segunda-feira, 16 de abril de 2018

O Diário Secreto da Senhorita Demetria Cheever Capitulo1


Joseph Bevelstoke, mais conhecido como Adam por todo aquele que se preocupava em tentar agradálo, sabia muitas coisas. Sabia ler latim e grego, e sabia como seduzir uma mulher em francês e italiano. Sabia atirar em um objetivo em movimento do alto de um cavalo em movimento, e sabia exatamente quanto podia beber antes de perder a dignidade.
Podia dar um soco ou defenderse como um perito, e podia fazer ambos enquanto recitava Shakespeare ou Donne.
Resumindo, sabia tudo o que um cavalheiro tinha que saber, e, conforme se dizia, sobressaíase em todas as áreas.
As pessoas o olhavam.
As pessoas elevavam os olhos para observálo.
Mas nada nem um segundo de sua proeminente e privilegiada vida o preparou para aquele momento. E nunca sentiu tanto o peso de um olhar como agora, enquanto dava um passo à frente e jogava um pouco de terra sobre o caixão de sua esposa.
Sinto tanto, seguia dizendo as pessoas. Sinto muito. Sentimos muito.
E enquanto isso, Adam não podia evitar pensar se Deus o castigaria, porque tudo no que podia pensar era: Eu não.
Ah, Camille. Tinha tanto que agradecer a ela. Vejamos. Por onde começar? É obvio, estava a perda de sua reputação. Só o demônio sabia quantas pessoas eram conscientes de que lhe pôs chifres. Várias vezes. Em seguida estava a perda de sua inocência. Era difícil recordar nesse momento, mas uma vez tinha dado à humanidade o benefício da dúvida. Em geral, acreditou no melhor das pessoas, que se tratassem os outros com honra e respeito, eles fariam o mesmo com relação a ele.
E logo havia a perda de sua alma.
Porque enquanto retrocedia, juntando as mãos rigidamente atrás dele enquanto escutava o sacerdote enviar o corpo de Camille ao chão, não podia escapar do fato de que desejou aquilo. Quis livrarse dela.
E não choraria sua morte.
—É uma pena — sussurrou alguém a suas costas.
A mandíbula de Adam se contraiu. Aquilo não era uma pena. Era uma farsa. E agora passaria o próximo ano vestindose de preto por uma mulher que chegou a ele levando o filho de outro homem. Tinha enfeitiçadoo, atormentado até que não pode pensar em outra coisa que não fosse possuíla. Disse que o queria, e sorriu com suave inocência e deleite quando ele declarou sua devoção e prometeu sua alma.
Ela tinha sido seu sonho.
E mais tarde seu pesadelo.
Perdeu o bebê, que apressou o matrimônio. O pai era um conde italiano, ou ao menos era o que Camille dizia. Estava casado, ou eram pouco convenientes ou talvez ambas as coisas. Adam esteve preparado para perdoála; todos cometiam erros, e não quis ele também seduzila antes da noite de núpcias?
Mas Camille não quis seu amor. Não sabia que demônio queria, poder, talvez, a embriagadora sensação de satisfação quando outro homem caía sob seu feitiço.
Adam se perguntava se Camille havia sentido isso quando ele sucumbiu. Ou talvez tenha sido simplesmente alívio. Estava grávida de três meses quando se casaram. Não tinha tempo que perder.
E agora aqui estava ela. Ou bem, ali estava ela. Adam não estava muito seguro de que pronome de lugar era mais adequado para um corpo sem vida.
O que fosse. Só lamentava que ela passasse a eternidade em seu solo, descansando entre os Bevelstoke passados. Sua lápide levaria o nome dele, e em umas centenas de anos, alguém olharia a gravura no granito e pensaria que foi uma boa mulher, e que era uma tragédia que tivesse morrido tão jovem.
Adam elevou a vista para o sacerdote. Era um tipo jovem, novo na paróquia e pelo que se dizia ainda convencido de que poderia fazer do mundo um lugar melhor.
—Cinzas as cinzas — disse o sacerdote, e elevou os olhos para o homem que se supunha ser o aflito viúvo.
OH sim, pensou Adam mordaz, esse seria eu.
—Pó ao pó.
Atrás dele até alguém sorveu com ruído.
E o sacerdote, seus brilhantes olhos azuis com aquele horrível e imerecido brilho de simpatia, seguiu falando:
—Confiando na ressurreição...
Bom Deus.
—Á vida eterna.
O sacerdote olhou Adam e de fato estremeceu. Adam se perguntou o que era exatamente o que viu em seu rosto. Nada bom isso estava claro.
Houve um coro de améns, e nesse momento terminou o serviço. Todos olharam o sacerdote, e olharam Adam e em seguida todos observaram o sacerdote segurar as mãos de Adam nas suas e dizer:
—Sentimos muito.
—Eu —disse Adam entre os dentes apertados — não.
Não posso acreditar que disse isso.
****
Demetria baixou a vista às palavras que acaba de escrever. Naquele momento, estava na página quarenta e dois de seu décimo terceiro diário, mas aquela era a primeira vez, a primeira desde aquele fatídico dia, nove anos antes, que não tinha nem ideia do que escrever. Inclusive quando os dias eram aborrecidos, e estavam acostumados a ser, conseguia escrever apressadamente uma anotação.
Em Maio, quando tinha quatorze anos...
Despertei.
Vestime.
Tomei o café da manhã: torradas, ovos, bacon.
Li Razão e sensibilidade, autor, dama desconhecida.
Escondi Razão e sensibilidade do meu pai.
Comi: frango, pão, queijo.
Conjuguei verbos franceses.
Escrevi uma carta à vovó.
Jantei: bife, sopa, pudim.
Li mais de Razão e sensibilidade, a identidade da autora ainda desconhecida.
Retireime.
Dormi.
Sonhei com ele.
Este não devia confundirse com a anotação de 12 de Novembro do mesmo ano...
Despertei.
Tomei o café da manhã: ovos, torradas, presunto.
Fiz um grande alarde de leitura da tragédia grega. Em vão.
Passei a maior parte do tempo olhando pela janela.
Almocei: peixe, pão, ervilhas.
Conjuguei os verbos em Latim.
Escrevi uma carta à vovó.
Jantei: assado, batatas, pudim.
Levei a tragédia à mesa (o livro, não o evento)
Papai não se deu conta.
