo respeito que tenho a você. E te direi mais... — detevese, perjurou e ela o olhou interrogante, atrevida, provocadora, como dizendo: nem sequer sabe o que quer dizer.
Mas esse era o problema. Sabia, e esteve a ponto de dizer o muito que a tinha desejado. Que se estivesse em qualquer outro lugar que não fosse a casa de seus pais, não estava seguro de ter se detido.
Não estava seguro se poderia ter parado.
Mas ela não precisava saber aquilo. Não saberia. Não necessitava aquele poder sobre ele.
—Pode acreditar — murmurou, mais para si mesmo que para ela. — Não queria arruinar seu futuro. —Meu futuro é da minha conta — respondeu zangada. — Sei o que faço.
Soprou desdenhoso.
—Tem vinte anos. Acha que sabe tudo.
Ela o olhou zangado.
—Quando eu tinha vinte, acreditava que sabia tudo — disse ele dando um encolher de ombros.
Os olhos dela se entristeceram.
—Eu também — disse brandamente.
Adam tentou ignorar o desagradável nó de culpa que se retorcia em seu estômago. Nem sequer estava seguro de por que se sentia culpado, e de fato, todo aquilo era ridículo. Não deveria sentirse culpado por não tomar a inocência dela e tudo o que conseguiu pensar em dizer foi:
—Algum dia me agradecerá por isso.
Ela olhou incrédula.
—Soa igual a sua mãe.
—Está ficando áspera.
—Pode me culpar? Está me tratando como uma menina, quando sabe muito bem que sou uma mulher.
O nó de culpabilidade fez que crescessem os tentáculos.
—Posso tomar minhas próprias decisões — disse desafiante.
—É óbvio que não. — inclinouse para frente, um perigoso brilho em seus olhos. — Ou não teria me deixado descer o vestido na semana passada e beijar seus seios.
Ela ruborizou com o carmesim profundo da vergonha, e sua voz tremeu com acusação quando disse:
—Não tente dizer que é minha culpa.
Ele fechou os olhos e passou ambas as mãos pelo cabelo, consciente de que acabava de dizer algo muito, muito estúpido.
—É obvio que não é sua culpa, Demetria. Por favor, esquece que disse isso.
—E quer que esqueça que me beijou também. —Sua voz estava desprovida de toda emoção.
—Sim. — Olhoua e viu uma espécie de falta de vida em seus olhos, algo que nunca tinha visto antes em seu rosto. — OH, Deus, Demetria, não faça isso.
—Não faça isto, faz aquilo. — Gritou. — Esquece isto, não esqueça aquilo. Seja claro, Adam. Não sei o que quer. E acredito que você tampouco.
—Sou mais velho que você nove anos — disse com voz imponente. — Não me menospreze.
—Sinto muito, sua alteza.
—Não faça isso, Demetria.
E o rosto dela, que tinha estado tão reservado e gélido, de repente estalou com emoção.
—Deixa de me dizer o que tenho que fazer! Alguma vez te ocorreu que eu queria que me beijasse? Que queria que me desejasse? E me deseja, sabe. Não sou tão tola para que possa me convencer do contrário.
Adam só pôde olhála fixamente, sussurrando:
—Não sabe o que diz.
—Claro que sim! — Os olhos cintilavam e as mãos curvaram tremulas e em punhos, e ele teve uma terrível, horrível premonição de que aquele era o momento.
Tudo dependia daquele momento, e soube, sem nem sequer pensar no que ela diria, e no que responderia que não terminaria bem.
—Sei exatamente o que estou dizendo — disse ela. — Desejo você.
O corpo dele se esticou e o coração apertou no peito. Mas não podia permitir que aquilo continuasse.
—Demetria, só acha que me deseja — disse com rapidez. — Nunca beijou ninguém antes e...
—Não me trate com condescendência. —Seus olhos o olharam diretamente, e estavam ardendo de desejo. — Sei o que quero e desejo você.
Ele aspirou de forma irregular. Merecia ser santificado pelo que estava a ponto de dizer.
—Não. Não me deseja. É uma teimosia.
—Maldito seja! — Explodiu. — Está cego? Está surdo, tolo e cego? Não é teimosia, idiota! Amo você!
OH, Meu Deus.
—Sempre te amei! Desde que nos vimos a primeira vez há nove anos. Amei todo este tempo, a cada minuto.
—OH, Meu Deus.
—E não me tente dizer que é um amor infantil porque não é. Pode ser que foi em algum momento, mas já não.
Adam não disse nada. Só ficou ali sentado como um imbecil e a olhou.
—Eu só... Conheço meu coração e te amo, Adam. E se tiver o menor pingo de decência, dirá algo, porque disse tudo o que talvez pudesse dizer e não posso suportar o silêncio e... OH, Por amor de Deus! Vai pelo menos piscar?
Ele nem sequer foi capaz de fazer aquilo.