Retireime.
Dormi.
Sonhei com ele.
Mas agora, agora que algo enorme e transcendental ocorreu, o que nunca havia acontecido, não tinha nada a dizer, exceto...
Não posso acreditar que disse isso.
—Bem, Demetria — murmurou, observando a tinta seca na ponta da pluma — não será famosa como novelista.
—O que disse?
Demetria fechou de repente o diário. Não se deu conta de que Selena havia entrado no quarto.
—Nada — disse com rapidez.
Selena caminhou pelo tapete e se deixou cair sobre a cama.
—Que dia tão horrível.
Demetria assentiu, girando no assento para poder estar de cara com a amiga.
—Alegrame que esteja aqui — disse Selena com um suspiro. — Obrigada por ficar o resto da noite.
—É obvio — replicou Demetria.
Não houve perguntas, não quando Selena disse que precisava dela.
—O que escreve?
Demetria olhou o diário, só para darse conta de que suas mãos descansavam protetoras sobre ele.
—Nada — disse.
Selena tinha estado com os olhos fixos no teto, mas ante isso moveu a cabeça em direção a Demetria.
—Isso não pode ser verdade.
—Tristemente, é.
—Por que é triste?
Demetria piscou. Selena estava acostumada fazer as perguntas mais óbvias, e as que tinham respostas menos óbvias.
—Bom — disse Demetria, não precisamente para ganhar tempo, já que na realidade, era mais porque estava tentando pensar enquanto o fazia. Moveu as mãos e olhou o diário como se a resposta correta estivesse magicamente inscrita na capa.
—Isto é tudo o que tenho. É o que sou.
Selena a olhou duvidosa.
—É um livro.
—É minha vida.
—Por que será —opinou Selena— que as pessoas me chamam de dramática?
—Não digo que seja minha vida — disse Demetria com um tom de impaciência,
— só que a contém. Tudo. Tenho escrito tudo. Desde que tinha dez anos.
—Tudo?
Demetria pensou nos muitos dias em que registrou obedientemente o que comeu e pouco mais.
—Tudo.
—Eu nunca poderia ter um diário.
—Não.
Selena virou e ficou de lado, escorando a cabeça com uma mão.
—Não tem por que estar de acordo comigo com tanta rapidez.
Demetria simplesmente sorriu.
Selena se deixou cair para trás.
—Creio que vai escrever que tenho um curto lapso de atenção.
—Já escrevi.
Silêncio, então:
—Sério?
—Acredito que disse que se aborrecia com facilidade.
—Bom — replicou sua amiga, com um único momento de reflexão — é bastante certo.
Demetria voltou a baixar o olhar à escrivaninha. A vela derramava brilhos de luz sobre o secante, e se sentiu repentinamente cansada. Cansada, mas felizmente, não sonolenta.
Esgotada, talvez. Intranquila.
—Estou exausta — declarou Selena, deslizando para fora da cama.
A criada havia deixado a roupa de dormir sobre as mantas e Demetria virou cabeça respeitosamente enquanto Selena se trocava.
—Quanto tempo acha que Adam ficará aqui? —perguntou Demetria, tentando não morder a língua. Odiava ficar ainda tão desesperada por vêlo embora fosse fugazmente, mas assim foi durante anos. Inclusive quando ele se casou e ela se sentou em um banco da igreja durante o casamento e o observou, quer dizer, o viu olhar a noiva com todo o amor e a devoção que ardiam em seu próprio coração...
Ainda o olhava. Ainda o queria. Sempre o faria. Era o homem que a fez acreditar em si mesma. Ele não tinha nem ideia do que lhe fez — o que fez por ela— e provavelmente não saberia nunca. Mas Demetria ainda suspirava por ele. E provavelmente suspiraria sempre.
Selena engatinhou para cama.
—Ficará acordada por muito tempo? —perguntou, a voz pesada pelo inicio do torpor.
—Não muito. —Assegurou Demetria.
Selena não podia dormir com uma vela acesa tão perto.
Demetria não podia entender, já que o fogo da lareira não parecia incomodála, mas viu Selena se mexer e virar com seus próprios olhos, e por isso, quando se deu conta de que sua mente estava ainda funcionando e que "não muito" tinha sido um pouco mentiroso. Inclinouse para frente e soprou a vela.
—Levarei isto a outro lugar — disse Demetria, colocando o diário sob o braço.
—Obrigada — murmurou Selena, e no momento em que Demetria lhe pôs uma coberta e chegou ao corredor, já estava dormindo.
Demetria segurou o diário sob o queixo e o encaixou contra o esterno para liberar as mãos e poder amarrar o roupão à cintura. Era uma convidada noturna frequente em Haverbreaks, mas ainda assim, não era questão de vagar pelos corredores da casa de outra pessoa com nada mais que uma camisola.
Era uma noite escura, como única guia tinha a luz da lua que se filtrava através das janelas, mas Demetria poderia ter feito o caminho do quarto de Selena até a biblioteca com os olhos fechados. Selena sempre dormia antes que ela — tinha muitos pensamentos na cabeça, dizia Selena— e por isso Demetria estava acostumada a levar o diário a outro aposento para guardar seus pensamentos. Supunha que poderia ter pedido um quarto para ela, mas a mãe de Selena não acreditava em extravagâncias desnecessárias e não via razão para esquentar dois quartos quando com um era suficiente.
Demetria não se importava. De fato, agradecia a companhia. Sua própria casa estava muito silenciosa aqueles dias. Sua querida mãe tinha morrido fazia quase um ano e Demetria ficou sozinha com o pai. Devido à dor, seu pai se trancou com os preciosos manuscritos, deixando que a filha se arrumasse por conta própria. Demetria foi aos Bevelstoke em busca de amor e amizade, e eles a acolheram com os braços abertos. Selena inclusive se vestiu de negro durante três semanas em honra à Lady Cheever.
—Se uma de minhas primas morresse me veria obrigada a fazer o mesmo — disse Selena no funeral— E de verdade, gostava da sua mãe muito mais que a qualquer de minhas primas.
—Selena! —Demetria estava comovida, mas ainda assim, pensou que deveria estar surpreendida.
Selena revirou os olhos.
—Conheceu minhas primas?
E Demetria riu. No funeral de sua própria mãe, riu. Mais tarde se deu conta de que era o presente mais precioso que sua amiga poderia ter lhe devotado.
—Amo você, Livvy — disse.
Selena segurou a mão dela.
—Sei que sim — disse brandamente. — E eu a você. – Em seguida ajeitou os ombros e assumido sua postura usual. — Seria bastante incorrigível sem você, sabe?
Minha mãe costumame dizer que é a única razão pela qual não cometi alguma ofensa irredimível.
Era provavelmente por essa razão, refletiu Demetria, que Lady Rudland se ofereceu para ser sua madrinha durante a temporada em Londres. Ao receber o convite, seu pai suspirou com alívio e adiantou com rapidez os recursos necessários. Sir Rupert Cheever não era um homem excepcionalmente rico, mas possuía o suficiente para cobrir uma temporada em Londres para sua única filha. O que não possuía era a paciência necessária — ou para ser franca, o interesse — para levála ele mesmo.
A estreia de Demetria e Selena se atrasou um ano. Demetria não pôde ir durante o período de luto de sua mãe, e Lady Rudland decidiu permitir a Selena esperar também.
Com vinte anos o fariam tão bem como com dezenove, declarou. E era verdade; ninguém estava preocupado se Selena conseguiria um grande partido. Com sua incrível beleza, vivaz personalidade, e, como Selena assinalava ironicamente, o enorme dote, estavam seguros de que teria êxito.
Mas a morte da Camille, além de ter sido trágica, foi particularmente inoportuna; agora teriam que guardar outro período de luto. Entretanto, a Selena bastaria apenas seis semanas, já que Camille não era irmã de sangue.
Chegariam só um pouco tarde para a temporada. Não podia evitar.
Secretamente, Demetria estava contente. Pensar em um baile em Londres a atemorizava completamente. Não porque fosse tímida precisamente, porque não achava que fosse. Era só que não gostava de grandes multidões e pensar em tantas pessoas olhandoa e julgandoa horrível.
Não se pode evitar, pensou enquanto descia as escadas. E em todo caso, seria ainda pior ficar presa em Ambleside, sem Selena como companhia.
Demetria fez uma pausa ao pé das escadas, decidindo aonde ir. O salão ao oeste tinha a melhor escrivaninha, mas a biblioteca tendia a estar quente e fazia um pouco de frio aquela noite. Por outro lado...
— Hmmm... O que foi isso?
Inclinouse para um lado, esquadrinhando o salão. Alguém estava com o fogo aceso no estúdio de Lorde Rudland. Demetria não podia imaginar que alguém estivesse ainda levantado e por aí, os Bevelstoke sempre se retiravam cedo.
Moveuse em silencio pelo tapete do corredor até que chegou à porta.
—OH!
Adam elevou a vista da cadeira do pai.
—Senhorita Demetria — disse alargando as palavras, sem reajustar nem um músculo de sua preguiçosa postura. — Quelle surprise.
Adam não estava seguro de por que não estava surpreso de ver a senhorita Demetria Cheever de pé na entrada do estúdio de seu pai. Quando ouviu os passos no vestíbulo, de algum jeito soube que era ela. É verdade que sua família tinha tendência a dormir como troncos, e era quase inconcebível que um deles pudesse estar acordado e por aí, perambulando pelos corredores em busca de um aperitivo ou um pouco de leitura.
Mas foi algo mais que o processo de eliminação o que o conduziu até Demetria como a escolha óbvia. Ela era uma observadora, sempre ali, sempre observando a cena com aqueles olhos de coruja. Não podia recordar quando a viu pela primeira vez, provavelmente antes que a mocinha deixasse de usar laços. Na realidade era um elemento fixo, de alguma forma sempre ali, inclusive em momentos como esse, que deveria ter sido só familiar.
—Irei — disse ela.
—Não — respondeu ele, por que... Por quê?
Porque se sentia como se estivesse fazendo uma travessura?
Porque tinha bebido muito?
Porque não queria ficar sozinho?
—Fique — disse, fazendo amplos gestos com a mão. Certamente havia algum lugar mais onde sentarse ali. — Tome algo.
Ela arregalou os olhos.
—Não acredito que pudessem ficar maiores — murmurou ele.
—Não posso beber — disse ela.
—Não?
—Não deveria — corrigiuse, e ele acreditou ver como juntava as sobrancelhas.
Deus, a irritou. Era bom saber que ainda podia provocar uma mulher, inclusive uma ignorante como ela.
—Está aqui — disse ele com um encolhimento de ombros. — Bem poderia tomar um brandy.
Ficou quieta por um momento, e ele pôde jurar que podia ouvir como lhe dava voltas o cérebro. Finalmente, deixou o pequeno livro em uma mesa perto da porta e se adiantou.
—Só um — disse.
Ele sorriu.
—Porque conhece seu limite?
Os olhos de ambos se encontraram.
—Porque não conheço meu limite.
—Que sabedoria em alguém tão jovem — murmurou ele.
—Tenho dezenove — disse ela, não desafiante, mas sim como estabelecendo um fato.
Ele elevou uma sobrancelha.
—Como dizia...
—Quando você tinha dezenove...
Sorriu sarcástico, notando que ela não tinha terminado a frase.
—Quando eu tinha dezenove — repetiu por ela, estendendo uma generosa porção de brandy — era um idiota.
Olhou o próprio copo, igual em volume que o de Demetria. Apurouo em um longo e satisfatório gole.
O copo aterrissou sobre a mesa com um som surdo e Adam se reclinou para trás, deixando descansar a cabeça contra as palmas de suas mãos, os cotovelos dobrados para fora.
—Como todas as crianças de dezenove anos, deveria acrescentar — terminou.
Olhoua. Ela não havia nem tocado na bebida. Nem sequer havia se sentado ainda.
—A presente companhia talvez pudesse ser excluída — emendou.
—Achava que o brandy deveria ser servido em copos para conhaque — disse ela.
Ele a observou enquanto se sentava cuidadosamente. Não estava perto dele, mas tampouco estava na outra ponta. Seus olhos nunca deixavam os dele e não pôde evitar perguntarse o que pensava que poderia fazer a ela. Equilibrarse sobre ela?
—O brandy — anunciou como se estivesse falando com um público de mais de uma pessoa— é mais bem servido no que se tem à mão. Neste caso... — Elevou o copo e o olhou, observando como a luz da lareira dançava em sua superfície.
Não se incomodou em terminar a frase. Não parecia necessário, e, além disso, estava ocupado servindose de outro gole.
—Saúde. —E bebeu.
Olhoua. Ainda estava sentada ali, observandoo. Não podia dizer se o desaprovava; sua expressão era muito inescrutável para isso. Mas desejou que dissesse algo. Qualquer coisa, na realidade, inclusive mais tolices sobre taças, seria suficiente para tirar sua mente do fato de que ainda eram onze e meia e de que restavam trinta minutos para que pudesse declarar terminado aquele miserável dia.
—Assim me diga Senhorita Demetria, desfrutou do serviço? —perguntou, desafiandoa com o olhar a que dissesse algo além do que costumava a dizer em situações assim.
A surpresa se registrou no rosto dela, a primeira emoção da noite que Adam era claramente capaz de discernir.
—Referese ao funeral?
—O único serviço do dia — disse ele, com considerável desenvoltura.
—Foi... Er... Interessante.
—OH, vamos, Senhorita Cheever, pode fazêlo melhor.
Ela capturou o lábio inferior entre os dentes. Camille costumava fazer aquilo, o recordou. Quando ainda pretendia ser inocente. Deixou de fazer quando o anel ficou a salvo em seu dedo.
Bebeu outro gole.
—Não acred...?
—Não — disse ele energicamente.
Não havia suficiente brandy no mundo para uma noite como aquela.
E nesse momento elevou a mão, pegou o copo e tomou um gole.
—Acredito que foi esplêndido.
Maldita fosse. Tossiu e balbuciou, como se fosse ele o inocente, tomando seu primeiro gole de vinho.
—Perdão?
Ela sorriu placidamente.
—Pode ser que ajude se tomar goles menores.
Fulminoua com o olhar.
—É estranho que alguém fale honestamente de um morto — disse ela. — Não estou segura de que seria o lugar mais apropriado, mas... Bom... Não era uma pessoa muito agradável, não é verdade?
Parecia tão serena, tão inocente, mas seus olhos... Eram perspicazes.
—Ora, Senhorita Cheever — murmurou ele. — Acredito que na realidade sim tenha uma veia vingativa.
Deu um encolher de ombros e tomou outro gole de sua bebida, um pequeno, o notou.
—Que nada — disse, embora ele estivesse seguro de que acreditava. — Mas sou uma boa observadora.
Ele riu entre dentes.
—Totalmente de acordo.
Ficou rígida.
—Desculpe?
Tinha alteradoa. Não sabia por que achou tão satisfatório, mas não pôde evitar sentir prazer com isso. Passou muito tempo desde que não fazia nada que lhe desse prazer. Inclinouse para frente, só para ver se podia envergonhála.
—Estive observandoa.
Ela empalideceu. Ele pôde ver inclusive à luz da lareira.
—Sabe o que vi? —murmurou ele.
Os lábios dela se entreabriram e negou com a cabeça.
—Você esteve me observando.
Ela se levantou o repentino do movimento quase jogou a cadeira ao chão.
—Devo ir — disse. — Isto é totalmente pouco ortodoxo e está tarde, e...
—OH, venha, Senhorita Cheever — disse ele, ficando em pé. — Não se preocupe. Você observa todo mundo. Acha que não me dei conta?
Alargou a mão e a segurou pelo braço. Ela paralisou. Mas não virou.
Os dedos dele apertaram mais. Só um toque. Só o suficiente para evitar que se fosse, porque não queria que o fizesse. Não queria ficar sozinho. Restavam vinte minutos mais, e queria que ela se zangasse como ele estava zangado, como esteve durante anos.
—Me diga, Senhorita Cheever — sussurrou, colocando dois dedos na parte inferior do queixo dela. — Alguma vez a beijaram?




MAS GENTEEEEEEE ESSE ADAM É ATIRADO HEIN... ou sera que é a dor pela recente morte? nao seiiii
bjemi

sábado, 14 de abril de 2018

O Diário Secreto da Senhorita Demetria Cheever Prólogo


Quando tinha dez anos, a Senhorita Demetria Cheever não mostrava sinais de grande beleza. Seu cabelo era castanho, infelizmente igual aos olhos; e suas pernas extraordinariamente longas, negavamse á aprender qualquer coisa que pudesse ser nem remotamente chamado graça. Sua mãe costumava comentar que definitivamente andava a pernadas pela casa.
Desgraçadamente para Demetria, a sociedade em que nasceu dava grande valor à aparência feminina. E embora, só tivesse dez anos, sabia que a esse respeito era considerada inferior à maioria das outras garotas que viviam nas cercanias. As crianças sempre encontravam uma forma de inteirarse destas coisas: normalmente, graças a outras crianças.
Na festa do décimo aniversário de Lady Selena e o honorável Mikey Bevelstoke, os dois filhos gêmeos do Conde e Condessa de Rudland, ocorreu um incidente verdadeiramente desagradável. A casa de Demetria ficava bem próxima a Haverbreaks, a velha casa dos Rudland, perto de Ambleside, no distrito dos Lagos de Cumberland, e sempre compartilhou as lições com Selena e Mikey quando estavam na residência. Converteramse em um trio bastante inseparável e raramente se incomodavam em brincar com outras crianças da região, muitos dos quais viviam quase à uma hora de distancia.
Mas uma dúzia ou assim de vezes ao ano, especialmente nos aniversários, todas as crianças da nobreza e a alta burguesia local se reuniam. Foi por esta razão que
Lady Rudland deixou escapar um grunhido nada próprio de uma dama; dezoito diabinhos estavam deixando barro após pisarem com grande regozijo por toda sua sala de estar, depois que a festa dos gêmeos no jardim foi interrompida pela chuva.
—Tem barro na bochecha, Livvy — disse Demetria, elevando a mão para limpar.
Selena deixou escapar um dramático suspiro pesado.
—Será melhor que vá ao banheiro, então. Não quero que mamãe me veja assim. Ela detesta sujeira, e eu detesto ouvila dizendo o quanto a aborrece.
—Não vejo como teria tempo para reclamar por um pouco de lama em seu rosto quando tem por todo o tapete. —Demetria olhou William Evans, que deu um grito de guerra e se lançou sobre o sofá. Apertou os lábios; ou de outra forma, sorriria.
—E os móveis.
—É a mesma coisa, será melhor que faça algo com isto.
Deslizou para fora do aposento, deixando Demetria perto da entrada. Demetria observou a comoção durante um minuto ou mais, muito contente de estar em seu lugar habitual como observadora, até que, pela extremidade do olho, viu que alguém se aproximava.
—O que trouxe para Selena por seu aniversário, Demetria?
Demetria virou para ver Fiona Bennet diante ela, elegantemente vestida com um vestido branco com uma faixa rosa.
—Um livro – respondeu. —Selena gosta de ler. O que você trouxe?
Fiona elevou uma caixa vistosamente pintada amarrada com uma fita prateada.
—Uma coleção de fitas para o cabelo. Seda e cetim, muito suave. Quer ver?
—OH, mas eu não gostaria de estragar a embalagem.
Fiona deu de ombros.
—Tudo o que tem que fazer é desfazer o laço com cuidado. Eu o faço cada Natal — deslizou o laço e levantou a tampa.
Demetria conteve o fôlego. Sobre o cetim negro da caixa descansavam ao menos duas dúzias de fitas para o cabelo, todas elas requintadamente amarradas em um laço.
—São lindas, Fiona. Posso ver uma? —Fiona semicerrou os olhos. —Não tenho barro nas mãos. Olhe. —Demetria sustentou as mãos no alto para que as inspecionasse.
—OH, muito bem.
Demetria baixou a mão e levantou uma fita violeta. O cetim parecia pecaminosamente lustroso e suave em suas mãos. Colocou o laço contra o cabelo.
—O que você acha?
Fiona revirou os olhos.
—Violeta não, Demetria. Todo mundo sabe que fica melhor com o cabelo loiro.
A cor virtualmente desaparece contra o castanho. Você obviamente não pode usar um.
Demetria estendeu de volta a fita.
—Que cor combina com o cabelo castanho? O verde? Minha mamãe tem o cabelo castanho e a vi usar fitas verdes.
—O verde seria aceitável, suponho. Mas fica melhor com o cabelo loiro. Tudo fica melhor com o cabelo loiro.
Demetria sentiu uma faísca de indignação elevarse em seu interior.
—Bom, então não sei o que você irá fazer então, Fiona, já que seu cabelo é tão castanho quanto o meu.
Fiona retrocedeu com um ofego.
—Não é!
—Sim é!
—Não é!
Demetria se inclinou para frente, com os olhos entrecerrados de maneira ameaçadora.
—É melhor que de uma olhada no espelho quando estiver em casa, Fiona, porque seu cabelo não é loiro.
Fiona devolveu à fita violeta a caixa e fechou a tampa de repente.
—Bom, costumava ser loiro, enquanto que o seu nunca foi. E, além disso, meu cabelo é castanho claro e todos sabem que é melhor que castanho escuro. Como o seu.
—Meu cabelo castanho escuro não tem nada de mau! —protestou Demetria.
Mas já sabia que a maior parte da Inglaterra estava em desacordo com ela.
—E — acrescentou Fiona com malícia — tem os lábios grandes!
A mão de Demetria voou até sua boca. Sabia que não era bela; sabia que nem sequer a consideravam bonitas. Mas nunca antes tinha visto nada de mal em seus lábios. Levantou a cabeça e olhou para aquela garota que sorria com satisfação.
—Você tem sarda! —gritou.
Fiona retrocedeu como se a tivessem esbofeteado.
—As sardas somem. As minhas sumirão algum dia antes que complete os dezoito. Minha mãe põe suco de limão todas às noites. —Soprou pelo nariz com desdém. —Mas não há remédio para você, Demetria. Você é feia.
—Não é!
Ambas as garotas se viraram para ver Selena, que voltava após ter se lavado.
—OH, Selena — disse Fiona. —Sei que você e Demetria são amigas porque vivem muito próximas e compartilham as lições, mas deve admitir que não seja muito bonita.
Minha mamãe diz que nunca conseguirá um marido.
Os olhos azuis de Selena brilharam perigosamente. A única filha do conde de Rudland sempre foi excessivamente leal e Demetria era sua melhor amiga.
—Demetria conseguirá um marido melhor que o seu Fiona Bennet! O pai dela é um barão enquanto que o seu é um simples senhor.
—Ser a filha de um barão não faz muita diferença a menos que alguém tenha beleza ou dinheiro — recitou Fiona, repetindo as palavras que obviamente ouviu em casa. —E Demetria não tem nenhum dos dois.
—Calese, estúpida! —exclamou Selena, batendo o pé contra o chão. —Esta é minha festa de aniversário e se não puder ser amável, vai embora!
Fiona engoliu sem seco. Sabia bem que não deveria ofender Selena, cujos pais tinham o status mais alto da região.
—Sinto muito, Selena — murmurou.
—Não se desculpe comigo. Desculpese com Demetria.
—Sinto muito, Demetria.
Demetria ficou em silêncio até que por fim Selena lhe deu um chute.
—Aceito suas desculpas — disse a contra gosto.
Fiona assentiu e saiu correndo.
—Não posso acreditar que a chamou de estúpida — disse Demetria.
—Tem que aprender a se defender sozinha, Demetria.
—Estava me defendendo sozinha muito bem antes que você aparecesse, Livvy. Só que não em voz tão alta.
Selena suspirou.
—Mamãe diz que não tenho nenhum pingo de autocontrole, nem de sentido comum.
—É verdade — conveio Demetria.
—Demetria!
—É verdade, não tem. Mas adoro você de todas as formas.
—E eu também adoro você, Demetria. E não se preocupe pela tola da Fiona. Pode se casar com Mikey quando crescer e então seremos verdadeiras irmãs.
Demetria olhou ao outro lado do aposento e observou receosa Mikey. Estava puxando o cabelo de uma garota pequena.
—Não sei — disse duvidosa. —Não estou segura de querer me casar com Mikey.
—Tolices. Seria perfeito. Além disso, olhe, acaba de derramar ponche em cima do vestido da Fiona.
Demetria sorriu abertamente.
—Venha comigo — disse Selena, agarrando pela mão. —Quero abrir meus presentes. Prometo que gritarei mais forte quando chegar o seu.
As duas garotas caminharam de volta ao aposento e Selena e Mikey abriram os presentes. Felizmente, na opinião de Lady Rudland, terminou as quatro em ponto, à hora em que as crianças deveriam voltar para casa. Nenhum menino foi recolhido por serventes; um convite a Haverbreaks era considerado uma grande honra, e nenhum dos pais queriam perder a oportunidade de acotovelarse com o conde e a condessa.
Nenhum pai, exceto o de Demetria. As cinco ainda estavam na sala, avaliando os presentes de aniversário com Selena.
—Não posso imaginar o que terá ocorrido aos seus pais, Demetria — disse Lady Rudland.
—OH, eu sim — replicou Demetria jovialmente. —Mamãe foi a Escócia visitar a mãe dela e estou segura de que papai se esqueceu de mim. Faz frequentemente, sabe? Quando está escrevendo um manuscrito. Ele faz traduções do Grego.
—Eu sei — sorriu Lady Rudland.
—Grego antigo.
—Sim — disse Lady Rudland com um suspiro. Aquela não era a primeira vez que Sir Rupert Cheever perdia a filha. —Bom, terá que ir para casa de alguma forma.
—Irei com ela — sugeriu Selena.
—Você e Mikey precisam guardar seus novos brinquedos e escrever as notas de agradecimento. Se não o fizerem esta noite, não recordarão quem lhes deu o que.
—Mas não pode mandar Demetria para casa com um criado. Não terá ninguém com quem conversar.
—Posso falar com o criado — disse Demetria. —Sempre falo com eles em casa.
—Não com os nossos — sussurrou Selena. —São estirados e calados e sempre me olham com desaprovação.
—A maior parte do tempo merece ser olhada assim. —Interpôs Lady Rudland, dando a filha um carinhoso tapinha na cabeça. —Faremos um acordo, Demetria. Por que não fazemos que Joseph a leve para casa?
—Joseph! —chiou Selena. —Demetria, que sorte.
Demetria elevou as sobrancelhas. Não conhecia o irmão mais velho de Selena.
—De acordo — disse lentamente. —Eu gostaria de finalmente conhecêlo. Fala dele tão frequentemente, Selena.
Lady Rudland mandou que uma criada fosse chamálo.
—Não o conhece, Demetria? Que estranho. Bom, suponho que só costuma vir no natal e você sempre está na Escócia durante as férias. Tive que ameaçar deserdálo para conseguir que viesse ao aniversário dos gêmeos. Entretanto, não participou da festa por medo de que uma das mães tentasse casálo com uma menina de dez anos.
—Joseph tem dezenove e é muito desejável. —Disse Selena prática. —É um visconde. E é muito atraente. Parecese comigo.
—Selena! —disse Lady Rudland com reprovação.
—Bom, é assim, mamãe. Eu seria muito atraente se fosse um menino.
—Você é bastante bonita sendo garota, Livvy. —Disse Demetria leal, olhando os cachos loiros da amiga com um pingo de inveja.
—Igual a você. Toma, pegue um dos laços da tola da Fiona. De todas as formas, não preciso de todos.
Demetria sorriu ante aquela mentira. Selena era uma boa amiga. Olhou às fitas e teimosa, escolheu o de cetim violeta.
—Obrigado, Livvy. Porei isso para a aula da segundafeira.
—Chamou mãe?
Ante o som da grave voz, Demetria virou o rosto para a entrada e quase ofegou.
Ali estava a criatura mais esplêndida que tinha contemplado. Selena disse que Joseph tinha dezenove anos, mas Demetria o reconheceu imediatamente como o homem que realmente seria. Seus ombros eram maravilhosamente largos e o resto dele era esbelto e firme. Tinha o cabelo tão escuro como o de Selena, mas com reflexos dourados, dando mostras do tempo passado sob o sol. Mas a melhor parte decidiu imediatamente Demetria, eram seus olhos, de um brilhante azul claro, como os de Selena. Também brilhavam com malicia.
Demetria sorriu. Sua mãe sempre dizia que alguém podia conhecer uma pessoa pelos olhos e o irmão de Selena tinha bons olhos.
—Joseph, poderia, por favor, escoltar Demetria para casa? —perguntou Lady Rudland. —O pai dela parece ter se entretido.
Demetria se perguntou por que ele fez uma careta quando a mãe falou o nome dele.
—Claro que sim mamãe. Selena teve uma boa festa?
—Magnífica.
—Onde está Mikey?
Selena deu um encolher de ombros.
—Está lá fora brincando com o sabre que Billy Evans lhe deu de presente.
—De mentira, espero.
—Que Deus nos ajude se fosse. —Adicionou Lady Rudland. —De acordo, Demetria, hora de ir para casa. Acredito que sua capa está no aposento do lado.
Desapareceu através da entrada e emergiu segundo depois com o prático casaco de Demetria.
—Podemos ir, Demetria? —A criatura com aparência de um deus lhe estendeu a mão.
Demetria se encolheu dentro de seu casaco e colocou a mão sobre a dele. Era o paraíso!
—A verei na segundafeira! —gritou Selena. —E não se preocupe pelo que Fiona disse. Só é uma estúpida.
—Selena!
—Bom, é que o é, mamãe. Não quero que volte.
Demetria sorriu enquanto permitia ao irmão de Selena guiála para o vestíbulo, as vozes de Selena e Lady Rudland foram se apagando lentamente.
—Muito obrigada por me levar para casa, Joseph — disse brandamente.
Ele voltou a fazer uma careta.
—S... Sinto muito — disse rapidamente. —Devia ter dito milord, não é? É só que Selena e Mikey sempre se referem a você por seu nome e eu... —Baixou os olhos tristes para o chão.
Só estava ha dois minutos em sua esplêndida companhia, e já havia metido os pés pelas mãos.
Ele se deteve e se agachou para que ela pudesse ver seu rosto.
—Não se preocupe pelo "milord", Demetria. Direi um segredo.
Os olhos de Demetria aumentaram e esqueceu respirar.
—Desprezo meu nome de batismo.
—Isso não é tão segredo, Jos... Quero dizer, milord, digo, como é que deseja ser chamado? Faz careta cada vez que sua mãe o diz.
Ele sorriu. Sentiu um aperto no coração quando viu aquela garota com expressão muito séria brincando com sua indomável irmã. Era uma pequena criatura de aspecto gracioso, mas havia algo verdadeiramente adorável em seus grandes e comoventes olhos castanhos.
—Como o chamam? —perguntou Demetria.
Ele sorriu ante seu modo direto.
—Adam.
Por um momento, acreditou que ela talvez não respondesse. Simplesmente ficou ali, totalmente quieta à exceção do piscar de seus olhos. E então, como se tivesse chegado por fim a uma conclusão, disse:
—É um nome agradável. Um pouco estranho, mas eu gosto.
—É muito melhor que Joseph, não acha?
Demetria assentiu.
—Você escolheu? Sempre acreditei que as pessoas deveriam escolher seus próprios nomes. Acredito que muitos escolheriam diferente ao que têm.
—E qual você escolheria?
—Não estou segura, mas não seria Demetria. Algo mais singelo, eu acredito. As pessoas esperam coisas diferentes de uma Demetria e quase sempre os decepciono quando me conhecem.
—Tolices — disse Adam energicamente. —É uma Demetria perfeita.
Ela sorriu radiante.
—Obrigada, Adam. Posso chamálo assim?
—É obvio. E não o escolhi, receio. É só um título de cortesia. Visconde Adam. O uso ao invés de Joseph desde que fui a Eton.
—OH. Creio que combina com você.
—Obrigado — disse ele gravemente, completamente enfeitiçado por aquela séria menina. —Agora, me dê de novo à mão e poderemos seguir caminho.
Ele levantou a mão para ela. Demetria rapidamente trocou a fita da mão direita à esquerda.
—O que é isso?
—Isto? OH, uma fita para o cabelo. Fiona Bennet deu de presente duas dúzias a Selena e Selena disse que poderia ficar com uma.
Os olhos de Adam se entrecerraram ligeiramente quando recordou as últimas palavras de Selena. “Não se preocupe pelo que Fiona disse”. Tirou a fita da mão dela.
—As fitas são para os cabelos, acredito.
—OH, mas não combina com o vestido — disse Demetria em um frágil protesto.
Ele já a tinha colocado no alto de sua cabeça.
—Que tal está? —sussurrou ela.
—Esplêndido.
—De verdade? — aumentou os olhos duvidosos.
—Sério. Sempre pensei que as fitas violetas brilhavam especialmente bem com o cabelo castanho.
Demetria se apaixonou ali mesmo. O sentimento foi tão intenso que quase se esqueceu de agradecer pelo elogio.
—Vamos? —disse ele.
Ela assentiu, sem confiar em sua voz.
Saíram da casa e foram aos estábulos.
—Acredito que teremos que ir a cavalo — disse Adam. —Faz um dia muito bom para ir de carruagem.
Demetria voltou a assentir. Fazia um dia anormalmente quente para março.
—Pode pegar o pônei de Selena. Estou segura de que não se importará.
—Livvy não tem um pônei — disse Demetria, encontrando por fim a voz. Agora tem uma égua. Eu também tenho uma em casa. Não somos bebê, sabe?
Adam conteve um sorriso.
—Não, já vejo que não. Que tolo da minha parte. Não estava pensando.
Poucos minutos depois, os cavalos estavam selados e se colocaram em marcha para o caminho de quinze minutos até a casa dos Cheever.
Demetria permaneceu em silêncio o primeiro minuto ou algo assim, muito perfeitamente feliz para estragar o momento com palavras.
—Foi boa a festa? —perguntou finalmente Adam.
—OH, sim. A maior parte foi encantadora.
—A maior parte?
Viua fazer uma careta. Era óbvio que se arrependia de ter dito muito.
—Bom — disse com lentidão, capturando o lábio entre os dentes e logo o soltando antes de continuar — uma das garotas me disse algumas coisas desagradáveis.
—Sim?
Sabia que não devia ser muito curioso.
E obviamente, estava certo, porque quando Demetria falou, recordou um pouco a sua irmã, olhandoo com olhos francos enquanto as palavras saíam com firmeza de sua boca.
—Foi Fiona Bennet — disse, com grande aversão — e Selena a chamou de estúpida, e devo dizer que não sinto que o tenha feito.
Adam manteve a expressão apropriadamente grave.
—Eu tampouco, se Fiona disse coisas desagradáveis de você.
—Sei que não sou bonita — soltou Demetria. —Mas é descortês dizêlo, sem mencionar que é claramente malvado.
Adam a olhou durante um longo momento, não de todo seguro de como consolar à pequena. Não era bela, isso era verdade, e se tentasse lhe dizer que era ela não acreditaria. Mas não era feia. Simplesmente era... Um pouco... Elegante. Salvouse, entretanto, de ter que dizer algo devido ao seguinte comentário de
Demetria.
—Acredito que é este cabelo castanho.
Ele elevou as sobrancelhas.
—Não está na moda — explicou Demetria. —E tampouco meus olhos castanhos.
Sou muito magra e meu rosto é muito longo, e também sou muito pálida.
—Bom isso é verdade — disse Adam.
Demetria virou para olhálo, os olhos grandes e tristes no rosto.
—Certamente tem os olhos e o cabelo castanhos. Não há como dizer o contrário. —Inclinou a cabeça e fingiu examinála completamente. —É magra, e seu rosto é de fato um pouco longo. E definitivamente é pálida.
Os lábios tremeram e Adam não pôde mais brincar com ela.
—Mas acontece — disse com um sorriso — que eu mesmo prefiro as mulheres com o cabelo e os olhos castanhos.
—Não é verdade!
—É sim. Sempre preferi. Também gosto das magras e pálidas.
Demetria o olhou com receio.
—E o rosto longo?
—Bem, devo admitir que nunca pense muito nisso, mas com certeza não me importa um rosto longo.
—Fiona Bennet disse que tenho os lábios grandes — disse quase desafiante.
Adam engoliu um sorriso.
Ela suspirou pesadamente.
—Nunca me dei conta de que tinha os lábios grandes.
—Não são tão grandes.
Ela lançou um olhar receoso.
—Só diz isso para que eu me sinta melhor.
—Na realidade sim que quero que se sinta melhor, mas não o digo por isso. E a próxima vez que Fiona Bennet diga que tem os lábios grandes, diga a ela que se engana. Que tem os lábios cheios.
—Qual é a diferença? –o olhou impaciente, com seus escuros olhos sérios.
Adam respirou fundo.
—Bom — andou com rodeios. —Os lábios grandes não são atraentes. Os cheios sim.
—OH. —Aquilo pareceu satisfazêla. —Fiona tem os lábios finos.
—Os lábios cheios são muito melhores que os finos — disse Adam enfaticamente.
Gostava muito daquela divertida pequena e queria fazêla sentirse melhor.
—Por quê?
Adam ofereceu uma silenciosa desculpa aos deuses da etiqueta e o decoro antes de responder:
—Os lábios cheios são melhores para beijar.
—OH. —Demetria ruborizou, e logo sorriu. —Bem.
Adam se sentiu absurdamente feliz, consigo mesmo.
—Sabe o que penso Senhorita Demetria Cheever?
—O que?
—Acredito que só precisa crescer — arrependeuse no mesmo minuto em que disse. Certamente lhe perguntaria o que queria dizer, e não tinha nem ideia do que responder.
Mas a precoce pequena simplesmente inclinou a cabeça a um lado enquanto só pesava sua declaração.
—Espero que tenha razão — disse por fim. —Olhe só minhas pernas.
Uma discreta tosse mascarou a risada que brotou da garganta de Adam.
—O que quer dizer?
—Bom, são muito longas também. Mamãe sempre diz que começam nos ombros.
—Parece que começam apropriadamente em sua cintura.
Demetria riu como uma menina.
—Diziao metaforicamente.
Adam piscou. Aquela menina de dez anos tinha de fato um vocabulário extenso.
—O que quero dizer – continuou — é que minhas pernas têm um tamanho equivocado comparadas com o resto de mim. Creio que é por isso que não posso aprender a dançar. Sempre estou pisando nos pés de Selena.
—Os pés de Selena?
—Praticamos juntas — explicou Demetria com energia. —Acredito que se o resto de meu corpo fosse igual as minhas pernas não seriam tão lerdas. Então creio que tem razão. Tenho que crescer.
—Esplêndido — disse Adam, dandose conta com felicidade de que de algum jeito pode dizer exatamente o adequado. —Bem, parece que chegamos.
Demetria elevou a vista para a casa cinza de pedra que era seu lar. Estava localizada em uma das muitas ruas que conectava aos distritos dos lagos, e as pessoas tinham que cruzar por uma pequena ponte empedrada para chegar à porta principal.
—Muito obrigada por me trazer para casa, Adam. Prometo que nunca o chamarei de Joseph.
—Também promete beliscar Selena se me chamar de Joseph?
Demetria soltou um risinho e colocou a mão na boca. Assentiu.
Adam desmontou e então se virou para a pequena e a ajudou a desmontar.
—Sabe o que acredito que deveria fazer Demetria? —disse de repente.
—O que?
—Acredito que deveria fazer um diário.
Ela piscou surpreendida.
—Por quê? Quem ia querer lêlo?
—Ninguém, tola. Para você mesma. E talvez algum dia, depois que morra, seus netos o lerão e saberão como foi quando era jovem.
Ela inclinou a cabeça.
—O que acontece se não tiver netos?
Adam elevou a mão, impulsivo e a despenteou.
—Faz muitas perguntas, gatinha.
—Mas o que acontecerá se não tiver netos?
Deus era persistente.
—Talvez seja famosa. –Suspirou. —E as crianças que a estudem na escola irão querer saber coisas sobre você.
Demetria lançou um dúbio olhar.
—OH, muito bem, quer saber a verdadeira razão de por que acredito que deveria ter um diário?
Ela assentiu.
—Porque algum dia vai crescer e será tão bonita como já é. E então poderá olhar para trás em seu diário e se dar conta de quão tolas são as meninas pequenas como Fiona Bennet. E rirá quando recordar a sua mãe dizendo que suas pernas começam nos ombros. E talvez me guarde um pequeno sorriso quando recordar a agradável conversa que tivemos hoje.
Demetria o olhou, pensando que devia ser um daqueles deuses gregos sobre os que seu pai sempre lia.
—Sabe o que acredito? –sussurrou. —Acredito que Selena é muito afortunada de te ter como irmão.
—E eu acredito que é muito afortunada ao têla como amiga.
Os lábios de Demetria tremeram.
—Guardarei um grande, grande sorriso para você, Adam — sussurrou.
Ele se inclinou e beijou graciosamente o dorso da mão dela como se fosse à dama mais bela de Londres.
—Se ocupe de que assim seja, gatinha.
Sorriu e assentiu antes de subir ao cavalo, levando a égua de Selena atrás.
Demetria o olhou até que desapareceu depois do horizonte e logo ficou olhando durante uns bons dez minutos mais.
Mais tarde aquela noite, Demetria entrou no estúdio de seu pai. Este estava inclinado sobre um texto, inconsciente da cera da vela que jorrava sobre a escrivaninha.
—Papai, quantas vezes tenho que te dizer que vigie as velas? —suspirou e pôs a vela em seu suporte adequado.
—O que? OH, querida.
—E necessita mais de uma. Está muito escuro aqui para ler.
—Sim? Não tinha me dado conta. —Piscou e semicerrou os olhos. —Não passou já á hora de ir à cama?
—A babá diz que podia ficar acordada meia hora mais esta noite.
—Sim? Bem, o que ela diga então. —Inclinouse sobre o manuscrito outra vez, despachandoa efetivamente.
—Papai?
Ele suspirou.
—O que foi Demetria?
—Tem um caderno sobrando? Como os que usam quando está traduzindo, mas antes que copie o rascunho final?
—Creio que sim. —Abriu a última gaveta da escrivaninha e remexeu nela. — Aqui. Mas o que deseja fazer com ele? É um caderno de qualidade, sabe? E não um barato.
—Vou escrever um diário.
—Agora? Bem, suponho que é um esforço elogiável. —Estendeu o caderno.
Demetria sorriu radiante ante o elogio de seu pai.
—Obrigada. Deixarei saber quando acabar o espaço e necessite outro.
—De acordo, então. Boa noite, querida. —Voltou para seus papéis.
Demetria abraçou o caderno contra o peito e correu escada acima para seu quarto. Tirou um pote de tinta e uma pluma e abriu o caderno na primeira página.
Escreveu a data, e depois de muito pensar, escreveu uma única frase. Parecia ser tudo o necessário.
2 de Março de 1810
Hoje me apaixonei.